“Escravo da alegria”

Carnaval. Eu nunca entendi muito bem a empolgação das pessoas em relação a essa época do ano. Sim, eu, infelizmente — ou felizmente, depende do seu ponto de vista — sou uma daquelas pessoas mais chatas que não curte muito esses lugares entupidos de gente. Eu gosto de saber que tenho espaço pra me mexer, pra ir pra onde eu quero e que poderei fazer isso quando eu bem entender. No carnaval, bom, aparentemente, o único lugar que eu conseguia fazer isso sem esbarrar em alguém era justamente dentro do meu apartamento.

A Gabriela, porém, como não poderia deixar de ser, era também o meu oposto em relação a isso. Adorava o carnaval, o calor e a chance de ficar diversos dias aproveitando a folia na praia.

  • A gente vai pra praia no carnaval, né? — ela me questionou alguns dias atrás enquanto jantávamos (dá pra chamar uma pizza de jantar, não? Juro que tinha até um vinho pra acompanhar) no meu apartamento.
  • Só se for pra eu enlouquecer — eu entendo perfeitamente o amor dela pelo litoral, mas eu conseguia apenas pensar no trânsito, no stress e nas dezenas de milhares de pessoas que sempre tinham a mesma genial ideia de descer para a praia em todos os feriados.
  • Credo, moço — ela riu antes de dar uma mordida no seu pedaço de pizza.
  • Falo sério! — eu ri meio sem jeito — Eu entendo seu amor pela praia e tudo mais, mas… Eu realmente preciso da minha sanidade no lugar.
  • Como se você fosse muito normal, né? — ela adorava brincar comigo, eu já não resistia a sorrir enquanto a olhava se divertindo as minhas custas.
  • Olha, você não pode falar muito, né?
  • Oxi! Tá me chamando de doida?
  • Você se chama de doida sempre, moça!
  • É… Olhando por esse lado, você tem razão — ela riu dando de ombros — Se não vamos pra praia, quais são os planos pro carnaval?
  • A gente pode ficar no meu quarto, sem fazermos muito barulho e fingindo que não existimos — sim, eu parafraseei Harry Potter enquanto comia uma pizza e planejava o carnaval com a minha namorada. Eu definitivamente não era uma das pessoas mais normais — O que acha da ideia?
  • Sem fazermos muito barulho? — ela sorriu maliciosamente pra mim.
  • É, eu falo por mim, pelo menos — não consegui segurar a risada.
  • Hey! — ela me deu um tapa no ombro — Como você é besta… — ela disse rindo antes de me dar um beijo — Eu tô falando sério, poxa. A gente podia fazer alguma coisa pela cidade.
  • Tipo…?
  • Não sei… O que acha de irmos num bloquinho?
  • Você realmente não faz ideia da pessoa com quem você foi se envolver, né? — eu ri — Moça, veja os meus cabelos brancos! Eu não tenho mais idade pra essas coisas…
  • Deixa de ser chaaaaaato! — acho que ela já bebeu muito do vinho — Você só tem uns fiozinhos na barba e outros espalhados pela cabeça. Sem essa de idade! Vamos, vai!
  • Tá bom, tá bom… Só que vamos em um bloquinho tranquilo, né?
  • Pode ser… Só que vamos fantasiados!
  • Fantasiados?
  • Sim! E nem pense em me negar isso, Ranullo! — eu ri.
  • Tá… Não garanto nada de muito diferente, mas… Ok, ok.
  • Olha lá, hein?
  • Relaxa, moça — eu lhe dei um beijo — eu vou me fantasiar.
  • Acho bom, acho bom…

Voltamos a comer e conversar sobre outras coisas. Eu acabei entrando em um mais um dos meus devaneios. Quem diria que o tempo trabalharia da forma que trabalhou… Meses atrás eu era só um cara que não fazia ideia do que fazer pra chamar a atenção de uma das mulheres mais bonitas que já conheci. Hoje estávamos juntos no meu apartamento, largados em volta da mesinha de centro da sala, comendo uma pizza, tomando um vinho…

Eu fiz questão de registrar, mentalmente, ainda mais sobre como ela estava ali comigo. A regatinha branca que ela usava para dormir estava com a alça direita caída revelando a marca do biquíni da última vez que fomos a praia. O cabelo preso num coque transparecia uma simplicidade que tão bem lhe caia. Os olhinhos puxados, por vezes, pareciam sorrir por detrás do óculos quando nos encarávamos.

“Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval”. Toquinho não poderia, jamais, estar tão certo.


Sobre outro dos capítulos do meu livro.