Sobre raios e trovões
Eu e você formávamos um casal diferente. Éramos como tempestades. Você tinha o brilho dos seus raios, eu tinha a força dos meus trovões. Seríamos perfeitos juntos, se a tempestade, por vezes, não fosse avassaladora com aquilo que encontra. Não deixávamos pedra sobre pedra quando nos encontrávamos. Isso era ótimo quando deveria ser ótimo. Isso era péssimo quando as coisas não estavam bem.
Uma tempestade, eu aprendi isso enquanto estivemos juntos, precisa ser vivida. Não adianta fingir que ela não está lá quando os raios clareiam a noite e quando os trovões não deixam que nada te deixe dormir em paz.
Dizem que existe uma calmaria estranha antes e depois das tempestades. Eu digo que isso é verdade. Eu não sabia o que era, de fato, uma vida, até ter seus raios rasgando minha noite. Eu não sabia a minha força até ver você do meu lado. Um raio, sozinho, é apenas luz e eletricidade. Um trovão, sozinho, é apenas barulho. Quando começamos a andar juntos, tomamos conta do céu.
Nosso problema foi quando seus raios começaram a me atingir. Eu, então, não segurava a força dos meus trovões. Descobrimos que as palavras ferem. E elas iam fundo. Rasgavam, com a velocidade dos seus raios e o peso dos meus trovões, a pele, o cérebro, o coração, a alma. Existem feridas que jamais se curam. Eu descobri isso com você e você descobriu isso comigo. Descobrimos que não dá pra se viver nas nuvens pra sempre.
Depois que seus raios se afastaram de mim, eu vivi a segunda calmaria. E essa é diferente. É difícil reconstruir coisas. Nem tudo volta a ficar de pé. Existe um silêncio ensurdecedor.
As vezes, a noite, olho o céu. Limpo. Vejo estrelas brilhando longe. As vezes, eu sinto que um raio está perto. Me pergunto se é você ainda buscando a companhia de um trovão. Eu sorrio.
As vezes, só o que queremos, é uma boa tempestade.

