Tudo bem ser você mesmo.

Quando eu era criança, meu pai dedicou algumas horas (e alguma paciência) para me apresentar um mundo diferente.

Ele ficava dentro de uma caixa cinza com alguns detalhes em preto. Na frente, em letras vermelhas eu li: “Nintendo Entertainment System”, ainda que não fizesse idéia do que aquilo significava. Como tantos outros, diminuí aquele nome todo para “Nintendo”.

Nintendo Entertainment System, mais conhecido como NES ou Nintendinho

Ao ser ligado, surgiu na tela o tal mundo novo. Com um controle em mãos, ele controlava um homenzinho bigodudo que precisava enfrentar algumas dificuldades. Foi ali que conheci e me apaixonei pelo meu primeiro jogo do Mario. A partir daí, jogos eletrônicos se tornaram minha principal e maior fonte de diversão, e estavam sempre relacionados aos presentes que eu queria ganhar em datas especiais.

Em minha infância, era relativamente fácil lidar com isso. Não tive problemas com meus coleguinhas por ser menina e gostar de videogame, na verdade, era até bacana fosse você menino ou menina gostar de jogar e ter videogames.

Entre 8 e 10 anos, ganhei meu primeiro computador, e a partir dali descobri que podia jogar outros joguinhos, além de navegar na internet. Pronto, não precisava de mais nada se unisse isso aos canais de desenho na TV. Dizer que eu não saía e não interagia com outras crianças era bobagem, eu tive uma infância de muitas brincadeiras de rua, muito rolar na lama, muita bagunça. Mas, de fato, eu me sentia muito bem quando estava jogando.

À medida em que fui ficando mais velha, esse universo eletrônico/virtual começou a se tornar ainda mais constante na minha vida, e eu tomei um rumo ligeiramente diferente dos meus colegas de escola. Não é que eu não tivesse amigos, eu tive muitos enquanto estava no colégio. É só que pouco a pouco eu fui perdendo o interesse em ficar saindo de casa. Os motivos foram muitos, desde pura preferência, até outros que não vale a pena citar aqui, mas no final das contas eu me identifiquei como uma pessoa ligeiramente introvertida para esse tipo de coisa, e até hoje evito ao máximo baladas, lugares barulhentos e afins. E aí começou o problema.

Imagem retirada do site http://vitals.lifehacker.com/

“Você devia sair mais”

Depois de uma certa idade, lá pelo final da adolescência e comecinho da vida adulta (ou até um pouco antes), algumas pessoas ao meu redor, muitas vezes as mesmas que anos antes adoravam jogar comigo, começaram a reclamar da minha pouca disponibilidade para determinados programas sociais.

“Você tem que sair mais de casa, desse quarto. Sair desse computador.”

Nunca entendi. Ora, da mesma forma que as pessoas acham tão produtivo ir pra uma balada, eu achava produtivo ficar no computador ou no videogame. O argumento de que eu estava perdendo momentos importantes de interação social era balela. Na internet eu conheci muita gente legal, muita gente que gostava das mesmas coisas que eu. Ser “nerd”, introvertida ou qualquer nome que dessem, me proporcionou conhecer amigos que, por menor que seja meu contato hoje em dia, ainda são pessoas importantes na minha vida.

Saí do quarto e me arrependi. Não é que pra ser nerd, pra ser gamer ou qualquer coisa assim você tenha que ceifar sua vida social. Eu tenho amigos absolutamente viciados em games que tem uma vida social até bem ativa e movimentada, e tudo bem. A questão é que se uma pessoa se sente melhor em casa, sem a música alta, sem a obrigação de socializar, de ter assunto, sem essa necessidade de confraternização semanal (e às vezes diária), tudo bem também. É preciso parar com essa idéia de que a pessoa, seja ela nerd ou não, que não gosta de sair de casa não é boa amiga ou boa companheira. É apenas o jeito de alguém ser, e essa pessoa é apenas diferente de você.

Imagem retirada do Tumblr

“Mas tudo tem limite, né?”

