Somos tão jovens…

Eu e ela estávamos, como basicamente acontece nos nossos encontros, na mais paulista das avenidas. Seus braços estavam em volta do meu pescoço, tínhamos acabado de nos beijar. Eu estava reparando novamente na nossa diferença de altura enquanto na minha cabeça a voz do Marcello Gugu dava o ritmo com: “Adoro seu tamanho, nem alta como seus sonhos, nem baixa como minha autoestima, cabe em meu abraço e abraça o mundo como se ele fosse seu travesseiro”.

— E aí, casal! Querem uma trufa? — o sujeito perguntou para nós naquela terça-feira.

Esse era um fim de noite que eu, definitivamente, não contava.

Talvez, quem me visse na rua, naquele mesmo ponto de ônibus em que eu havia encontrado-a na semana anterior, soubesse que eu estava esperando por ela.

Talvez, quem nos visse na rua, de mãos dadas, a caminho do Centro Cultural de São Paulo, pensasse que éramos de fato um casal. A ideia daquele dia era concluir um passeio que, pela falta de tempo — e de sol — foi interrompido na semana anterior.

Quando chegamos ao terraço do CCSP, ainda era cedo e, pelo horário de verão, o sol brilhava forte no horizonte, quase fechando a bela silhueta de prédios. Eu já havia feito uma foto ali mesmo alguns meses atrás. Era um dos lugares que eu gostava de ir para encontrar comigo mesmo e ter um pouco de paz em dias que a minha cabeça gostava de fazer mais barulho do que eu aparentemente poderia suportar de ouvir.

Sentamos em um dos bancos já no final do terraço. A visão era perfeita para ver o movimento do lugar, além de apreciar também o sol partindo.

Ela tem um olhar fotográfico. Melhor do que o meu, acredito. As fotos que ela fez lá, eu ainda tenho salvas na galeria do meu celular. As selfies, tão bonitas, inclusive.

Ela voltou a se sentar ao meu lado depois de fazer as fotos que queria. Conversamos mais. Falamos sobre o meu Corinthians, sobre o São Paulo dela. Conversamos sobre Tom Hanks, um dos atores que mais gosto, e Adam Sandler, um dos atores que ela mais gosta. Discutimos sobre nossas diferenças musicais, eu gosto de rap e ela prefere música clássica. Falamos sobre como tem coisas que acontecem todos os dias, mas só de segunda a quinta (piada interna). “Eu aceito isso e meu coração continua aberto” , eu me lembro de repetir essa frase umas duas ou três vezes. Sou sincero. Meu coração segue aberto, aceitando as visitações dela, mesmo que uma vez por semana.

Um casal de pombos, não tão longe de nós, chamou a atenção de duas pessoas com uma imaginação fértil demais para se segurar em roteiros improváveis. Um casal.

Talvez, quem nos visse naquele banco, aos beijos, risos e vontade de correr riscos, pensasse que éramos mesmo um casal.

Saímos de lá de mãos dadas, da mesma forma que chegamos.

Fomos até um dos bares perto de onde eu fiz minha faculdade.

Uma cerveja e uma porção de batatas, por favor.

Eu sentei ao seu lado. Ela colocou sua perna sobre as minhas.

A cerveja veio trincando, como eu gostava. Um brinde.

Talvez, aquele velho conhecido dos tempos de jornalismo na faculdade, quando nos viu sentados assim à mesa, pensou que fossemos de fato um casal.

Mais conversa, mesmo com os ônibus que corriam na avenida tentando atrapalhar. Até uma palinha de Legião eu acabei ganhando. Ela pediu para que eu cantasse, mas pra certas coisas, não adianta, eu nunca tive ritmo. Só pra certas coisas.

Mais beijos. Mais carinhos. Mais de nós.

As cervejas, geladas, desciam na mesa e contrastavam com um gostoso calor que existia ali.

Ela deveria ir pra aula. No final das contas, acabou cabulando a faculdade por mim. É esse o sentimento de não ser tão boa influência? Não é que é gostoso?

Horas se passam num piscar de olhos, quando estou com ela.

Conta paga no bar e agora era hora de uma caminhada, para aproveitar o gostoso clima da noite.

Eu gostava de ver seus olhos, tão pequenos, ficarem ainda menores quando ela ria sobre as besteiras que eu falava.

Estávamos, como quase sempre ficávamos, na mais paulista da avenidas.

Ela encostada no ponto de ônibus. Eu na sua frente. Ela jogou os braços em volta do meu pescoço. Os meus em volta da sua cintura. Mais um beijo, pra nunca se perder esse gostoso costume.

— E aí, casal! Querem uma trufa? — o sujeito perguntou, enquanto carregava uma pequena caixa com os chocolates dentro.

Nós olhamos ao mesmo tempo para o homem que nos abordava com os chocolates. Recusamos, entre risos desconcertados.

Talvez, quem nos visse naquele ponto de ônibus, em frente a Cásper, aos beijos e risos, pensasse mesmo que éramos um casal.

Talvez, quem sabe, no futuro, possamos mesmo ser um casal.

Hoje? “Somos tão jovens”, ela havia cantado suavemente para mim mais cedo no bar.

Temos todo o tempo do mundo.