Sobre finais
Faz frio. A cama vazia não ajuda a aquecer — nem o corpo e, por vezes, nem o coração. Eu olhei o celular que carregava sobre o criado-mudo. Se ele falasse, talvez eu pedisse algum conselho. Dizem que as decisões que temos depois das duas da manhã são erradas.
O frio a faz pegar aquela coberta que estava guardada no armário. A surpresa foi ver que ainda tinha o cheiro dele. Ela foi para o sofá ver alguma série. A falta de sono parecia ficar ainda pior quando estava na cama. Olhou para o celular, pensando que veria alguma notificação familiar. Nada.
Levantei, mesmo contra a minha própria vontade, e fui até a cozinha tomar um copo d’água. Enquanto eu voltava pro quarto, olhei para o sofá também vazio, a televisão desligada. Resolvi pegar uma blusa e deitar ali pra ver uma série. O vazio seria menor.
É incrível o tempo que se gasta na Netflix até, finalmente, escolher algo pra ver. Ela já estava na quarta ou quinta categoria diferente. Nada chamava sua atenção. Ela não era muito ligada em lançamentos de filmes ou séries. As sugestões sempre vinham dele. Será que ele ainda estava acordado? Pedir uma sugestão talvez abrisse a brecha para uma boa conversa.
Eu sempre fugi de filmes ou séries mainstream. Não é que eu não goste, apenas me incomoda ver todo mundo discutindo sobre as mesmas coisas como se não houvessem outras opções. Sempre existe uma opção. Escolhi rever uma série que acabou sendo cancelada, mesmo sendo ótima: “Feed the Beast”. Lembrei que, na primeira vez que vi, foi com ela. Melhor trocar. Vamos com um filme, então: “The Discovery”.
Depois de mais de meia hora fuçando por alguma coisa, ela finalmente encontrou um filme: “The Discovery”. Se o filme fosse bom, ótimo. Se não, ela acabaria dormindo, o que também seria ótimo. As últimas noites não vem sendo das mais fáceis de se dormir.
O filme aborda assuntos interessantes. Até que eu realmente não fiz uma má escolha. Olhei o celular agora no braço do sofá. Eu tenho certeza que ela adoraria o filme. Será que pegaria mal mandar uma mensagem agora? Eu não queria acorda-la. E, sendo ainda mais sincero, eu também não sei se ela gostaria de falar comigo.
Ela estava quase dormindo. Não era o tipo de filme que ela normalmente veria. A falta de opção era um problema. O excesso delas, também. Na verdade, talvez o filme fosse menos chato se ela tivesse com quem conversar. Pegou o celular e olhou a hora. Era tarde. Será que ele acordaria se ela mandasse uma mensagem? Ele sempre dormiu tão profundamente.
O celular agora, tão perto do final do filme, era uma tentação imensa. Eu o peguei. A foto de fundo ainda era uma foto nossa. Abri a agenda. O número dela ainda tinha a identificação de “Amor”. Eu comecei a digitar a mensagem e parei. Lembrei de tudo o que eu disse. Lembrei de tudo o que ela disse. Lembrei de tudo o que eu fiz. Lembrei de tudo o que ela fez. Larguei o celular de novo.
O filme estava quase acabando. Ela resolveu nem terminar. Achou chato demais. Ela preferia os filmes de ação ou comédia. Pra ela, um filme servia apenas pra se divertir. Se ela quisesse ficar horas pensando sobre algo, com certeza pegaria algum dos seus livros na estante. Pegou a coberta e foi pro quarto. A cama vazia estava fria. Olhou o celular mais uma vez. Pensou em mandar a mensagem de bom dia, falar que tinha visto um filme muito chato e que ele deveria evitar. Ele provavelmente não só veria, como gostaria. A luz da tela era a única que iluminava o quarto. Foi até os contatos. O dele ainda tinha o nome de “Amor”. Começou a digitar. Ela sentia falta de falar com ele. Lembrou, então, o motivo de tudo ter terminado. Eles tinham brigado feio. Falaram coisas que não deveriam. Fizeram coisas que não deveriam. Resolveu não mandar nada, no final das contas.
O filme acabou. O sono pareceu chegar. Eu olhei o celular mais uma vez. Já eram quatro da manhã. Pensei em mandar uma mensagem só pra falar que lembrei dela. Eu não entendia como ela não via seus erros e me pedia desculpas. Eu estaria de braços abertos para tê-la de volta na minha vida.
Tem silêncios que fazem barulho demais. Ela pegou o celular de novo. Já tinha passado das quatro da manhã. Ela não entendia como ele não pedia desculpas pelo que tinha feito. Era tão simples. Ela tentaria mais uma vez, se ele quisesse.
As pessoas são complicadas. As decisões que tomamos, bom, essas tendem a ser tão complicadas quanto nós. Olhei o contato dela. Apaguei. Tem tentações que são melhores de não se passar.
O sono tinha chego para ela. Uma decisão também. Ela apagou o contato dele. Tem tentações que são complicadas.
O sono chegou de vez. Eu dormi ali mesmo, na sala.
Ela caiu finalmente no sono. A cama, de casal, tinha um lado vazio e intocável, mesmo para ela que se mexia demais.
Nos sonhos, nos encontramos. Tanto no meu, quanto no dela. Eu pedi desculpas, ela pediu desculpas. Um beijo reatou um sentimento que não precisava ter se rompido ou que melhor dizendo, jamais teria se rompido.
O problema dos sonhos, porém, é que quando acordamos, descobrimos que eles eram pura fantasia.
Eu acordei depois de cair do sofá. Estava sozinho. A casa estava em silêncio.
Ela acordou no começo da manhã, quando ouviu os pais caminhando pelo corredor. O outro lado da cama ainda estava intacto. O quarto estava silencioso.
Nos celulares, não havia notificação alguma. Nas cabeças, a certeza de que estavam certos. No coração, a ideia de que poderiam tentar mais uma vez. Nos egos, a ferida que não queria se mostrar.
No final da história, não há final feliz.

