É um pássaro? É um avião?

Nickolas Ranullo
Aug 9, 2017 · 2 min read

Rotina. Acorda. Mais cinco minutinhos. Passaram 15. Tô atrasado. Banho. Ônibus. Metrô. Trem. Estágio. Cochilo no trem, quase perco a estação! Metrô cheio. Faculdade. Metrô com problema. Cochilo no ônibus. Nunca perdi a parada, moro no ponto final. Casa. Repete.

Essa era a minha vida. Até que entre o ônibus e o metrô, eu notei que não estava sozinho. Tinha a moça que sempre entrava dois pontos depois de mim. Nós trocamos olhares. Ela tinha olhos castanhos como os meus. Tempestade? Ouvi um trovão. Esqueci o guarda-chuva em casa. Demorei pra trocar alguma palavra com ela. Jornalista sofre pra escolher a palavra certa. Escolhi a mais fácil. Oi. Palavras trocadas. Sorrisos. Ela ri gostoso. Números trocados. Conversamos mais tarde? Conversamos.

Conversamos também no dia seguinte. Ela corria mais do que eu. Quando ela dormia? No ônibus, oras. Na faculdade, de vez em quando. Ela fazia Rádio e TV. A risada dela podia tocar no rádio. O sorriso dela lembrava os comerciais da Colgate que passam tanto na TV. Ela gostava de Drummond. Eu não sou nada, jamais poderei ser nada, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Não sou tão fã de Pessoa ou de poesia, mas acredite, sou boa pessoa.

Marcamos uma cerveja. Ela bebia. Eu aprendi a beber melhor com ela. Eu fazia piada apenas pra fazê-la rir. Eu nunca fui bom com piadas. Como que ela ria desse jeito que ninguém parecia saber rir igual? Cabulamos aula pra estarmos no bar. A noite avançou. Eu joguei os dados, tentei a sorte. Consegui avançar algumas casas. Saímos do bar de mãos dadas. Beijo. Pescoço. Mordida. Marca na pele feito tatuagem. Ela tem uma tatuagem de pássaros na nuca. Talvez para ajudar a botar a cabeça nas nuvens. Nas nuvens eu fiquei depois daquela noite.

Nos encontramos mais vezes. Mais dias. Mais noites. Semanas. Meses. Temos de conversar. Já não conversávamos? Não sobre aquilo. Aquilo. Ela tinha sonhos. Os sonhos moravam logo ali, depois do ano que viraria. Logo ali. Ela poderia ir logo ali, mas não. Ela iria lá. E lá, as vezes, é tão longe.

Não quer tentar? Acho melhor não. Tem viagem que é só de ida.

Será que vamos nos encontrar de novo por um acaso do destino? Tem casos que começam assim. Ou terminam assim, nos desencontros que a vida dá.

Ela pegou o avião. Despedida.

Esses dias, na minha vida já não tão corrida, olhei pro céu. Era um pássaro? Era um avião? Era só saudade de ter a minha cabeça nas nuvens. Eu, por vezes, queria ser o Super Homem.

Nickolas Ranullo

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