Lembre-se de não se esquecer

Eu arrumava as coisas da mudança. Muitas caixas já foram abertas e suas coisas devidamente arrumadas na minha nova casa. Eu agora não morava mais naquele apartamento do centro que me fazia ter a vista da cidade e também de muito cinza. Minha nova casa era plana, numa cidade vizinha e que não tinha, nem de longe, toda aquela bagunça que o centro carrega — e que eu, apesar de adorar, tive de saber quando deixar.

A casa agora tinha piso de madeira, bonito. O quintal permitia que o meu cachorro tivesse mais espaço pra brincar e correr. A sala, com mais espaço, faria com que eu tivesse mais amigos naquelas comemorações em que eu não queria sair de casa e só ter ao meu lado quem realmente importava. A cozinha, maior, permitia uma área de fuga maior para quando eu resolvesse inventar algo no fogão e não desse certo — como quase nunca dava. Os quartos, também maiores, me incomodavam, por sua vez. Solidão, pra mim, não casava bem com a cama de casal que eu acabei ficando e que já era dona de tantas histórias.

Naquele fim de tarde, enquanto o Beethoven — ideia dela, não minha — corria pelo quintal, eu me sentei no sofá novo e que fora entregue mais cedo pela loja. Liguei a televisão e botei no jornal. Puxei uma das caixas para a minha frente e abri. Um álbum foi a primeira coisa que vi.

O álbum, branco e com letras corridas em dourado, traziam nossos nomes e a data do nosso casamento.

Eu o abri. A primeira foto também era a primeira foto que tínhamos juntos. Nosso álbum era diferente, por ideia minha. As imagens, pelo menos as primeiras, eram fotos que nós mesmos tiramos no decorrer dos anos. O primeiro beijo fotografado, os domingos preguiçosos, os sábados no parque, as segundas monótonas, as terças de mercado, as quartas de jogo, as quintas com os amigos, as sextas nos bares. Isso não era rotina. Isso era a nossa vida, contada em pedaços bonitos.

Tivemos, entre todas aquelas fotos, muitos momentos difíceis. Não era fácil lidar com a minha teimosia. Não era fácil lidar com a sua falta de noção. Todo mundo quer ter a vida de um feed de Instagram, mas isso é utópico demais. A vida vai muito além disso.

Reconheço, porém, que nossos momentos difíceis também demonstraram nossa força. Entre as fotos, lembro que muitas vieram dias depois de momentos complicados. Isso mostra que, apesar dos pesares — e que por vezes tanto pesam — , a gente soube seguir.

Comecei a ver as fotos do nosso casamento. Você estava linda naquele dia. Eu até que não estava de se jogar fora também. Me lembrei de como foi dizer “aceito” no altar.

As páginas, empoeiradas, mostravam que aqueles momentos tinham virado história. E talvez fosse só isso.

Talvez.

A última foto era uma nossa dançando.

Eu nunca soube dançar, mesmo depois de todas as aulas que tomamos antes daquele dia.

Naquela foto, eu parecia saber dançar.

Naquela foto, sorríamos um para o outro.

Naquela foto, a felicidade parecia ser tão simples.

Será que a felicidade não é tão simples? Será que não foi a gente que complicou demais com nossas próprias e desnecessárias complicações?

Uma frase encerrava o álbum, logo abaixo da nossa foto.

“Lembre-se de nunca se esquecer”.

Eu assumo que ainda me lembrava de tudo, que não havia esquecido de nada.

Será que você também?

Nós já tínhamos desistido de dar mais uma chance, acho que tínhamos esquecido de nos lembrar do que era realmente importante.

Larguei o álbum no lado vazio do sofá e corri até o telefone. Assim que o tirei do gancho, vi que ele ainda estava mudo, como meu coração parecia ter estado até ver novamente nossas lembranças.

Lembrei do celular e me perguntei quem ainda usava o telefone de casa pra ligar pra alguém enquanto eu discava seu número.

Um toque.

Dois toques.

Três toques.

No quarto, você atendeu. Eu pedi que você não falasse nada, apenas deixasse eu falar. Eu falei sobre o álbum que encontrei no meio das minhas coisas, sobre o que eu lembrei, sobre o que eu nunca esqueci.

Só terminei a ligação com uma pergunta.

“Você ainda lembra?”.

Naquele fim de tarde eu descobri que tem coisas que a gente esquece de não lembrar.

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