Inteligência Humilhada

Que você possa encarar o desafio de estudar teologia como um prudente construtor, que primeiro cava fundo para lançar as bases. E só depois disso começa a construir. Evite a tentação de queimar etapas. Teologias genéricas, de baixo custo, construídas sem o tempo necessário, são como casas construídas sem fundamento. Na primeira tempestade, elas desmoronam, p.55.

O livro Inteligência Humilhada é uma recente e esperada obra publicada do Dr. Jonas Madureira. Conhecido (e reconhecido) teólogo e pastor batista, Madureira tem também uma ampla e respeitável formação filosófica, ocupando um lugar importante no cenário de pensadores nacionais. Jonas é editor da Vida Nova, também importante editora do país na área de teologia cristã, com viés reformado. Jonas é professor de importantes seminários teológicos no Brasil como Martin Bucer e Servo de Cristo. Inteligência Humilhada é a segunda obra do Dr. Jonas Madureira a ser publicada no Brasil, sendo também autor de “Filosofia”, volume que faz parte do curso de teologia básica de Edições Vida Nova. Recentemente, Madureira também lançou o projeto Hangar Teológico, onde promove aulas via internet, que também tem tido repercussão positiva em todo território nacional. Além de ser um requisitado palestrante.

Com isso, podemos observar que o autor é um teólogo e filósofo que tem estado em diálogo com nosso tempo, e um respeitado professor no nosso país. Mais uma informação que nos chama muita atenção é seu envolvimento com plantação de igreja, plantando a Igreja Batista da Palavra em São Paulo. Dr. Jonas Madureira é um exemplo de pastor-teólogo.

A obra é madura e cuidadosamente construída com argumentos encadeados sistematicamente, de forma a conduzir o leitor por uma vereda de intelectualidade cristã que reconhece a necessidade da dependência absoluta de Deus para o exercício do serviço cristão. O autor escreveu essa, diga-se de passagem, brilhante obra, subindo nos ombros de gigantes como Agostinho de Hipona, João Calvino, Anselmo de Cantuária, Pascal e o filósofo holandês Herman Dooyeweerd.

Inteligência Humilhada é um livro necessário e urgente para nosso contexto de efervescência teológica no Brasil. Diante do massivo interesse por teologia, principalmente reformada, temos também um certo descontrole do que é de fato ser teólogo, diante de uma avalanche de informações na internet - que muitas vezes enaltece a intelectualidade em detrimento da espiritualidade - o que acaba trazendo vários males para a igreja, que deveria ser o campo de atuação do teólogo cristão. Agora, ela está muitas vezes está apartada da atividade teológica de muitos que ainda não compreenderam qual a finalidade do teólogo. Jonas deixa claro: o teólogo deve ser um cristão que ama a Deus e o busca sedento da graça divina, reconhecendo sua desgraça longe de Deus, do Deus da Bíblia.

Após a leitura do livro fui levado a refletir a importância da obra em conjunto com: “O Pastor como Teólogo Público” de Kevin Vanhoozer e Owen Strachan e “Recomendações aos Jovens Teólogos e Pastores” de Helmut Thielicke. Inteligência Humilhada é, de fato, fundamental para a formação intelectual e espiritual de teólogos cristãos.

O livro está divido em cinco capítulos. Preciso ressaltar que o leitor deve ser paciente no processo de leitura, pois os capítulos são longos. Leitores com falta de prática em leituras longas podem ficar impacientes. No entanto, os argumentos dos capítulos são bem formulados e amarrados a ideia central do autor, e a finalidade de cada capítulo para a convergência da tese do livro. É perceptível que a obra é fruto de extenso estudo e de uma maturidade teológica e filosófica que nos faz deslumbrar a grandeza do Deus Criador e Redentor.

A obratem vários insights maravilhosos, que nos mostram duas coisas no autor: seu conhecimento e sua piedade. O texto se mostra profundamente intelectual e profundamente espiritual. O desenrolar do livro é, na fala do autor, um desenvolvimento piedoso da erudição cristã na formação do teólogo.

