Sobre convites irrecusáveis

Era uma dessas manhãs de domingo que a gente sempre espera não acordar cedo, mas que acaba acordando apenas por pura rotina. O que não fazia parte do meu cotidiano era a companhia. Ela ainda dormia ao meu lado. O calor da noite anterior fez com que a coberta acabasse no chão, assim como quase todas as nossas peças de roupa. A pele dela, bronzeada pela viagem que acabara de fazer, contrastava com os cabelos tão loiros. A calcinha, em um tom de verde-água, contrastava não só com a pele, mas também com as marcas que o sol havia deixado.

Eu fiz um carinho em seus cabelos. A cama era de solteiro, mas ela não se importava, desde que ficasse com o lado da parede. Eu, como não poderia deixar de ser, não resistia a forma que ela me pedia por isso, sempre acompanhado dos beijos tão doces. Dei um beijo em sua nuca. Ela, ainda sem acordar, pareceu entender o recado e se mexeu o suficiente para que eu tirasse o meu braço que estava por baixo de sua cabeça.

Me levantei tentando fazer o mínimo de barulho possível e, como bom desastrado que sou, falhei miseravelmente. Ela, ainda sim, não acordou.

Peguei o celular na cômoda e reparei que ele não estava carregando. Notei, pela falta de qualquer barulho, que estávamos sem luz.

Fui até a cozinha. Acho engraçado como todos os ambientes ganham uma vida diferente quando não há luz. O silêncio impera. Eu via, entre os raios de sol, a poeira que de vez em quando pairava no ar. É uma beleza que não gosta de se apresentar com frequência. A minha minha rinite,que não é uma das suas maiores admiradoras, agradece.

Peguei um pouco de água. Pensei em fazer o café, mas ainda era cedo. Talvez eu voltasse pra cama e tentasse dormir um pouco mais.

Voltei ao quarto. A vi na cama. Ela já se aproveitava da minha ausência para se espalhar um pouco mais. Eu não a culpava. Achei graça.

Como eu não voltaria a dormir, pensei no que ficaria fazendo. Olhei o notebook parado na escrivaninha. Torci para que ele ainda tivesse bateria. Tinha. Diminuí o brilho da tela e abri aquela página em branco. Eu não sabia sobre o que escrever. Me recostei na cadeira. Girei para um lado e depois para o outro. Repeti isso por algumas vezes. Nada. Girei a cadeira para o lado da cama. Ela ainda dormia. Eu admirava sua beleza.

As pernas, cruzadas. A luz que vinha de fora iluminava trechos do seu corpo, como se fosse um convite a se descobrir mais. Passei a mão na sola dos seus pés, apenas para brincar. Ela murmurou qualquer coisa e se virou de bruços, colocando os braços sob o travesseiro. Eu tinha uma imensa vontade de acordá-la. Eu tinha uma imensa vontade por ela. Resolvi me segurar.

Olhei novamente a tela do notebook. A página seguia em branco, com o cursos piscando e esperando pelo primeiro toque. Olhei para ela na cama. Parecia também esperar pelo primeiro toque. Uma ideia.

Meus dedos começaram a passar pelo teclado de forma veloz, mas tentando ser o mais silencioso possível. Sempre foi uma questão de saber alternar a suavidade com a intensidade.

A página, aos poucos, ganhava letras, palavras, frases, parágrafos.

Ouvi a cama fazendo barulho. Ela estava acordando. Abriu os olhos e me viu, ali perto. Abriu o sorriso ao me dar bom dia. Eu retribuí, também sorrindo. Perguntou as horas. Eu olhei para o relógio no canto do notebook. Ela murmurou que estava muito cedo e perguntou o que eu estava fazendo acordado a essa hora. Respondi que apenas tive uma ideia que não podia esperar. Ela se espreguiçou ainda na cama. Perguntou se eu tinha feito café. Eu disse que iria fazer logo. Ela suspirou. Se levantou e, em frente a janela, se espreguiçou mais uma vez.

(Foto: L)

A cena era poética. Apenas a silhueta do seu corpo era vista com precisão. Os cabelos jogados para trás. Os braços por cima da cabeça enquanto ela esticava as costas. As pernas alinhadas. Era uma beleza angelical.

Ela veio até mim. Me deu um beijo na bochecha. Senti depois seus lábios doces. Ela passou os braços sobre o meu pescoço e deu uma olhada sobre o que eu escrevia. Me olhou de lado por diversas vezes e então sorriu. Me deu mais um beijo e saiu do quarto falando que tem convites que não deveriam ser recusados.

A luz voltou. Ouvi, poucos segundos depois, o chuveiro ligando. Ela estava certa. Existem convites que não podem ser recusados.