A Chama Inextinguível

Nice Books
Jul 24, 2017 · 4 min read

O puritano Richard Sibbes referiu-se a Reforma Protestante como sendo a “chama que o mundo inteiro jamais será capaz de extinguir”. Com esta frase, Michael Reeves encerra sua obra sobre a Reforma e dela tira o título para o seu excelente trabalho, que de forma leve e didática, introduz brilhantemente qualquer leigo no assunto — fazendo dele um bom conhecedor dos meandros que levaram os reformadores a agir da forma que agiram.

A Chama Inextinguível, editado pela Monergismo, começa com um prólogo de tirar o fôlego. Reeves nos ambienta na Dieta de Worms e mostra a convicção de Lutero ao não voltar atrás e endossar sua produção literária, mesmo correndo o risco de ser morto como herege. Mas, como falou mais tarde o reformador alemão: “mesmo que tivesse mil cabeças, preferia vê-las todas decepadas a abandonar o evangelho”. Lutero sabia que estava trilhando um caminho sem volta e percorreu este caminho com coragem e lucidez.

O primeiro dos sete capítulos do livro trata da religião mediavel e desvela o contexto que motivou a eclosão da Reforma. Reeves é enfático ao afirmar que os reformadores lutaram contra o velho mundo do catolicismo e por isso, trata da Reforma como uma revolução, nomenclatura usada também por Alister McGrath em “A Revolução Protestante”. Levando em conta que toda revolução gera mudança nas estruturas de uma sociedade, abalando seus mecanismos de poder, não está errado categorizar como revolucionário o movimento que enfraqueceu a — até então — toda poderosa igreja romana, a grande “Senhora Feudal” da Idade Média.

O segundo capítulo é sobre Lutero, e o autor adjetiva o reformador como sendo o “vulcão de Deus”. De fato, o temperamento de Martinho rende um capítulo à parte na história da Reforma, mas Reeves não transforma sua escrita num relato exagerado e caricato. De modo algum. Lutero é apresentado com todas as suas peculiaridades, mas elas estão dentro do contexto macro de suas realizações como principal reformador. Reeves nos mostra o que de extraordinário fazia este alemão, alternando com seus feitos comuns, tais como jogar boliche e beber cerveja em longas rodas de conversa.

Segue-se um capítulo sobre Zuínglio, um importante reformador, mas que não é tão conhecido como Lutero e Calvino. Por isso é um dos mais impressionantes capítulos do livro, pois, é o que nos oferece mais descobertas, já que a figura nele retratada é rodeada de certo mistério. De Zuínglio a Calvino, o quarto capítulo fala do reformador de Genebra e conta quais foram os desafios em tornar aquela cidade em um “centro internacional para propagação do evangelho”. Reeves escolhe bem os fatos no qual destaca e nos doa um relato vívido das aflições pelas quais passou Calvino, tanto aflições causadas por perseguições de seus opositores, quanto aflições causadas por uma saúde extremamente frágil. Sem dúvida, um dos capítulos mais emocionantes.

Os capítulos 5 e 6 falam sobre a Reforma na “Terra da Rainha”, que na ocasião ainda era terra de um rei: Henrique VIII. Foi com ele que a reforma deu um pontapé inicial, não muito por questões doutrinárias. O anglicanismo, fundado pelo rei, foi algo estritamente político, e ele passa a ser o soberano também da esfera religiosa. Reeves é certeiro ao apontar as intenções de Henrique VIII: “Ele não queria que a Inglaterra se tornasse protestante, nem que se tornasse católico romana. Ele queria um catolicismo inglês, livre de todos os laços e corrupções romanas”. Mas, mesmo assim, o protestantismo acabou penetrando em solo inglês, não antes de enfrentar muitos percalços.

O sexto capítulo fala da saga dos puritanos, que tencionavam uma reforma mais abrangente, sobretudo com um culto mais simples, centrado nas Escrituras. O autor nos diz que o puritanismo “significava reformar toda a vida sob a autoridade única da Bíblia”. Reeves elenca eventos importantes e destaca alguns nomes notáveis dentre os puritanos, mas deixa claro que é impossível afirmar como viviam todos eles, uma vez que formavam um grupo imenso e heterogêneo em muitos pontos. Todavia, há um traço inegável que une a todos: “seu amor apaixonado pela Bíblia, ao estudo bíblico e a audição de sermões”. É nessa parte do livro que vemos o quanto estamos distantes da realidade dos puritanos. Reeves aponta relatos sobre pessoas que caminhavam longas distâncias para ouvir pregações, que davam prioridade a estudos bíblicos que duravam noite a dentro ao invés de danças, e nos fala do corriqueiro fato de sermões que duravam horas, podendo um pregador atingir a marca de sete horas expondo a Palavra. Que hoje são outros tempos é bem verdade, seja para o bem ou para o mal.

O capítulo derradeiro do livro tem por título uma intrigante pergunta: “A Reforma acabou?”. Nele, o autor fala sobre a justificação, que é, segundo as palavras de Calvino ao cardeal Sodoleto: “o primeiro e mais agudo ponto de controvérsia entre nós”. De fato, a justificação foi e continua sendo o ponto mais discordante entre católicos e protestantes, foi este o assunto que levou Lutero a refutar com bastante veemência os escritos de Erasmo e fez com que a ruptura com Roma fosse irreversível para que a igreja pudesse se aproximar mais do Evangelho. Todavia, seria a justificação um tema a ser debatido em nosso século? Seria relevante falarmos a respeito desta doutrina? E quanto a aproximação entre evangélicos e católicos, o que dizer dela? Bem, leia o livro e veja como Reeves defende a importância de mantermos acesa a chama da Reforma, e o porquê do mundo não ser capaz de extinguir esta chama.

(Por Thiago Oliveira — Pastor, marido da Samanta e pai da Valentina)


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Somos dois pastores pernambucanos que amam ler, e gostaríamos de compartilhar aqui as impressões de nossas leituras mais prazerosas.

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