A passagem

Nickolas Ranullo
Aug 23, 2017 · 6 min read

Havia, portanto, uma última porta. Eu a abri e uma intensa luz branca emergiu dela, não resisti a ver mais de perto. Assim que entrei, ela se fechou logo atrás de mim. Eu não estava mais no corredor daquele estranho prédio, mas sim no que parecia um quarto de hospital. Havia um casal adulto, em pé, ao lado da cama e um casal de crianças que parecia brincar no quarto. Já na cama, porém, havia um senhor deitado, dormindo. Eu não conseguiria dizer exatamente a idade, mas pelos cabelos e barba brancos como as nuvens, eu podia assumir que ele já tinha uma idade bem avançada.

  • Crianças, crianças. O avô de vocês está dormindo! Cuidado com o barulho! - o homem ao lado da cama disse com uma voz forte. As crianças, respeitando aquele que parecia ser o pai delas, diminuiram a correria, mas continuaram a brincar. Eram pequenas demais para entender o que acontecia.
  • Deixe elas brincarem um pouco, amor - a mulher disse. Sua voz… Ela me causou uma sensação estranha - Você sabe bem que se meu pai estivesse acordado, ele não ligaria.
  • O problema é que ele não está, não é? Os médicos disseram que ele deveria descansar o máximo que pudesse - o rapaz parecia realmente preocupado com o homem na cama.

Eu, sabendo que era invisível para as pessoas naquele quarto, tratei de reparar melhor nelas. O homem de voz forte deveria ter por volta de 35 anos, não havia barba em seu rosto, os cabelos pretos estavam bem penteados, mas estava com a roupa um pouco amassada, parecia ter vindo de casa com as crianças. A mulher, por sua vez, não estava maquiada, os olhos estavam um pouco vermelhos, será que ela estava chorando pelo pai? Ela parecia ter saído do serviço, as roupas mostravam isso, ao menos.

Uma das crianças, em determinado momento, parou em frente a mim, como se pudesse me ver. Era uma menina. Ela tinha os olhos azuis como os da mãe, os traços do rosto, porém, lembravam o pai. Ela também tinha os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo. Não parecia ter mais do que 5 anos. Novamente uma sensação engraçada invadiu o meu peito.

  • Vem! - o menino, mais velho, com cerca de 7 anos, chamou a irmã. Ele era a cara do pai - Tá com você agora! Você tem de me pegar! - e correu pra fora do quarto.

A garotinha seguiu me encarando por uns segundos, sorriu. Eu não resisti a lhe sorrir de volta. Ela então correu pra fora do quarto também.

  • Crianças! - a voz do pai saiu forte mais uma vez, mas dessa vez elas não o ouviram, já estavam longe. Ele, então, saiu atrás delas.

No quarto, agora, estávamos apenas nós três. Eu, a mulher e o senhor dormindo.

  • E então, o que você está achando? - Antônio, o homem que me acompanhou nessa minha estranha passagem, surgiu ao meu lado. Ele definitivamente tinha de parar de me assustar dessa forma.
  • Eu nunca gostei de hospitais - eu respondi, enquanto me sentava numa poltrona próxima a janela. O dia era bonito. O céu estava azul e a luz invadia o quarto de uma forma quase que poética.
  • Algum motivo pra isso? - ele sentou-se na poltrona ao lado da minha.
  • Eu nunca tive uma relação muito boa com esses lugares. Sempre achei eles “carregados” demais. Entende? - Antônio sorriu e consentiu com a cabeça.
  • E quando seus familiares ficavam em lugares assim?
  • Eu costumava ficar em casa. Minha ação sempre foi de pedir por eles de lá.
  • E você se arrepende? - eu suspirei.
  • As vezes.
  • Mudaria isso se pudesse?
  • Não acredito. Eu sempre me vi em boa relação com essas coisas também.
  • Que coisas? - eu olhei novamente para o homem ao meu lado. Antônio era negro, tinha certa idade, os cabelos grisalhos entregavam isso. As roupas eram simples, ele usava sandálias que lembravam as que meu avô usava quando vivo. Era engraçado como ele parecia carregar uma energia gostosa consigo. Havia sempre um sorriso em seu rosto, mesmo em um lugar como aquele quarto de hospital.
  • A morte, meu velho - botei minha mão por cima da de Antônio e ele repetiu o gesto.
  • Isso eu sempre soube. Quero saber o motivo de você ver que tinha uma boa relação com ela - eu olhei a cama com aquele outro homem velho deitado nela. Ele dormia com uma paz que transparecia claramente em sua face.
  • Eu a encarei por diversas vezes.
  • Encarou?
  • Sim… - eu continuei - Eu nunca me senti enfraquecido por uma perda, mas sim fortalecido. Sempre soube que as pessoas que eu “perdia”, por assim dizer, estavam apenas vindo me dar forças do outro lado. Acho que isso gerou um certo respeito e admiração pela minha parte com a morte.
  • Curioso, curioso.
  • Curioso? - eu perguntei, realmente intrigado.
  • Sim, meu filho - Antônio permanecia com a minha mão por entre as suas. Eu sentia uma paz indescrítivel - As pessoas não costumam enxergar a morte da forma que você faz. Elas, de forma até que compreensível, enxergam a morte como uma vilã, como uma adversária. Você não… Você a enxerga como…
  • Parte do caminho.
  • Isso! - ele respondeu sorrindo - Você vê que ela não é um final, mas uma ponte.
  • E eu estou certo? - as mãos de Antônio se desvencilharam das minhas quando ele apoiou-se para se levantar.
  • Isso você ainda descobrirá.
  • Quando? - eu me levantei também.