“A igreja tem sofrido muito por causa da ausência do pastor teólogo, já que pastores e líderes têm desistido de ser teólogos para se tornarem como que diretores executivos, ou ativistas políticos, ou gurus psicoterapêuticos. Esse quadro parece tornar evidente que teólogos precisam novamente fincar suas raízes na igreja local e servir à membresia com o ensino pastoral e teológico da Palavra”, p.24.

É de fato preocupante a ausência do pastor teólogo em nossas igrejas o que causa o que o autor chamará no último capítulo de “A traição dos teólogos”.

Os cinco capítulos dividem-se de forma a criar uma estrutura lógica e ao mesmo tempo surpreendente no trabalho de Madureira. A Teologia Diante de Deus; O Conhecimento na Desgraça; O Deus Humilhado; A Teologia do Autoconhecimento e A Traição dos Teólogos. Devo ressaltar que a evolução do argumento de Jonas Madureira na elaboração do conceito de Inteligência Humilhada nos faz caminhar pela teontologia, epistemologia, antropologia, autoconhecimento e cosmovisão. O terceiro capítulo é fundamental. A abordagem que Jonas faz da Kénosis e da Phrónesis são fundamentais para entender o que ele trabalhará na parte de Gramática Antropológica Bíblica (que é também muito instigante). A escrita é elegante, muitas vezes bem humorada e pastoral. Em muitos lugares sentimos o autor nos pastorear, nos exortar, nos corrigir, nos orientar. Nos mostrando por exemplo no campo epistemológico o papel da razão no exercício do teólogo.

“A inteligência humilhada é também a consciência da humilhação da razão que nos faz reconhecer o papel fundamental da fé. A razão não precisa morrer, só precisa dobrar os joelhos. A razão que se sujeita a Deus não deve se envergonhar da sua sujeição, nem se inferiorizar pelo fato de reconhecer sua dependência da Revelação. Pelo contrário, a razão, consciente da sua miséria, deveria ser grata pela dádiva da revelação, pois, como aprendemos com nossas mães, quando alguém nos dá um presente, a única reação adequada é a gratidão. É possível ser inteligente e, ao mesmo tempo, piedoso!”, p.27.

O livro segue uma linha monergística, isso de fato fará o livro desenvolver-se de forma teorreferente. A autonomia da razão não tem espaço no conceito de “Inteligência Humilhada”. Dialogando com grandes teólogos reformados, Madureira nos leva ao melhor da tradição calvinista para um entendimento claro do conceito, que como ele mesmo diz, não foi criado por ele, mas está na Bíblia, em Agostinho, Calvino, Pascal, Anselmo e Dooyeweerd. Outros autores como James Sire, Antony Hoekema, Hans W. Wolff, C.S. Lewis e mais uma bibliografia cirúrgica dá peso ao raciocínio do autor e a construção dos seus argumentos.

O livro parte de Deus e termina na cosmovisão cristã. O que quer dizer isso? Minha percepção é que o livro é crescente e ele vai se desenvolvendo no conceito de Criação, Queda, Redenção e Consumação, o motivo básico cristão. Já trabalhado na tradição reformada.

O motivo básico, parece ser a treliça do livro, ou podemos dizer, a coluna vertebral. Dá estrutura organizacional, que vai ganhando ramagens e frutos abastados no decorrer da obra. Deus, conhecimento, Queda, o homem, a cosmovisão são pontos centrais no livro. O objetivo disso é nos levar a uma compreensão clara que para termos uma inteligência humilhada, nosso homem interior deve ser transformado pelo Evangelho e moldado por ele em todas as nossas atividades intelectuais. Por isso ele diz:

O teólogo jamais deveria começar seu trabalho escrevendo ou falando, mas, sim, lendo e ouvindo atentamente. Ouvir a Palavra é ouvir a história que está sendo contada há séculos, ou seja, antes mesmo de nós existirmos, p. 263.

