Exercita-te na Piedade

Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas, e exercita-te a ti mesmo na piedade…
1 Timóteo 4:7
Insistindo com Timóteo a que se exercitasse na piedade, Paulo empregou um verbo do mundo dos esportes cuja raiz é traduzida em diferentes versões bíblicas por “exercitar”, “disciplinar” ou “treinar”, e refere-se ao treinamento dos jovens atletas para participação nas competições desportivas da época. Mais tarde esse verbo assumiu um sentido mais geral de treinamento ou disciplina, corporal ou mental em habilidade especial, (p. 43).
Jerry Bridges é um dos autores que precisa ser lido pela nossa época. Sempre com uma teologia de cunho pastoral e que aborda temas especiais sobre a vida cristã, seus livros são verdadeiras fontes de sabedoria bíblica.
Bridges, que faleceu ano passado (2016), nasceu em 1929. Escritor e conferencista; trabalhou mais de sessenta anos com a organização The Navigators, entidade dedicada ao treinamento e ao discipulado cristão. Com isso notamos que ele era alguém dedicado ao mentoreamento de pessoas para uma vida cristã saudável. Bridges nos deixou um legado de escritos preciosos que podem ser encontrados em língua portuguesa.
Exercita-te na Piedade é publicado pela editora Monergismo e vem num bom momento para uma reflexão importante sobre a piedade cristã. Diante da grande massa de informação que temos sobre teologia, com uma enxurrada de publicações de vários campos da teologia e filosofia cristã, o livro de Bridges nos segura ao chão da realidade — e ao mesmo tempo nos mostra a beleza gloriosa de viver em devoção ao Senhor. O livro que foi lançado em 2016 contabiliza o número de importantes obras que estão sendo lançadas para a comemoração dos 500 anos da Reforma Protestante. A devoção a Deus numa vida piedosa é um tema que toca nossas motivações mais profundas. O texto é encorajador, fácil de ler e um excelente material para estudo em pequenos grupos, escolas dominicais, cultos domésticos, grupos de leitura e seminários teológicos.
O livro está divido em dezoito capítulos. Os capítulos são pequenos, isso proporciona ao leitor uma leitura fácil e leve. Com leve não se entenda rasa — do ponto de vista do conteúdo. Os capítulos, por serem pequenos, servem como pequenos textos que nos levam a uma reflexão robusta sobre a devoção cristã. Para Bridges, a melhor definição de piedade é devoção a Deus. Cada capítulo se desenvolve com base em algum texto bíblico que o autor trabalha expondo-o de forma pastoral e aplicativa.
Então Bridges começa nos ensinando algo básico sobre a piedade cristã:
Devoção não é uma atividade; é uma atitude para com Deus. Atitude esta que se constitui de três elementos essenciais:
O temor de Deus
O amor a Deus
O desejo de Deus
O exercício da piedade é uma prática ou disciplina que se concentra em Deus (p.20).
Por isso…
É impossível ser devoto a Deus se o coração não estiver cheio do temor de Deus. É este profundo senso nosso de veneração e honra, reverência e respeito, que suscita de nosso coração o culto e a adoração que caracterizam a verdadeira devoção a Deus. O cristão reverente, piedoso, vê a Deus primeiro em sua glória transcendente, em majestade e santidade, antes de vê-lo em seu amor, misericórdia e graça, (p. 29).
O livro então se desenvolverá com base nessa tônica. Ser piedoso é ser devoto. Vale ressaltar que a obra é uma continuação de Em Busca da Santidade do mesmo autor (e também publicado pela Monergismo). A piedade logo é o resultado natural de uma vida cristã santa e que busca a santidade, isso vem sem dúvida através de exercícios espirituais, iniciados com a leitura da Escritura. “Quando meditamos nas Escrituras, coversamos com nós mesmos a respeito delas, resolvendo na mente os significados, as implicações e as aplicações delas à nossa própria vida”, (p. 55).
Bridges então tratará sobre pontos como a humildade, contentamento, gratidão, alegria, santidade, temperança, fidelidade, paz, benignidade, misericórdia, bondade e amor. Achei interessante a estrutura do autor, pois, nos leva a refletir sobre a piedade cristã através das qualificações do fruto do Espírito descrito em Gálatas 5.
A piedade constitui-se de dois traços distintos, porém complementares, e a pessoa que deseja exercitar-se nela deve buscar ambos com igual vigor. O primeiro traço é a centralidade de Deus, a que chamamos de devoção; o segundo é a semelhança de Deus, a que denominamos caráter cristão. O caráter piedoso flui da devoção a Deus e praticamente confirma a realidade dessa devoção,( p. 71).
Bridges continua nos dizendo que,
Podemos expressar reverência a Deus, elevar o coração em adoração a ele, mas a autenticidade de nossa devoção a ele é o ardente desejo e sincero esforço de assemelhar-nos a ele. Paulo não só desejava conhecer a Cristo, como também assemelhar-se a ele; e avançava com o máximo de intensidade no rumo desse objetivo, (ibdem).
Exercita-te na Piedade é uma leitura que soma com o clássico A Prática da Piedade de Lewis Bayly*, que também trata do assunto. Posso dizer que livros como esses nos mostram que a vida cristã, ou a vida intelectual cristã, não será o que deve ser sem a devoção a Deus. Tanto o livro do Bridges como o do Bayly, bem como o excelente livro Inteligência Humilhada, do pastor Jonas Madureira, nos mostram isso**. Paul Tripp em sua obra Vocação Perigosa diz que teólogos podem ter mentes gigantes e corações doentes. O estudo e a prática da piedade cristã é vital para um crescimento na fé e no conhecimento de Deus.
A piedade é algo a ser buscado e aprofundado como nos ensina Bridges,por isso sobre a prática ele nos instrui mais uma vez:
O exercício da piedade é uma disciplina. Ela demanda sério compromisso e perseverante esforço para atingir o alvo. Escrevendo aos filipenses, da cela de uma prisão romana, quase ao fim da vida, Paulo admitia que ainda não havia atingido esse alvo. Ele ainda estava correndo a corrida da piedade, ainda desejava conhecer mais a Cristo e tornar-se mais semelhante a ele,( p. 271).
Ao usar o termo “exercita-te” devemos entender que há trabalho aqui, há dificuldades, há suor derramado, há esforço e labor.
O que conservava Paulo em marcha enquanto se esforçava para alcançar o que estava adiante? Com que fator motivacional contava ele quando escreveu a Timóteo, dizendo: “Exercita-te pessoalmente na piedade”, sabendo plenamente que tal exercício era uma tarefa árdua, cheia de dificuldades e desestímulos? Alguém observou que o desejo sem disciplina gera desapontamentos, mas a disciplina sem desejo gera esforço penoso e ingrato, (ibdem).
Como é tamanho o desafio, buscar a piedade. Não podemos esquecer que Cristo é o alvo dela (para sermos semelhantes a ele), mas também é o meio para alcançarmos ela, pelo ministério do Espírito Santo que habita na igreja.
Eu recomendo com muita alegria o livro de Jerry Bridges. Para todo cristão que deseja estar mais perto do mestre e ser semelhante a ele em sua vida.
(Por Thomas Magnum — Pastor, Jornalista, Casado com Kelly Gleyssy)
*Em breve publicarei também um Review sobre o livro do Bayly.
**Publicamos também um Review do livro do Jonas Madureira.
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