Houve um movimento na cama. O senhor acabou acordando, parecia meio perdido.

  • Pai? - a mulher o chamou já com uma voz embargada. O homem passou as mãos pelos olhos, como se a luminosidade do quarto o incomodasse depois de um longo sono. Ele olhou para a mulher, eu vi quando seus olhos se encheram de lágrimas. Uma sensação estranha voltou a tomar conta do meu peito.
  • Minha filha. Minha menininha - a mulher caiu em um choro desconsolado
  • Pai! - ela o abraçou ainda na cama. Meu peito parecia carregado de algo que eu não saberia descrever. A mão do velho, então, passou pelo rosto delicado da filha.

Eu não aguentei mais segurar as lágrimas que desciam pelo meu rosto. O velho também chorava.

  • Eu me lembro - eu e o velho falamos ao mesmo tempo. Ele olhou na minha direção e, novamente, por segundos, foi como se nos encarássemos depois de muitos anos distantes - Eu finalmente me lembro de tudo - voltamos a dizer juntos.

O monitor cardíaco apitou. O coração daquele velho bateu pela última vez. Os seus olhos cansados foram se fechando aos poucos, junto com os meus. Mais uma lágrima me desceu o rosto quando eu já ouvia, a distância, o grito da minha filha me chamando mais uma vez. A última lágrima desceu por eu saber que não poderia atendê-la pela última vez.

Quando eu abri os olhos, já não estávamos mais quarto do hospital. O lugar lembrava o terraço de um prédio. O dia estava para acabar. O sol já descia no horizonte. Antônio estava comigo.

  • O que foi isso? - eu o questionei, ainda chorando.
  • Sua vida, meu amigo.
  • Então…
  • Sim.
  • E agora?
  • E agora o que você acha que acontece? - ele me questionou enquanto começava a caminhar.
  • Eu não sei - ele riu e, inexplicavelmente, eu também tive de rir.
  • Agora você entendeu, agora você entendeu - ele caminhou e sentou-se no parapeito.
  • E eu fico aqui? - eu caminhei e fiquei atrás dele, sem a coragem de repetir seu ato.
  • Aqui? Ah não… Você vai pra outro lugar.
  • Que lugar?
  • Suas respostas, meu velho amigo, estarão todas depois daquela porta - ele disse a apontou para trás. Quando me virei, vi uma porta branca que não estava ali antes.
  • Não é um final, não é?
  • Nunca foi e nunca será, meu filho - ele me olhou sorrindo, como sempre fazia. Eu retribui.
  • Posso ficar aqui com você até o sol se por?
  • Mas é claro, garoto - ele riu - Sente-se ai - eu me sentei ao seu lado. Já não havia mais medo algum.

Houve um momento de silêncio entre nós. O sol ia embora no horizonte. Um espetáculo natural e que nem sempre nos permitimos aproveitar. Naquele dia eu entendi, também, que a vida, no final das contas, é isso: um espetáculo natural. E que nós, por diversos motivos, infelizmente, não nos permitimos aproveitar. O principal dessa lição é que nunca é tarde para aprendermos.

(Foto: Pinterest)

)

Nickolas Ranullo

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"Não digam a minha mãe que sou jornalista, prefiro que continue acreditando que toco piano num bordel".

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