Vamos falar sobre Solidão — O dia em que a minha mãe me deixou

Minha memória mais antiga de solidão remete ao primeiro dia que fiquei sozinho em casa.

Eu devia ter apenas três anos quando a minha mãe saiu para comprar algo na padaria. Aqueles breves minutos se tornaram uma eternidade na minha cabeça.

Naquele momento eu comecei a imaginar que eu estaria sozinho para sempre. Ela não iria mais voltar. Eu havia sido abandonado ou algo tinha acontecido com ela?

Fiquei pendurado na janela, desesperado tentando ver se ela já estava voltando. Porém ela não estava. Queria chorar, mas sabia que ninguém iria ouvir.

Então ela voltou. Fiquei em prantos e a abracei pedindo para que não me deixasse mais.


Eu nunca consegui entender as pessoas que amam a solidão.

Tenho inveja, na verdade.

Isso porque, como filho único de pais relativamente ausentes, eu sempre estive sozinho. A coisa da padaria foi apenas um prefácio.

E ainda que as pessoas estivessem presentes, a sensação de isolamento sempre esteve comigo. Nas reuniões de família, sempre me escondi atrás dos vídeo games. Talvez não fosse só culpa do mundo. Eu também procurava estar sozinho, ainda que odiasse aquilo.

Na escola, demorei para conseguir ter um grupo de amigos. Todos os anos as turmas mudavam e eu tinha que me adaptar aos novos colegas. Crianças são seres completamente egoístas.

Lembro que meu primeiro amigo se esqueceu de mim assim que mudou de sala. Mas eu não era muito melhor. Eu tinha um primo que morava por perto e que eu só ia visitar se o tédio fosse bravo. Quantas pessoas a gente já não usou na vida, só pra matar o tempo?

A vida é um ir e vir de pessoas. As pessoas se afastam quando entram para a Faculdade, retornam, então se casam e somem de novo.

E isso é normal. Você não pode estar sempre acompanhado. Moramos sozinhos, trocamos de trabalho, nossos amigos também tem mais o que fazer. A cena da sua mãe te abandonando para comprar pão não faz mais sentido algum.

E mesmo entendendo isso, o sentimento de solidão permanece dentro de mim todos os dias.

Não apenas porque eu trabalho em home office e acabo ficando mais isolado socialmente que o normal. Não porque as pessoas desmarcam os compromissos comigo e me deixam frustrados. Não porque meus amigos simplesmente decidem morgar nos finais de semana.

Mas simplesmente porque vivemos em uma era de desconexão.


Parece que existe uma distância intransponível entre nós.

Estamos sempre querendo que nos olhem, mas poucas vezes estamos realmente interessados no outro.

Tudo é superficial demais.

Não compartilhamos dos nossos sonhos, crenças e ideias. Preferimos falar sobre frases prontas e imagens bobas. A nossa empatia existe através de vídeos de gatinhos.

Eu me sinto sozinho porque parece que existem poucas pessoas de verdade lá fora.

Ninguém quer compartilhar as suas dores. Queremos ser fortes e por isso usamos tantas máscaras. Tudo se tornou padronizado e artificial.

O contato humano se resume ao interesse próprio. Tente puxar assunto com alguém que você não vê há anos e eu te digo como vai acabar. “Vamos marcar algo!”. “Sim, vamos”. “Ok, vamos nos falando”.

E quanto mais tempo se passa, mais percebo que a solidão aumenta.

Porque a questão nunca será você. Será o que eu ganho com você. Vivemos em uma era onde se importar com o outro se tornou obsoleto.

  • As pessoas realmente se importam com o racismo, ou só falam disso para parecer mais éticos?
  • Eu realmente me importo com a sua dor, ou estou querendo ser uma pessoa mais legal?
  • Eu sou realmente romântico, ou só estou querendo ganhar pontos pra te pegar?

Estamos conectados o dia inteiro, apenas para sermos lidos e ignorados. A solidão não é uma questão presencial. É uma questão da alma.


O texto tinha acabado, mas eu me descobri errado.

É importante deixar claro que, quando falo da superficialidade das nossas relações, não estou apenas culpando o outro. Também estou falando de mim.

Acima de tudo, é importante se colocar como responsável pelos seus problemas. Ninguém pode mudar outra pessoa que não seja a si mesmo.

É impossível garantir a atenção, o comportamento e a agenda dos demais. A grande questão é: por que eu me sinto sozinho e desconfortável na sua ausência?

Eu acredito que cada pessoa seja uma representação de uma particularidade interna. Nós interpretamos o outro através do nosso próprio Ego.

Então nos cabe perguntar: porque nos sentimos tão desconectados com os nossos Pedro, Maria e José internos?

Talvez, as pessoas que buscamos lá fora sejam as nossas partes da personalidade que precisamos desenvolver. A solução então, seria olhar para dentro e começar a procurar pelas ausências internas do seu próprio ser.


Texto do Dia Inteiro e mais um pouco — 15/08/2016

Sabe a minha mania de começar um projeto e nunca terminar? Pois é, agora eu tenho feito isso com meus textos.

Fico curioso pra saber como outras pessoas pensam sobre isso. Se não for pedir demais, você pode deixar um comentário falando disso?

E claro, recomende ❤ o texto se você não for uma pessoa desalmada!