Espelho

Liguei o chuveiro, sempre faço isso pra água esquentar do jeito que gosto. Eu estou aqui me olhando no espelho enquanto isso não acontece. Vejo, em primeiro lugar, os meus próprios olhos. Eu me encaro. O tempo passou. Já me disseram, um dia, que eu tenho olhos de criança. Eu nunca entendi muito isso, mas era um elogio que, de certa forma, me tocava a alma. Hoje eles estão cansados. Carregam um peso que talvez seja grande demais. Digo talvez por já não saber o que é pesado demais. Eles são castanhos, carregam a minha própria tempestade.

Olho a minha barba. Ela está comprida. Os fios, que antes se misturavam em tons de castanho e loiro, agora também ganham um tom grisalho. Acredito que seja por muito estresse. Acredito que seja apenas o tempo me dizendo que não vai voltar.

A minha boca é a mesma, os lábios finos. Eu já deixei marcas com ela. Seja nas almas ou nos corpos que toquei.

O nariz segue grande. Talvez pra eu respirar melhor, talvez pra eu respirar mais antes de responder sem pensar.

As sobrancelhas tem o mesmo problema da barba. Tem um ou outro fiozinho grisalho. Eu me sinto mais cansado do que gostaria, as vezes. Idade não é uma parada fácil justamente por nunca parar.

O cabelo ainda é volumoso, liso, mas fiz questão de, no último corte, raspar as laterais. É justamente ali onde os fios brancos estão se reunindo em grupos cada vez maiores.

O espelho começa a embaçar mais e mais. Eu já não me enxergo com clareza. Essa talvez seja a melhor hora do dia.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.