O TAL AMOR

De sobrolho levantado e copo de whisky na mão.

Roger deambulava por aquela sala fria mas cheia de recordações.

O ranger da madeira, o tapete florido bordado à mão pela avó.

A poltrona de tons claros e o candeeiro à meia-luz.

Vestia o seu melhor fato preto impecavelmente passado.

A camisa branca imaculada e a gravata justa ao pescoço.

A ocasião obrigava-o a tal formalidade.

A garganta seca piora a cada segundo que (não) passa.

Decide colocar aquele disco de sempre a tocar baixinho.

Precisava de se acalmar!

Afinal, não o via há tempo demais.

Num trago único finaliza a sua bebida e pousa o copo na mesinha ao lado na poltrona.

Senta-se.

Desespera.

Hoje, nem a música o acalma.

A azáfama da cidade contrasta com o silêncio profundo daquela sala antiga.

Da poltrona, vê a comprida estante, carregada daquelas capas multicolores que sempre o encantara.

Ouve os passos dele ao longo do corredor.

Tudo o que mais queria era abraçá-lo.

A porta range abrindo devagar.

Vê-o!

Como está lindo no seu fato bege.

Roger aproxima-se.

Quer um beijo, o tal beijo carinhoso há tanto esperado.

A frieza invade a sala.

Porque mudara tanto?

Porque estaria o seu pai tão amargurado?

Ele não o reconhecera, é certo.

Roger engole em seco, a demência tomara conta da sua vida…

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