Uma inteligência humilhada é resultado do entendimento do que somos e do que Deus é, um ponto fundamental na antropologia bíblica conforme diz Calvino abrindo as Institutas. Uma compreensão errada do que somos nos leva ao orgulho e nos afasta do que mais precisamos ter como teólogos, então “Quando alguém começa a suspeitar de si mesmo, suas ilusões começam a cair, inclusive a ilusão de que se deve suspeitar de tudo. Por isso, a melhor coisa que o homem pode fazer para se livrar da inautenticidade é destruir as ilusões que ele mesmo criou de si para si”, p.202.

Autoconhecimento é sobretudo suspeita de si mesmo, p.56.

Necessitamos de um autoconhecimento que seja resultado de algo externo a nós, no sentido que, em nós mesmos sem o auxílio da graça não chegaremos a conclusões corretas sobre o que somos e para que existimos.

Então o que nos resta? O livro nos dirá que:

Os psicólogos dizem que o autoconhecimento é transformador, e eu creio nisso, porém não há autoconhecimento que seja mais transformador do que aquele que é fruto da revelação bíblica. Por quê? Porque somente a revelação bíblica oferece a explicação antropológica adequada à realidade do homem insuficiente, isto é, do homem marcado pela eterna referência a Deus, p.190.

Para mim, fica claro no texto, que não teremos uma inteligência humilhada até que reconheçamos nossa desgraça, de que nosso conhecimento da realidade deve vir de fato de uma fonte segura que é a revelação de Deus. Confesso que o capítulo que mais gostei foi o sobre antropologia, com ênfase na Gramática Antropológica Bíblica. O trabalho analítico que o autor fez nos vocábulos bíblicos hebraicos e gregos para nos dar uma precisa compreensão sobre o homem, no que se refere a sua condição integral. Jonas Madureira segue a linha de Hoekema e outros teólogos sobre a unidade psicossomática no homem, isso é importante porque o autor está cativo ao conceito do que é o homem nas Escrituras e não ao conceito grego dualista entre corpo e alma.

Mas de fato, o que é a inteligência humilhada? Madureira nos diz de forma tão clara quando água pura:

A inteligência humilhada é a consciência ferida pela Palavra… Suspira pela possibilidade de receber a revelação de mãos vazias. Essa é a condição intelectual mais apropriada para manter o teólogo íntegro nas sendas soturnas e tenebrosas da fé, p.28.
(…) A inteligência humilhada é também a consciência da humilhação da razão que nos faz reconhecer o papel fundamental da fé. A razão não precisa morrer, só precisa dobrar os joelhos. A razão que se sujeita a Deus não deve se envergonhar da sua sujeição, nem se inferiorizar pelo fato de reconhecer sua dependência da Revelação. Pelo contrário, a razão, consciente da sua miséria, deveria ser grata pela dádiva da revelação, pois, como aprendemos com nossas mães, quando alguém nos dá um presente, a única reação adequada é a gratidão. É possível ser inteligente e, ao mesmo tempo, piedoso! p.27.

E como somos conscientizados dessas grandes verdades? A Escritura. Somente a Escritura. “Além da Palavra não há nada que seja poderoso o suficiente para fazer com que o teólogo ame a Deus acima de todas as coisas”, p. 254,55.

Jonas Madureira nos deu uma joia da literatura teológica brasileira. Um livro que não precisa ser apenas lido, mas relido, discutido, interpretado, aplicado.

Um livro teológico, cristão, que nos leva a pensar numa intelectualidade cristã, submissa ao Criador e Redentor. Nos leva a pensarmos em categorias intelectuais pela via da espiritualidade cristã, no que temos de melhor da teologia histórica, bíblica, sistemática e prática. Uma mente cristã é moldada por Cristo, o estado de humilhação do redentor é a maior lição que temos de uma vida humilhada, uma mente humilhada, uma inteligência humilhada para glória de Deus. Soli Deo Gloria!

(Por Thomas Magnum — Pastor, Jornalista, Casado com Kelly Gleyssy)


Clique aqui para adquirir a obra.