Entre(m) cervejas, cafés e amores

O Mirante 9 de Julho tornou-se um daqueles lugares que eu sempre buscava para ajeitar um pouco da minha cabeça. Não é fácil, meus amigos, lidar com a fértil imaginação que eu tenho. Escolhi esse lugar pois sei que, por vezes, encontro uma paz para meus pensamentos e, consequentemente, consigo bota-los no papel. Tenho a pretensão de escrever um livro. Não sei exatamente sobre o quê, mas acredito plenamente de que ele há de sair, vai que você, que agora está lendo essas palavras, um dia não me assista em algum desses talk-shows? Sonhar é gratuito e é, também, o nosso melhor combustível.

Sentei-me em uma das mesas de canto e coloquei minha mochila aos meus pés, eu não gosto de chamar a atenção por onde passo. Existem pessoas que as vezes me olham e carregam uma impressão de “eu te conheço de algum lugar, mas não sei de onde”. Isso é um dos males em se ter um rosto comum, eu acho. Pedi uma Stella para um dos garçons do Mirante Efêmero — eu já disse que adoro esse lugar? O nome do restaurante e do café são sensacionais. A cerveja chegou rapidamente, trincando, do jeito que eu gosto. Tirei o celular do bolso, fiz uma das minhas tradicionais fotos e comecei a checar as minhas redes sociais.

O barulho da cidade, de forma curiosa, parece diminuir um pouco naquele lugar. O som ambiente costuma ser alguma música leve, sendo assim, é possível de se ouvir algumas conversas e risadas das mesas em volta, mas pouquíssimo de trânsito, e, acreditem, isso diminuía muito da minha compulsão em imaginar como é a vida dessas pessoas. Mania de quem se acha escritor, penso eu.

Com o insuportável calor da cidade, não demorei a matar a primeira cerveja, pedi a segunda e foi então que eu a reparei. Sentada em uma das mesas do “Isso é Café!” — sei que já falei, mas reforço: acho o nome ótimo-, o celular em mãos enquanto parecia se divertir com alguma coisa, afinal de contas, sorria enquanto os dedos moviam-se agilmente sobre a tela do aparelho. Tomei mais um gole da minha cerveja enquanto tomava também a liberdade de reparar um pouco mais nela. Os cabelos num tom de castanho eram iluminados pelo sol, a pele branca entrava em um bonito contraste com o batom no tom de vermelho vivo nos lábios carnudos. “Ela tem estilo”, eu pensei enquanto reparava no que ela usava, um vestido com mangas curtas, preto e que ia até a metade das coxas, a jaqueta jeans jogada em cima da mesa, junto a bandeja do café, mostravam que ela se preparava pra tudo — e em São Paulo, não se pode ser diferente.

Não nego que pensei em tentar chamar a atenção dela de alguma forma, mas vamos ser sinceros meus caros amigos: eu sou um desastre nisso. Resolvi, então, apenas observar um pouco mais. Vi quando ela largou o celular de lado e deu uma olhada no ambiente, desviei meu olhar para a garrafinha de Stella Artois nas minhas mãos. Curiosamente, a frase do Rango me passou pela cabeça: “eu reparei que você reparou que eu estou te reparando”. Sorri, sem jeito, por ser pego pela minha própria imaginação, quando levantei meu olhar, ela já estava, novamente, focada no celular.

Me levantei para ir embora, ainda tinha algumas coisas pra resolver pela cidade e o tempo, por aqui, devora o seu dia num piscar de olhos. Caminhei em direção a escada próxima a mesa onde ela estava sentada. Vi quando ela abriu a câmera do celular e se ajeitou, discretamente, para uma foto. Tentei ver o que ela fotografava, mas num primeiro momento, falhei. Olhei novamente para a tela do aparelho e então pude ver a foto pronta e um casal sentado em numa das mesas ao fundo. Ainda tive tempo pra ver quando ela abriu um sorriso por ter acertado a foto do jeito que esperava — será que esperava? E subi as escadas também sorrindo.

Criolo, quem diria, estava errado quando cantou que não existe amor em SP. Ele existe. Cabe a nós, apenas, enxerga-lo ou então encontrar alguém capaz de abrir os nossos próprios olhos para ele.

Existe amor em SP (Foto por Ana Beatriz Cortez)