Breve reflexão sobre o jornalismo (II)

O jornalismo independente não é apenas a última trincheira do bom jornalismo, que nos dá a liberdade de um texto diferenciado em comparação àquilo que o chamado “hard news” exige. O jornalismo independente é a última trincheira do único jornalismo possível.

Não é preciso permanecer muito tempo no mercado de trabalho para perceber isso. A relação promíscua entre o departamento comercial e as redações não é novidade no jornalismo. Claro que, no mundo ideal, o conteúdo editorial deveria sempre prevalecer. É preciso pensar a comunicação como o serviço a ser prestado. No entanto, sabemos que não é o que ocorre.

Isso vale para qualquer editoria. Há inúmeros exemplos de jornalismo independente em geral, política ou esporte. As pautas são, assim como o público, segmentado. O diferencial é justamente a qualidade. O viés é colocado sob outro prisma. E, mesmo estando ali, ainda há pouca gente que deseja de fato enxergar. Se já é difícil assim, quando o cerceamento ocorre na mídia “tradicional”, pouco ou nada é percebido pelo público.

Os motivos para esses silenciamentos são variados e, quase sempre, escusos. Nunca a justificativa é suficiente para se sobrepor ao interesse público. E o interesse público é, quase sempre, de primeira necessidade. Podem estar presentes em pautas como toneladas de produtos impróprios para consumo vencidos e em situação irregular apreendidos ou o preconceito disseminado de maneira sistemática e naturalizado por uma comunidade extremamente conservadora e até reacionária. Nada disso importa. Desde que não incomodem aqueles que detêm o poder e o capital em suas diferentes formas — sejam eles financeiro, político ou até mesmo forjado em autoritarismo barato.

Em todos esses casos, quase sempre, silêncio. Silêncio que prejudica a sociedade. Novamente, o serviço fica para trás em detrimento do aspecto financeiro. É preciso, diante desse cenário, buscar alternativas.

Mas, infelizmente, isso não é sempre possível. Ou ainda pior, não se torna viável economicamente para quem pretende fazer disso um negócio — afinal, é preciso sempre “monetizar” para poder garantir a produção. Muito menos é financeiramente possível para quem já vive numa lógica cruel, com salários abaixo do piso, sobrecarga de horas extras ou mesmo um mercado que se diz saturado, mas “enxuga” cada vez mais e, com isso, diminui proporcionalmente (como se ainda fosse possível) a qualidade e o conteúdo crítico daquilo que se produz.

Ainda assim, mesmo o jornalismo independente traz suas próprias mazelas. Matérias elaboradas com árduo trabalho de produção e reportagem não são remuneradas da maneira justa, à altura que mereceriam. O retorno financeiro, nesses casos, acaba sendo quase nulo.

No fim, temos que aceitar que compactuamos com uma lógica perversa. Mantemos as coisas como estão. O silenciamento diante de determinadas situações — e pautas — é o preço que temos que pagar. Não quer dizer que não iremos sentir isso. Mas o simples fato de aceitarmos já nos coloca em xeque frente àquilo que acreditamos.

Diante de tudo isso, nos resignamos e seguimos. Até quando? Não sabemos. Mas talvez não seja por muito tempo.

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