A marca do beijo — 6

“Mushroom and ham pizza on a surface smeared with tomato sauce” by Michał Kubalczyk on Unsplash

A noite, lá fora, era fria. Dentro do apartamento, porém, as coisas eram diferentes. Ela estava à vontade o suficiente para continuar usando apenas a minha camisa xadrez e sua calcinha preta. As taças de vinho já tinham sido abastecidas e reabastecidas. A pizza, ainda dentro da caixa, estava com dois pedaços sobrando. Eu e ela assistíamos a uma série que eu já tinha visto, mas que acreditava que ela, por adorar música clássica, curtiria mais do que eu.

O sofá era o espaço que ocupávamos. Ela estava com as pernas esticadas sobre o meu colo, enquanto eu lhe fazia um carinho. Olhei pra ela por alguns instantes. O óculos refletia a imagem da televisão. Ela pegou uma taça de vinho e acabou notando o meu interesse.

— Que foi? — ela perguntou, arqueando uma das sobrancelhas e dando um sorriso leve.

Eu prestei atenção nos traços do seu rosto, antes de responder. Não havia um que eu não gostasse. Os cabelos vermelhos, é claro, chamavam a atenção onde quer que passassem, mas eu tinha um caso real com seus olhos castanhos e que sempre carregavam um brilho único.

— Nada, nada… Só tava aqui pensando — respondi, enquanto também pegava minha taça para dar um gole no vinho.

— Uhm… — ela murmurou, enquanto terminava com o resto de vinho em sua taça e a colocava de volta na mesa — No quê?

— Na gente — devolvi, a fazendo sorrir.

— Algo especial? — ela voltou a perguntar, enquanto aos poucos se ajeitava no sofá para sentar no meu colo.

— E não é sempre? — ela riu de um jeito gostoso — Mas sim, era algo especial. Fiquei pensando no destino.

— O que tem ele?

— Acho que ele trabalha de formas curiosas — respondi, enquanto ela pegava minha taça para dar cabo do resto de vinho — A gente se conheceu de uma forma… Diferente. O bar que pareceu funcionar apenas naquela semana que nos esbarramos, a forma que os encontros aconteceram sempre de forma… Sei lá… Você talvez ache isso tudo besteira.

— Não, continua… Eu acho bonitinho — sua mão passou pela minha barba, em uma das tantas manifestações de carinho que ela tinha comigo.

— Então… Tudo sempre fluiu de forma tão natural. Os encontros, os beijos, todo esse fogo que a gente tem — ela riu, enquanto eu não negava as raízes italianas e gesticulava tentando explicar o que não se explica — Foram meses assim, não foram? — ela fez que sim com a cabeça. O carinho que ela fazia seguia pela minha cabeça, passando pela barba, pelo cabelo — Então…Eu achei que caminhávamos para algum lugar juntos, mas do mesmo jeito que a gente se encontrou, pareceu se desencontrar. Isso nunca te incomodou? — ela apenas me encarava, os olhos que pareciam dizer algo que eu não conseguia ler — Aí tivemos o que aconteceu ontem. Eu nunca pensei que você estivesse tão perto quando mandei a mensagem. Sendo ainda mais sincero, eu sequer pensei que teríamos mais uma noite como essa última.

— Eu não recusaria um convite seu, ainda mais depois de tanto tempo — ela respondeu, sorrindo.

— Então… Só que… Sei lá, isso talvez seja uma loucura de falar agora, mas… Eu não quero que um desencontro, como esse último, aconteça de novo. Eu quero ter uma certeza de que, sei lá… A gente tá caminhando juntos. E que estamos com um mesmo destino.

Houve um silêncio no apartamento. Eu talvez estivesse, graças ao vinho, com todos os meus filtros de verdades e sentimentos abertos demais para o meu próprio bem.

A verdade, às vezes tão sem jeito de aparecer, encontra, entre os goles de um bom vinho, uma abertura, uma saída e, então, faz questão de surgir.

