Das cartas que um dia escreverei
Essa não era a primeira noite que eu perdia de sono na vida. Longe disso. Eu, aliás, durmo mais de dia do que de noite. Por isso, quando você começou a chorar, deixei sua mãe dormir e vim aqui pra ver o que estava acontecendo. Não era fralda. Não era fome. Talvez fosse apenas saudade daquela que te deu a luz. Carreguei você até a porta do quarto implorando para que você segurasse esse choro um pouquinho. Você me olhou e sorriu, parando de chorar. Acho que eu estou começando a te entender, não estou? Eu um abri a porta do quarto e você olhou lá dentro, curiosa assim como eu sempre fui. “Viu? A mamãe tá dormindo. O que você acha de fazer o mesmo?”, você riu. Acredito plenamente que tenho um certo dom em fazer as mulheres rirem. Você é mais uma prova disso.
Voltamos pelo corredor até a sala. Já que estávamos acordado, talvez fosse uma boa hora pra andarmos um pouco pela casa. Eu liguei a TV, mas deixei sem som. Mania minha. Liguei o notebook e botei uma música levezinha para que você ouvisse enquanto eu te balançava de um lado para o outro.
Sabe, pequeninha, o mundo é um lugar muito doido. Você vai ver que a mamãe também é meio doida, mas talvez não tanto quanto o papai. Eu vou sempre ser um pouco mais chato do que ela, ou talvez um pouco mais legal. Vai depender de quem você puxar mais a personalidade. Eu e sua mãe somos muito diferentes, mas a gente se ajeita do nosso jeito.
Eu quero te mostrar muita coisa. Você irá comigo muitas vezes ao estádio. Seus avós vão surtar, mas quem liga? Quero que você seja a mais linda desse bando de loucos que somos.
Você sabia que eu tinha muito medo antes de você chegar? Pois é. Eu sempre quis ser pai, mas ainda sim, saber de você fez com que houvesse um medo muito grande em mim. Medo de não ser bom o suficiente pra você. Medo de não estar presente quando você precisasse de mim. Medo de não te fazer sorrir desse jeitinho que você sorri nos meus braços agora. Medo bobo. Bobo por eu saber que você é tudo o que eu sempre quis. Bobo por saber que você, desde que chegou por essas bandas, se tornou a pessoa mais importante da minha vida. Bobo por saber que você já me faz um homem melhor apenas por ser minha filha.
Eu admito que, por mim, você não envelheceria. Ficaria desse tamanho por toda a minha vida. É mais fácil de pegar você nos braços e te proteger daquilo que você tiver medo.
Eu acreditava que sabia uma ou outra coisa sobre amor. Você veio e me mostrou que, na realidade, eu não sabia era de nada. Não, não me entenda mal. Eu amo sua mãe, mas você… Acho que amor é uma palavra pequena pro sentimento que tenho.
Estou aqui agora olhando seus olhinhos verdes me encarando. Você tem os olhos da sua mãe. O nariz também, graças a Deus. “Veja se não cresce tão rápido, tá bom?”, você ri novamente, sem entender uma só palavra do que eu estou falando. Seus olhinhos dão uma pesada. A-rá! Eu venci! Eu te mostro a língua e você ri da forma mais gostosa do mundo.
“Vem, vamos pro berço”. Eu te deito e te cubro. Um beijo na testa. Eu poderia falar que te amo, mas… Você já estava dormindo.

Caminho em direção a porta. Fico olhando pra você enquanto a encosto. Volto pra sala, desligo a televisão, me sento em frente ao notebook e encaro uma página em branco. Resolvo te escrever. Não que você lá ler amanhã quando acordar ou depois de amanhã. Escrevo para que você saiba, um dia, que nessa noite eu estive com você. Escrevo para que você entenda, um dia, que seu pai cometerá erros, mas estará presente mesmo que isso lhe tire todas as noites de sono. Escrevo por saber que, nem sempre, eu sou bom em demonstrar o que sinto — e por acreditar que você mereça saber disso. Escrevo para que, um dia, quando eu não estiver por perto, que você me sinta ao seu lado. Escrevo fazendo uma promessa. Escrevo para falar o que não sussurrei nessa noite quando te coloquei pra dormir. Escrevo pra dizer que te amo. Escrevo para dizer que sempre te amarei. Essa é a minha promessa. Essa sempre será minha maior e melhor promessa.
