Melhor sorriso

Estávamos sentados conversando em uma mesa de bar, como não poderia deixar de ser. O dia tinha sido dos melhores, pelo menos pra mim. Os copos, sempre abastecidos com a cerveja gelada, suavam pelo ambiente interno no bar. Do lado de fora, uma chuva torrencial caia. E eu e ela fomos vítimas do temporal que seria inesperado se ele não fosse apenas uma repetição do que acontecera nos últimos dias.

Ela estava sentada na minha frente. Sorria. Era engraçado como todos os seus sorrisos pareciam sempre ser os seus melhores sorrisos. Os traços delicados, eram firmes ao mesmo tempo… Era como se ela tivesse vivido mais do que a idade que tinha. O piercing que só se revelava quando ela sorria, contrastava com o ar mais sério do óculos de armação meio quadrada. Os cabelos em um tom claro de castanho, agora molhados e escurecidos, estavam soltos, caindo sobre os ombros.

(Foto: Tattoeasily)

Eu e ela estávamos vestidos de preto. Ela com um vestido solto que ia até seus joelhos. Eu com uma camisa social, uma calça jeans. Tudo completamente ensopado.

Era o meu primeiro encontro com ela. Eu não sabia dizer se ela era boa demais para ser verdade e se, a qualquer momento, ela me apontaria para um canto perdido dizendo que tudo havia sido uma pegadinha de qualquer um desses programas de televisão. Até agora, porém, era tudo verdade. Ou será que se eu me beliscasse acordaria na minha cama?

Estar em sua presença me causava um efeito engraçado. Eu não conseguia parar de sorrir. Ela ria de minhas besteiras e eu, portanto, fazia questão de fazê-la rir cada vez mais. Os olhos dela, em um bonito tom de castanho, brilhavam intensamente a cada gargalhada. Era como ver o nascimento de uma estrela. Eu me encantava.

A história dela, conforme me contava, me fazia ter uma admiração ainda maior pela mulher que encontrava-se comigo. A vida de ninguém é fácil. As pedras existem pelo caminho. Tem gente que atira essas pedras nos outros. Alguns constroem seus castelos. Eu tinha a impressão de que ela, assim como eu, construía uma fortaleza. Só que naquele dia, parecia que uma ponte também poderia ser construída.

Sempre gostei da naturalidade com a qual as coisas acontecem. Ainda sim, me surpreendi com a naturalidade daquela joaninha que pousou na mão dela. Na mesa havia o nosso silêncio enquanto achávamos graça na forma em que a joaninha andava por entre os dedos dela. Nos olhamos ainda em silêncio. Ela sorriu. O meu coração vagabundo parecia acordar depois de muito tempo hibernando. Eu sorri de volta sabendo que estava convocando o meu melhor sorriso apenas por estar com ela. Ela suavemente colocou a joaninha de volta a mesa. Um voo para outra mesa, para outra história.

Tudo o que eu era até aquele dia, já não parecia mais fazer parte de mim. Era uma renovação. Ela se levantou para ir ao banheiro, passou sua mão sobre meu braço e brincou com a minha barba antes de sair da mesa.

Eu tomei um gole de cerveja. Orei em silêncio para que, se tudo aquilo fosse um sonho, eu não fosse acordado ainda.

Ela voltou a mesa. A conversa fluiu por horas e por diversas outras garrafas de cerveja. Trocávamos carinhos.

A chuva acabou. A noite também. Nos despedimos. Não houve beijo. Cada um pro seu canto.

Eu, enquanto caminhava de volta pra casa, via o mundo aos poucos ganhando seus sons naturais. Sim, o mundo parecia ter se emudecido apenas para que eu a ouvisse durante o dia inteiro. São Paulo já não parecia ser tão cinza quanto estava até o começo da tarde quando nos encontramos.

Eu cheguei em casa. A vontade era de ligar pra ela, mas… O medo não deixou. Eu pensei nela até o dia amanhecer. Assim que os primeiros raios de sol passaram pela janela do meu quarto, o meu celular vibrou. Era ela. “Eu adorei ontem! Vamos repetir?”. Eu sorri. E depois desse dia, não há um só dia que eu não passe sem sorrir quando me lembro dela.