Aos poucos o meu hobby começou a ser motivo de insatisfação. Lembro de ter ouvido, uns 8 anos atrás que já estava na hora de parar com “joguinhos”.

Ouvi que esses eventos de anime eram babacas, ridículos, que uma pessoa adulta não deveria continuar com essas besteiras. Vi pessoas da minha idade serem condenadas por usarem cosplay, por se considerarem otakus, etc. Confesso que por um bom tempo eu julguei muito essa galera otaku, talvez porque tenha ganhado um sentido tão negativo e depreciativo. O que falhei em perceber é que assim como eles, eu também não fui tão aceita quanto deveria ter sido.

Hoje, toda vez que vejo algo sendo dito sobre cosplayers, há pessoas para dizer que aquilo é uma bobagem imensa, que os cosplayers são babacas e imaturos, que gastam dinheiro à toa. Por que? Como foi supostamente dito pela Adidas em seu Twitter essa semana, qual o problema em se vestir como um personagem para homenagear o que ama, se outras tantas pessoas também se “fantasiam” para ir ao estádio de futebol? Qual o problema em se vestir de determinado personagem para um evento, se tantas pessoas consideram normais fazer exatamente a mesma coisa para uma festa à fantasia? Digo mais. Qual o problema em investir altos valores para participar de concursos de cosplayer quando há mulheres que investem o triplo do preço para participar de concursos de beleza?

Existem cosplays que são verdadeiras obras de arte. Lindos, bem feitos, bem trabalhados. E existem os que talvez não sejam perfeitos, mas que entregam o que devem entregar a quem faz: diversão. Não tem essa de ter que ter o mesmo corpo que a personagem, ou qualquer coisa assim. Você está lá para se divertir, então divirta-se como puder.

Fico me perguntando por que incomoda tanto que as pessoas estejam ali se divertindo sem machucar ninguém. Vale lembrar em todo caso que diversão também não tem idade.

Imagem retirada do tumblr http://all-geeks-are-real-geeks.tumblr.com/

O mesmo vale para Lolitas. Recentemente eu conheci duas meninas maravilhosas que estão envolvidas com o “universo” Lolita, e toda vez que vejo as duas vestidas e arrumadas fico imaginando o que elas já tiveram que aguentar de comentários e olhares na rua. Novamente, por que? Eu, toda vez que vou sair, vou no armário e escolho a roupa que me veste melhor, com a qual eu me sinto bem naquele dia. Fico até uma hora e meia passando maquiagem, me emperequetando para sair na rua (muitas das vezes sem nenhuma ocasião especial). Então por que eu sou aceita tão melhor quando saio do que minhas amigas Lolitas? Só porque os vestidos tem mais babados, e saias mais cheias? Isso não faz o menor sentido pra mim, e nem deveria fazer pra você.

Imagens retiradas do site www.cacadoresdelendas.com.br

A verdade é uma só

Embora cada pessoa escolha um caminho a seguir e desenvolva suas próprias paixões e hobbies, todos nós lidamos com nossos “vícios” de forma parecida. Nos apaixonamos por alguma coisa, nos dedicamos a isso, exibimos e nos deliciamos em expôr essa paixão das mais variadas formas. Todavia, quando algo não faz parte desse universo que criamos pra nós mesmos, quando algo sai da reta que nós traçamos como coisas “normais”, criticamos. Questionamos. Apontamos dedos.

Parte do caminho em direção à maturidade também é aceitar as diferenças e celebrá-las. Não é fingir que todo mundo é igual e condicionar as pessoas a gostar das mesmas coisas que você, é aceitar que cada um tem suas particularidades e deixar que as pessoas vivam as próprias vidas como acharem melhor, ainda que pra você pareça bobeira. É, antes de criticar alguém, se perguntar se você não age exatamente da mesma forma para um assunto diferente.

Dessa forma, venho por meio desse desabafo em forma de textão pedir algo que nem deveria precisar pedir: Deixem os nerds em paz.

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