Invasão Vertical dos Bárbaros

Mário Ferreira dos Santos (MFS) é um filósofo brasileiro que tem muito a nos dizer, mas, por não ser membro do establishment, ficou sendo um desconhecido entre os seus patrícios. Teve seu pensamento levado ao cativeiro por não ressoar as ideias progressistas.Porém, graças ao trabalho da editora É Realizações, que vem lançando suas obras, e também por indicação de um dos pensadores que mais tem influenciado os conservadores brasileiros — Olavo de Carvalho — MFS tem sido difundido. O que é algo excelente!

Invasão Vertical dos Bárbaros é obra atualíssima e no seu prefácio já diz a que veio: “Lutar pelo nosso ciclo cultural, fortalecer os aspectos positivos para impedir o desenvolvimento do que é negativo, eis o nosso dever”. Trata-se de um livro denúncia contra aquilo que MFS conceitua como sendo uma agenda ameaçadora, que visa barbarizar a cultura ocidental. Por bárbaro, entendamos o sentido greco-romano de comunicar a ideia de estrangeiros, ou, estranhos que estão extramuros, apartados daquilo que é civilizado.

Para o autor, uma invasão vertical é aquela que penetra pela cultura, visando derribar seus fundamentos. Por isso a necessidade de que se denuncie tal infiltração. MFS diz:

Esta obra é uma denúncia dessa invasão, que, preparando-se e desenvolvendo-se há quase quatro séculos, atinge agora um estágio intolerável, e que nos ameaça definitivamente. Como obra de denúncia, e que aspira alcançar o maior número de pessoas, dela afastamos, tanto quanto possível, o tecnicismo da linguagem científica, que cabe às disciplinas abordadas aqui, temas que são próprios do seu objeto formal. Nossa linguagem é a mais geral possível, o suficiente para tornar claros os aspectos em exame.

Atentem para o fato destas palavras acima registradas terem sido escritas em 1967. Daí entendemos o porquê que um pensador tão profícuo foi relegado ao ostracismo. Pouco importa que ele tenha sido brilhante e se proposto a criar um sistema filosófico denominado Filosofia Concreta. Sem o aval dos “intelectuais”, que são um grupinho fechado e inclinados a bajulação, você está fora da Academia.

Voltando ao livro, ele se divide em duas partes. Na primeira delas, MFS fala sobre a invasão no âmbito da sensibilidade e da afetividade. Nessa empreitada invasora, luta-se contra a inteligência. Paradoxalmente os bárbaros estão nos círculos intelectuais, posam como pessoas cultas, mas o que promovem é a animalidade do ser humano. E fazem isso através da supervalorização da força bruta, da valorização do corpo ao invés da mente, da valorização da sensibilidade sobre a intelectualidade. Tudo isso, e mais um pouco, acaba por vulgarizar a vida humana e os meios de comunicação fazem o trabalho inglorioso de disseminar a vulgaridade:

Os jornais sangram, são lavados em imundícies, malcheirosos, indignos. Mas invadem os lares, como os invadem revistas que só exploram o cediço sexualismo. Sexualismo, semidelinquência, afrontas à moral, vida irregular são acentuadas com requintes publicitários. Os divórcios de artistas de cinema, de rádio e de televisão são apresentados como acontecimentos históricos de máxima importância. Um acontecimento de real valia recebe uma atenção mínima, e ao lado abrem-se colunas para contar a vida semidelinquente de um playboy imbecil e tolo, que realizou façanhas estúpidas, que qualquer débil mental é capaz de fazer e até superar. A vida de um jogador de futebol tem uma importância biográfica superior à de um Pasteur. Seus passos são examinados, seus gestos são descritos, seus gostos imbecis são acentuados, suas preferências ridiculamente tolas são apresentadas como expressões do mais elevado gosto, sua saúde faz trepidar de medo as multidões.

O autor segue com algumas interrogações retóricas:

É preciso descrever mais o que é acentuado nos periódicos? Não é evidente a intenção de explorar o que há de mais baixo no homem? Não assistimos à mais desenfreada especulação nos baixos valores humanos para satisfazer a curiosidade e o interesse de multidões brutalizadas, barbarizadas por essa ação desintegradora? Que é o exaltado, o merecido, o acentuado, senão tudo quanto aponta ao inferior, ao medíocre, ao horizontal?

Além da mediocridade consumida como se fosse um manjar, a sensualidade exacerbada de nossos dias também é uma manifestação de nossa decadência cultural e moral. MFS nos adverte: “Sob todos os aspectos, nas épocas de depressão ético-cultural, a sensualidade recebe um estímulo como em nenhuma outra”.

Outra denúncia relevante feita pelo filósofo é acerca da “disseminação do mau gosto”. Este mau gosto está vinculado a publicidade, que não se importa em elevar o gosto de sua clientela, mas apenas lhes serve o que lhes apetece. Uma instrumentalização que dissemina o mau gosto é a repetição acentuada. Vejamos:

Um dos sinais mais típicos da barbarização está no crescente desenvolvimento da repetição. As músicas, em que o ritmo é constantemente repetido, a repetição reiterada das mesmas situações, a repetição imitativa dos mesmos abstratismos, tudo isso encontra apoio e se desenvolve. Repetem-se os mesmos tipos de heróis, repete-se, pela imitação, a cópia dos mesmos originais. O imitativo substitui o criador. Não que a repetição deva ser impedida. Ela tem uma função que é importante. Queremos chamar a atenção, porém, para a repetição de formas primitivas, a acentuação constante da imitação do que é primário, que, a pouco e pouco, vai substituindo o criador, até que esse estanca.

