Histórias de um café

A mesa, de madeira, é redonda. As cadeiras, almofadadas, combinam com o ambiente daquela rede de cafeterias que se espalhou pela cidade em um rimo mais alucinante do que eu poderia acompanhar. A minha frente, o copo de café americano carrega o meu nome. Eu não entendi a brincadeira, antes de pedirmos. O café dela carrega outro nome. Estranhamente, esse nome também combina com ela. Acredito que isso aconteça por ela ser uma mistura de tantas coisas e, ao mesmo tempo, ser tão única dentro de sua personalidade, de seu jeito.

Os momentos com ela são diferentes. Eu entendi isso logo depois que nos conhecemos, mesmo que num esbarrão tão casual que nem o acaso poderia prever.

As pessoas andam estranhas, ultimamente. Todas se vestem com armaduras desnecessárias. Existe uma resistência, mesmo que subentendida, para o que as vezes está bem na nossa frente. Eu sei disso com propriedade. Eu, filho de Jorge, filho de um velho guerreiro, fiz da minha vida uma constante batalha. Não é que eu veja o mundo como meu adversário, mas… É que depois de desilusões, você aprende a proteger o que tem de mais importante. O problema mora ao saber que, normalmente, o que é mais importante também é mais bonito e, em um mundo onde nos esforçamos tanto pra não enxergar o que nos cerca, mostrar nossas belezas deveria ser fundamental.

Eu não nego que, naquele primeiro encontro, eu estava com as expectativas zeradas. A minha armadura, que sempre se fez tão presente, estava completa. E aí ela sorriu. Ela riu. Eu nunca fui de me desarmar, mas havia algo nela. Eu a senti mais armada do que eu, embora tentasse a todo custo não demonstrar isso pra mim. Senti sua vontade de se atirar, mas também senti que algo a segura.

Conforme os encontros passavam, eu tirei minha armadura. Não por não ter medo. Eu tenho. Só que existem coisas que podem ser tão maiores que o medo, se nós quisermos.

Eu mostrei e tento mostrar, todos os dias, mesmo que a distância, que eu estou aqui, desarmado, pronto pra vê-la da mesma forma.

Ninguém disse que ia ser fácil.

Ninguém disse também que, quando pegasse em sua mão, como fiz semanas atrás em uma cafeteria como essa, eu já não me importaria com qualquer dificuldade que viesse pela frente.

Ninguém disse que, depois de provar dos teus lábios, como eu provei também sentindo o gosto de café com canela em sua boca, eu talvez não quisesse provar outros lábios.

Ninguém costuma dizer para nós como será a vida. E é justamente ai que mora toda sua mágica.

Eu a encaro, do outro lado da mesa redonda de madeira. Ela me conta sobre suas histórias. Estamos de mãos dadas.

Eu olho para a cena e só penso em como quero seguir assim, de mãos dadas com ela, desbravando nossos caminhos e descobrindo tudo aquilo que não nos disseram.

O recado que deixei para ela, algumas horas depois de sairmos do café, naquele ponto de ônibus que sempre dá ponto final em nossas noites foi claro: Se você quiser, eu quero.

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