Breve reflexão sobre o jornalismo (I)

Cena do filme All the President’s Men (1976)

Antes de mais nada, quero dizer que não tenho a pretensão de tecer teorias mirabolantes acerca da prática da profissão. Não tenho nem o alcance intelectual necessário (longe disso) e muito menos o conhecimento teórico para tal. Qualquer coisa próxima disso seria de uma presunção absurda. No entanto, a prática diária nos dá, pelo menos, o discernimento para fazer uma auto-crítica e uma avaliação do que estamos fazendo e, mais do que isso, do que os outros estão fazendo. Consequentemente, as percepções sobre a prática podem auxiliar a entendermos e vermos o que queremos com a forma que comunicamos. Diante disso, queria falar primeiramente sobre o “off” e a relação com a fonte.

A relação com a fonte é fundamental para o jornalismo. Dependemos da informação que vem por esse canal e, por isso, é necessário mantê-la sempre. Logo, tudo que é obtido por esse meio na forma de “off” deve ser mantida assim — a premissa é básica, e o respeito com a fonte e a responsabilidade ética exigem isso. A informação em “off” talvez seja a relação mais delicada no “jornalismo moderno e atual”.

Porque, em contrapartida ao “off”, há a necessidade da velocidade e da instantaneidade. A tecnologia, que tanto auxilia a prática, também é perversa com o jornalismo. As demandas e exigências atuais podem fazer com que a necessidade do “clique” ou da política de “precisamos ser os primeiros a publicar” se sobressaia a um trabalho ideal — ou, ainda, minimamente correto — de apuração.

Tomemos dois casos como exemplo. No livro Todos os Homens do Presidente, dois jornalistas do The Washington Post relatam o trabalho jornalístico de dois anos diante do caso Watergate, que culminou com a renúncia do presidente Richard Nixon em 1974.

A credibilidade do periódico em que trabalhavam sustentou, em grande medida, o uso da fonte anônima (Garganta Profunda) durante quase toda a extensão da cobertura. Mas não foi só isso. O trabalho de apuração feito em paralelo às informações por Bernestein e Woodward também foi decisivo. Além disso, o respeito à linha tênue entre “off” e as demais informações ajudaram a estabelecer a confiança necessária entre jornalista e fonte, especialmente em um caso tão complexo.

Já no segundo caso, trazido às telas no filme Spotlight, uma equipe do jornal The Boston Globe tem acesso a um possível caso de pedofilia na arquidiocese da cidade. Entre a data em que se inicia o trabalho de apuração até a publicação da primeira de uma série de matérias expondo o caso, transcorre mais de um ano. No meio do caminho, diversas informações “em off” são checadas até a comprovação dos fatos com a responsabilidade exigida.

Claro que é preciso guardar as proporções em função da magnitude de ambos os casos. No entanto, se a academia e os teóricos reconhecem ambos os casos como exemplo de bom jornalismo, é preciso endossá-los. E, mais do que isso, tentar seguir esses princípios na prática diária.

Para tirar a informação do “off”, portanto, é necessário um trabalho de apuração. Aquele mesmo imediatismo exigido pelo “jornalismo moderno e atual” (sempre entre aspas) prega velocidade, mas às vezes uma, ou várias, ligações e trocas de emails podem resolver a questão, trazendo à luz o fato ora considerado apenas o “off”.

A pressa nunca pode ser confundida com irresponsabilidade. A informação precisa ter voz. Pelo compromisso com as pessoas, com a fonte e, especialmente, com a ética.