Enquanto ela seguia calada e fazendo seus carinhos, minhas mãos passaram em sua coxa, subiram e passaram por baixo da camisa. Eu gostava de sentir o seu calor, sua pele.

Os minutos passavam, mesmo que devagar. Ela seguia me olhando.

— Eu sei que você gosta de um certo suspense, mas… Esse silêncio tá acabando comigo — eu disse, rindo e claramente desconcertado — Eu falei alguma coisa errada?

— Não, não falou… — ela finalmente disse, rompendo o silêncio — É só que eu tenho uma coisa pra te falar e não sei como fazer isso ainda.

— Só me fala… Juro que aceitarei isso e o coração seguirá aberto — ela sorriu, sem jeito — Falo sério. Só me conta o que é.

Ela então se levantou do meu colo, começou a caminhar de um lado pro outro na sala, a expressão pensativa em seu rosto. Eu admito que, apesar de toda a tensão que sentia no ambiente, me sentia também em uma cena qualquer de novela mexicana. É triste o fardo de ver graça até nas piores situações.

— Eu vou me casar.

— Você vai o quê?! — eu respondi, saltando em um pulo do sofá. Agora sim eu estava totalmente dentro de uma novela mexicana.

— Eu vou casar — ela respondeu, dessa vez parada, perto do sofá, enquanto me encarava.

— Mas… Como você não me falou nada disso ontem? Ou antes disso…

— Eu não sei… Quer dizer, eu ia te contar ontem. Eu pensei em te contar ontem, mas…

— Mas…?

— Eu não consegui. A gente começou a conversar, eu comecei a lembrar de como tudo era entre a gente e, sei lá, eu fui deixando o momento levar tudo. Quando vi, já era tarde demais pra simplesmente falar.

Eu sentia o mundo alternar entre giros mais rápidos e mais lentos. O estômago parecia não querer ficar no lugar de costume.

— Então… Tudo isso foi, sei lá, uma despedida de solteira pra você?

— Não, Deus… Claro que não. Você sabe que não.

— Quando você ficou noiva?

— Semana passada… — ela parecia ainda mais nervosa do que eu. As mãos, agitadas, também tentavam gesticular para explicar algo que não se podia explicar — Eu não pensei que seria pedida em casamento, não pensei que eu aceitaria, mas…

— Você aceitou.

— É… Eu aceitei — nos encaramos de novo.

— Você tá feliz? — eu perguntei, tentando fazer com que minha mente e um coração prestes a ruir entrassem em harmonia.

— Sim, isso é o que deixa tudo isso aqui ainda mais louco.

— Mas tem amor?

— Tem… Tem. Ele é um sujeito bacana, inteligente, me faz bem.

— E isso? — eu perguntei, abrindo os braços, como se tentasse mostrar tudo o que tinha acontecido durante o dia, na noite anterior e em tantas outras noites em um passado que parecia ficar, agora, cada vez mais distante.

— Isso… Isso é o que eu tive medo de assumir. Tive medo de assumir o que eu sentia por você. Tive medo de ver o caminho que você parecia já enxergar. Tive medo de dar certo, eu acho…

— E o que a gente faz agora?

— Eu não sei… Eu não sei — ela caminhou alguns passos em minha direção — Só… Não me manda embora. Não agora. Me deixa ficar aqui com você mais um pouco — ela me envolveu em um abraço que eu não resisti a devolver.

O silêncio voltou a habitar o apartamento. Eu fechei os olhos. A ideia era tentar minimizar todo e qualquer efeito do que estava acontecendo dentro da minha cabeça. O grande problema era não conseguir ignorar que, dentro do meu peito, um coração se desfazia aos poucos. Ficava tudo ainda pior por eu saber que, se prestasse ainda mais atenção na falta de barulho do apartamento, eu poderia ouvir, dentro dela, um outro coração perder pedaços.

As maiores destruições, quem diria, acontecem sem levantar um só grão de poeira.