O dia em que um asteroide destruiu a Terra

Ou as crônicas dos arrependimentos de uma vida mortal

Seria um dia comum, não fosse pela estranha coloração do céu.

Passavam das doze quando finalmente levantou da cama. Antes disso, ficou cerca de uma hora rolando e enrolando, de um lado para o outro, enquanto deslizava o dedo pela tela do seu celular.

Não sabia o que fazer hoje.

Talvez um pouco mais da velha rotina de sempre, pensou. Estudar, trabalhar e jogar.

Estava viciado em um novo jogo online, desses onde se compete para ver quem é o melhor. Compensava suas frustrações tentando se superar naquele ambiente seguro de pontuações, níveis e espadas.

Enquanto isso, deixava mofar seus sonhos e anseios, cuja motivação já se encontrava fatigada perante os socos e pontapés da vida.

Lá fora tudo parecia difícil. Tudo era trabalhoso.

Não que jogar não desse trabalho. Também era preciso se esforçar, mas ainda assim tinha algo de diferente entre o real e o virtual.

A vida não dava certezas. Não é como se pudesse matar monstros e tivesse suas recompensas garantidas.

Estudava já há pelo menos 15 anos e até agora não havia provado do fruto dos seus conhecimentos. Tentava ser uma pessoa do bem, mas nem por isso tinha mais amigos ou um relacionamento amoroso.

Todos os dias tinha algumas ideias que considerava como geniais, mas sabia que entre a idealização e a realização existia um abismo quase que intransponível.

Terminou de lavar o seu rosto.

Olhou para o espelho e se percebeu diante de uma figura tantos anos mais velha do que esperava.

A vida não tinha freios e havia acabado o pão. Vestiu alguma coisa e partiu para a rua em direção ao mercadinho do bairro.

Entretanto, havia algo de diferente.

O céu estava estranho. Avermelhado como nunca esteve, com uma coloração manchada de sangue.

Mal percebia que nesse tempo algumas pessoas corriam nuas pela rua.

“É o fim do mundo!”, gritavam elas.

E foi assim que a sua ficha caiu e uma onda de arrependimentos começavam a eclodir em seu coração.

Havia percebido que não estava agindo de acordo com a sua essência. Tinha entendido a sua responsabilidade diante dos problemas do mundo. Que ele poderia ter feito, sido e vivido muito mais. Que cada pequeno segundo importava.

Se pudesse, faria tudo diferente, imaginou.

No céu, o asteroide descia em chamas e se tornava cada vez maior e opressor. A temperatura estava pelo menos dez graus mais alta e o calor chegava a doer na pele. O rugido, como de um leão de folego sem fim, vibrava em seus tímpanos como se pudessem estourá-los a qualquer momento.

Fechou os olhos com um desejo ardente de que aquilo fosse apenas um sonho.


Acordou com um pulo da cama.

Estava suando e com o coração acelerado. Apertou com força o próprio peito e demorou um tempo para entender melhor o que havia acontecido.

Ficou grato como nunca. 
Virou para o lado e voltou a dormir.

Ainda eram onze horas.