O sobrepeso da negatividade

Calhou das reflexões mais recentes repousarem sobre uma dualidade elementar: o positivo e o negativo. O que se considera bem e o que se vê como mal. Ouço e leio muito que se deve ir além desses pólos limitadores, superficiais. De acordo. Não é a todo momento, no entanto, que nos é possível promover monólogos silenciosos ou diálogos ruidosos de profundidade aristotélica. Em boa parte do tempo, aliás, nossos debates se dão antes em um patamar bastante raso — a era do Facebook não provê muito estímulo para que se atente a textos escritos em mais de três linhas ou desmunidos de uma foto atraente. Tampouco vem dando corda para conversas de mesa de bar em que ninguém interrompa a troca de ideias para espalmar um vídeo engraçado no iPhone ou um extrato divertido de um papo no Whatsapp. Mas acabei divergindo do ponto inicial. Ei-lo: sinto que, entre a abordagem otimista e a pessimista a um problema, entre o reconhecimento elogioso e o famigerado esporro no tocante à conduta de uma pessoa, costumam pesar mais as formas de expressão negativistas frente a suas meias irmãs de cunho positivo.

O que apercebemos com mais intensidade: a euforia da conquista ou a frustração do fracasso? Como criticamos com mais frequência: de maneira propositiva ou desqualificante? Nas histórias compartilhadas dentro de meus relacionamentos (e também na forma como são compartilhadas), nas minhas idas a estádios de futebol, na leitura diária do noticiário, nas pedaladas pela recém-construída ciclovia do bairro e no papel da sociedade no debate político atual posso dizer que transbordam termos e sentimentos de teor desfavorável. O desequilíbrio é flagrante. Digo mais: não vejo tanta distância entre o que há por trás de notas de imprensa prenhes de vilipêndios, mas ocas de propostas divulgadas por parlamentares de oposição diante de medidas governistas e gestores corporativos que gostam de reclamar de seus subordinados em público, mas limitam o reconhecimento de trabalhos benfeitos a e-mails tímidos.

Tem aquela frase do Duvivier: “Quem não faz nada pra mudar o mundo está sempre muito empenhado em provar que a pessoa que faz alguma coisa está errada.” Às vezes ele acerta, sim. E houve também quem questionasse o fato de que os grandes jornais diários apenas estampem suas capas com manchetes negativas. Aqui não se trata de “imprensa golpista” fomentar a insatisfação com a administração petista. Refiro-me, com essas citações, à predileção geral pelo desamor. Viajante demais? Talvez. Só que é, realmente, mais fácil desgostar, desprezar, odiar, reclamar, apontar a falha alheia. É um caminho mais curto, exigente de menos esforço do que o rumo à empatia, à coletividade, ao enxergamento de si no outro, do outro em si.

Não peço que se afrouxe o olhar crítico, que se alivie a vigilância às más condutas ou que se fale bem daquilo que não o merece. Proponho que se garanta ativamente uma predisposição maior às ações e aos discursos disseminadores de amor, de positividade. Que se saiba que as boas intenções de indivíduos distintos sobre uma mesma questão podem ser conflitantes no conteúdo — e isso não desqualifica automaticamente nem uma, nem outra. Seria benéfico começarmos a reajustar essa tão elementar balança e dar mais peso ao bem, porque o ódio e seus adjacentes estão obesos e estridentes.