Limites
Sexta-feira. Sol na cabeça. Pelo menos no final do dia. A mesa, no bar da esquina, era ocupada com dois amigos. João e Carlos. A garrafa de cerveja gelada, acompanhada por dois copos americanos devidamente cheios, suava.
— E então, rapaz. Cê teve notícia do Zé? — João sempre puxava esse tipo de assunto. Gostava de falar sobre as amizades dos tempos de escola e em como a vida deles estava nos dias de hoje.
— Do Zé? Que Zé? — Carlos, por sua vez, já não era tão atado as amarras do passado. “Antes só do que mal acompanhado”, ele dizia.
— O Zé! Filho da Maria! Como que você não lembra dele? Jogava bola com a gente todo domingo!
— Ah, esse Zé — Carlos ainda não lembrava do tal Zé — O que tem ele?
— Soube que tá viajando. Quer testar uma teoria.
— Teoria? Que teoria?
— Que a Terra é plana — houve um constrangedor silêncio na mesa.
— Hm — Carlos tomou um gole antes de falar alguma coisa. São tempos perigosos, esses de hoje. Uma opinião pode causar uma 3° Guerra Mundial — Mas que coisa, não?
— Pois é. Parece que tá indo atrás do limite do planeta. Homem doido. Bom, mas quem somos nós pra criticar, não é mesmo? Se ele é feliz assim.
— Verdade, verdade. Ao Zé — Carlos resolveu brindar. Isso encerraria o assunto, pelo menos.
— Ao Zé — os copos se encontraram — E a Ritinha, hein? Teve notícias?
Sexta-feira. Difícil saber se havia qualquer sol brilhando no céu. Uma intensa tempestade de neve castiga o Himalaia. Entre as montanhas, um homem caminha sozinho. O oxigênio estava pra acabar. Ele não acreditava em Deus, mas naquela hora, pediu por um milagre. Viu algo alguns metros a frente. Era uma porta.
“Finalmente”, ele pensou. Bateu a porta duas vezes. Um barulho veio lá de dentro. A pesada porta de madeira começou a se mexer e ele entrou. O lugar era o que ele esperava: um antigo monastério. Iluminado por lamparinas, arquitetura simples, mas que resistia bravamente a mais uma tempestade.
Uma mulher, careca, o recebeu.
— Meu nome é José. Eu vim de longe — a mulher o encarava, mas nada respondia — Voto de silêncio? — o José, que já fora muito conhecido como Zé, botou o dedo indicador em frente aos lábios, como se pedisse silêncio. A monge fez que sim com a cabeça — Maravilha. Demorei tanto pra chegar em um lugar onde ninguém podia falar.
A mulher, então, fez sinal para que ele a acompanhasse. Aos poucos, outros monges iam surgindo. Nenhum deles falava. Nem um A.
Eles entraram em um salão enorme. Não havia nada nele. Apenas as pilastras de sustentação e, bem no meio, um pergaminho aberto sobre uma bancada. A mulher parou e fez sinal para que José seguisse sozinho. Ele, medroso desde os tempos de criança, caminhou sempre olhando para os lados, como se esperasse um ataque de um ninja. “Será que existem esse monges ninjas que aparecem nos filmes de vez em quando?”, ele pensou quando estava no meio do caminho. Parou. Olhou para trás. A mulher já não estava mais lá. Ele deu mais alguns passos e finalmente poderia ver melhor o conteúdo do pergaminho.
Haviam duas palavras escritas. “Não é possível”, José pensou. Ele leu novamente, sem acreditar. Nessa hora, ele sentiu algo dentro de si. Não haviam mais dúvidas. Ele se sentia conectado a tudo. Sentia o vento lá fora. Sentia a neve que caia. Poderia sentir cada um dos animais sobre a Terra. Sentia um gosto de cerveja. Lembrou de Carlos e de João. Sentiu o universo se expandir. Sentiu as novas estrelas nascerem e as velhas morrerem. Sentiu o giro dos cosmos. Sentiu a Terra… Girar.
Ele se virou e saiu. Se juntaria aos monges. Jamais falaria uma palavra sequer sobre tudo aquilo. Fechou a porta do salão quando saiu. O vento movimentou a lamparina sobre o pergaminho. As palavras, em um tom de dourado, brilharam com força: “Não fode”.

