Aliança

Era noite, uma dessas bonitas e que a gente torce pra viver de vez em quando. Eu estava ali, na praia. O pés descalços na areia. Eu via o mar refletindo um luar distante, mas ainda sim, dos mais bonitos. Meus pés se molharam conforme a maré subiu. Me agachei rapidamente para passar a mão direita sobre a água. “Odoyá, minha mãe”, eu pedi pela sua bênção. Aquela era uma noite importante.

Eu olhei para trás. Vi as minhas pegadas na areia. Comecei a pensar no que tinha acontecido até que eu chegasse ali. Eram muitas histórias. Muitos risos, muitas lágrimas, muitas lágrimas que vieram por culpa das risadas. Comecei a caminhar de volta. As coisas estavam quase prontas. O altar estava montado. As pessoas estavam quase que todas sentadas, conversando, rindo. Era bom estar com todos ali.

O altar não era exagerado. Era simples. Uma cortina aberta dava visão para as ondas que quebravam no mar. Haviam muitas flores. Eu nunca fui bom pra saber qual flor era qual. Pra mim eram só flores. E bonitas, coloridas. “Pronto?”, um senhor com uma barba comprida, grisalha, quase como um Papai Noel fora época, me perguntou. Eu fiz que sim com a cabeça. Ele sorriu. “Ansioso?”, eu novamente fiz que sim com a cabeça, mas sorri sem jeito. “É sempre assim, meu filho. É sempre assim”, ele me respondeu rindo.

Eu via as pessoas nas cadeiras. Eram rostos familiares. Uns da família que o sangue fez questão de unir, outros da família que a vida fez questão de juntar.

Havia um corredor livre na minha frente. Ele era iluminado por dois cordões luminosos que criatura nenhuma no mundo me fará chamar de algo diferente do que um “pisca-pisca” que não pisca. “Lights will guide you home”, eu sussurrei esse trecho daquela velha música do Coldplay pra mim mesmo.

Então eu a vi. Um vestido branco até os joelhos. Uma flor presa no cabelo. Um buquê simples, de flores brancas. Um sorriso que iluminava a noite. Os olhos puxadinhos me puxavam pra ela. Ela caminhava lentamente, também descalça. Ela estava definitivamente em sua casa.

Nos aproximamos em frente ao sósia do Papai Noel. Talvez essa fosse a perfeita ideia de um presente de natal.

“Eu poderia esperar para dizer isso, mas quem eu quero enganar?”, o velhinho disse arrancando risadas dos presentes. “Pode beijar a noiva”, ele continuou, também rindo.

Toquei primeiro em seu queixo, levantando um pouco do seu rosto pra mim. Ela sorria e eu sorria ainda mais apenas por tê-la ali comigo. “Eu te amo”, dissemos juntos, rindo como dois bobos que pareciam ter redescoberto o verdadeiro significado da palavra amor.

Um beijo.

Eu acordei, sem acreditar que havia sonhado com tudo isso. Olhei para o lado, ela estava deitada comigo. Os cabelos negros e lisos caiam sobre suas costas nuas. Apenas o lençol branco cobria seu corpo, da altura da cintura pra baixo. Virei para o lado do criado-mudo tentando fazer o mínimo de barulho possível. Abri a gaveta e, no fundo, havia uma caixinha vermelha. Eu a peguei. Existem horas que é preciso tomar uma decisão. A gente pede tanto por um sinal do universo que, quando um deles é jogado na nossa frente, não podemos nos dar ao luxo de simplesmente ignora-lo.

Olhei novamente aquela mulher ao meu lado. Sendo bem sincero, eu nunca entendi como ela aguentou e ainda aguenta viver comigo. Espero que aguente viver um pouco mais.

Dei um beijo em seu ombro. Os beijos foram tomando o caminho do pescoço, da orelha.

“Hoje é sábado, eu não tenho que ir trabalhar. Só quero mais cinco minutinhos, amor”, ela disse com a voz carregada de sono e preguiça. Eu ri. Dei mais um beijo em sua orelha. Ela odiava isso. “Mas o que foi?!”, ela respondeu, já mais acordada, enquanto se virava pra mim, brava. A caixinha estava aberta. Dentro dela, uma aliança. Aqueles olhinhos puxados demoraram mais do que eu gostaria pra assimilar as coisas. “O que é isso?”, ela perguntou enquanto se sentava na cama e esfregava os olhos.

“Um pedido. Você aceita casar comigo?”, não era a forma que eu havia planejado, admito. “Casar? Mas… Meu Deus”, ela disse finalmente ganhando consciência sobre a situação ao olhar mais a caixinha que eu ainda segurava. “Eu… Meu Deus! É claro que eu aceito!”, ela respondeu.

Naquela noite, não havia, no mundo, um par mais perfeito do que nós.

Pela manhã, quando eu acordei pela segunda vez, agora com um beijo dela, houve a pergunta que eu esperava algumas horas atrás. “Amor, de onde você tirou essa ideia?”, eu sorri, lhe dei mais um beijo e respondi: “Do fundo da gaveta, amor”. Ela riu, sem entender nada. Não precisava.

Existem sonhos tão bons que tudo o que podem se transformar é em realidade.

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