Além da repetição do primitivo, a influência da negação do que é construtivo marca a barbarização de uma sociedade. Os valores antes admirados passam a ser alvo de subversão e o belo é tido por feio, e vice-versa. MFS apresenta-nos o retrato da incivilidade:

Há uma completa inversão da escala de valores e todos os setores são atingidos pela ação negativista. Os princípios religiosos, que constituem os fundamentos do ciclo, são abalados pelas doutrinas negativistas, que não se contentam apenas em pôr em dúvida, mas em negar peremptoriamente o que até então era aceito, admitido e venerado. Não para aí a ação negativista. Ela busca atingir, sobretudo, os costumes, negando a validez ética a determinados atos e modos de proceder, e estabelecendo que outros devem ser preferidos, o que invade o campo das relações humanas e põe em risco o que até então mais aproximava os homens. Não é de admirar que períodos decadentistas e de alheamento aos princípios morais sejam os períodos em que os homens mais se afastam uns dos outros, e que a atomização social aumenta a ponto de não haver mais possibilidade de compreensão entre dois seres humanos, que não podem mais “dialogar”, e assistimos “aos diálogos de surdos”, em que uns não entendem mais os outros.

Sendo um católico convicto, MFS abarca em sua denúncia a letargia do clero (incluindo os sacerdotes protestantes), que falharam em seu exercício apologético. Por não enxergarem que estavam numa guerra cultural, baixaram as armas e em nome da relevância e acabaram sendo engolidos pelo que vai de encontro a fé cristã.

Sem dúvida cabe a homens da Igreja Católica e da protestante de toda espécie a culpa dos tremendos desmazelos havidos, como a invasão do barbarismo no campo da religião e no da filosofia, bem como as suas manifestações primárias no campo das ideias sociais, onde as mais abstrusas soluções foram propostas e as práticas mais descabeladas foram realizadas. Não soube a maioria do clero manter em pé a grande herança recebida da escolástica, nem soube criar uma apologética que estivesse proporcionada à época que vivemos. A religião perdeu terreno por culpa maior do próprio clero, despreparado para o advento das formas modernas de vida social. Por outro lado, os adversários da Igreja iriam aproveitar-se com ênfase de tudo o que parecesse derruir em seus fundamentos a religião e carimbar para sempre como falsas as suas mais caras afirmações.

Um dos últimos pontos a ser denunciado nesta primeira parte do livro é a valorização do criminoso. Para MFS, a tendência de transformar o criminoso em vítima tende a estimular o crime. Sobre este discurso protetivo, no qual chama magnanimidade, ele assim nos fala: “A magnanimidade e a clemência pertencem à moderação, sim, mas exigem a justiça, a prudência e a coragem, para que não se tornem viciosas. A magnanimidade e a clemência têm de se manifestar contidas na justiça, de modo a nunca ofendê-la”.

A segunda parte da obra trata do barbarismo e a intelectualidade. O autor aqui denuncia com maior ênfase a desvalorização da inteligência, que já começa com a desvalorização da vontade. MFS tem na vontade algo que vai além da simples volição. Vontade não é mero apetite, e por isso, bárbaros são os que animalizam o homem por não compreender tal faculdade.

A vontade é uma deliberação intelectual, e não um impulso cego. O bárbaro não compreende assim, porque a sua vontade ainda não desabrochou a ponto de alcançar a liberdade. Para o bárbaro, liberdade é apenas a isenção de vínculos, e não a capacidade de escolher entre futuros contingentes, capacidade que cabe à vontade assistida pelo intelecto. Desse modo, quando certos psicólogos e “filósofos” querem reduzir a vontade ao ímpeto meramente animal, estão barbarizando a sua concepção e trabalhando, assim, para maior barbarização da psicologia como ciência e do homem como ser racional.

Destaco também a denúncia sobre a “luta contra o “Criador”. Obviamente, esta luta redundará numa luta contra a criação. A blasfêmia e a negação da divindade passam a ser coisas corriqueiras e tudo o que remete ao sacro é escarnecido, colocado como se fosse algo sem nenhum valor para a sociedade vigente. MFS tratará da negação da ética e da moral e nos faz lembrar a máxima “dostoiévskiana” que diz: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Logo, nesta luta contra o Criador e sua boa criação, o relativismo moral tem papel importantíssimo. Nesta luta “A primeira providência é afirmar o relativismo da moral, a segunda é que nos cabe satisfazer os nossos desejos, a terceira é que não há, além deste mundo, nenhum prêmio, nenhum castigo, tudo se acaba, quando nós acabamos”.

O resultado deste relativismo é uma filosofia de vida hedonista, que prega a realização dos nossos desejos a fim de se obter felicidade mediante a busca pelo prazer. No entanto, isto tem gerado mais infelicidade do que felicidade. É o que tem transviado a juventude e feito um estrago social difícil de mensurar.

O livro denúncia escrito por MFS é veemente. Não escapa de um exagero aqui e outro acolá. Todavia, em sua totalidade, é uma obra que precisa ser lida e disseminada, pois anteviu coisas que hoje nos surpreendem negativamente, mas que aqui foram desveladas pelo filósofo da concretude. Assim, no fim das contas este livro luta pelo homem concreto. “E o homem concreto é aquele que afirma o que nele há de maior e que o distingue dos animais; a vontade justa e culta, o entendimento claro e purificado, e o amor que se exalta na verdadeira caridade. E tudo isso é realmente Cristo em nós”.

(Por Thiago Oliveira — Pastor, marido da Samanta e pai da Valentina)


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