Tempo ruim
Eu terminei de escrever mais um dos meus textos. Essa era a minha rotina nos últimos meses: trabalhar durante o dia, escrever por algumas madrugadas. Eu vinha separando os capítulos já escritos em uma pilha que ficava bem ao lado da minha máquina de escrever — acho que a chance de eu me esquecer de escrever ou de perder os capítulos no meio das minhas coisas era o que me motivava a deixar meus escritos sempre por perto. Eu ainda não acreditava em tudo o que já havia feito. Eu costumo dizer que escrevo para me libertar — se não me engano, inclusive, usei essa expressão em algum dos meus textos. Tenho de conferir depois -, mas eu realmente não sabia que haviam tantas coisas assim que eu tinha de me libertar.
A taça, tão vazia quanto a garrafa de vinho sobre a minha mesa, me davam o sinal de que era hora de, infelizmente, voltar ao mercado. “Pelo menos ela acabou junto com o texto”, eu pensei enquanto saia na varanda para sentir como estava o clima. Senti o vento gelado cortando a noite que já estava prestes a virar madrugada.
Já que eu teria de sair, iria aproveitar para também dar uma volta. Botei uma jaqueta e tomei o rumo da Avenida Paulista. Ali era o cenário de muitas passagens das histórias que escrevia e, não por acaso, também era um dos meus lugares favoritos na cidade. Consegui pegar um dos últimos trens do metrô e em poucos minutos eu já estava saindo da estação Paulista — que fica na Avenida Consolação, e inacreditavelmente, a estação Consolação fica na Avenida Paulista. Eu nunca realmente entendi essa falta de lógica.
Uma das coisas que me fazia gostar da região era justamente pelo fato de que ela nunca “morria”. O movimento dos carros era constante, assim como o movimento das pessoas nas calçadas. Os bares seguiam abertos, para a minha imensa alegria. Escolhi um que fica próximo ao MASP não por ser o que eu mais gostava — longe disso -, mas sim por ser aquele que ficava mais próximo de um mercado 24h onde eu passaria mais tarde para comprar as coisas que precisava em casa.
Me sentei em uma das mesas e logo fui atendido por uma garçonete. Pedi uma dose de whisky — eu precisava enfrentar o frio, não é mesmo? Logo depois dela me servir, eu parei para observar as mesas ao meu redor. Muitas estavam ocupadas por grupos de amigos, mas a minha atenção maior era naquelas em que haviam casais. Era engraçado… Você poderia, através do comportamento de muitos deles, ver a fase em que estavam naquele momento. Alguns mostravam uma paixão no olhar de quem ainda estava no começo da relação; outros ainda tinham um brilho de quem já não estava tão no começo, mas que ainda tinha muito pela frente; alguns ainda carregavam um certo desinteresse, era como se a companhia já deixasse de importar tanto. Os sinais parecem ser tão claros para quem está de fora.
“Será que também demos esses sinais?”, eu pensei enquanto o polegar da mão esquerda buscou brincar com uma aliança no dedo anelar. A aliança, por sua vez, já não estava lá fazia tempo. Dei uma golada no meu whisky que quase secou o copo. Olhei para o celular em cima da mesa, nessas horas — depois que bebemos um pouco além do que a nossa sanidade (que já não é das maiores também, admito) permite -, acredito eu, que não haja tentação maior do que o celular. Seja para ligar para qualquer pessoa em busca de uma simples companhia para a noite, seja para encher o saco dos amigos que já se cansaram de ouvir as mesmas histórias ou, pior ainda, para ir atrás de quem não se deve. Resolvi desligar o meu. Vocês sabem, seguro morreu de velho.
Quando eu estava prestes a pedir a conta — eu realmente não ia me arriscar ao beber mais uma dose. É preciso ter consciência -, vi um casal que me chamou a atenção. Eles carregavam uma energia diferente dos outros que já tinha visto no bar. Eles riam e se abraçavam com frequência. Eu não sabia dizer se era efeito do álcool ou se era apenas um sentimento puro que se fazia presente naquela mesa onde a felicidade parecia marcar constante presença, mas ver aquele casal me trouxe lembranças… Olhei um dos relógios da rua, fazia tempo que a meia noite havia virado e foi então que me dei conta do dia que acabara de começar. Essa era uma data que eu sei que comemoraríamos tanto… Era seu aniversário. Dei o último gole no meu copo. Pedi a conta, mas pedi também que fosse entregue mais uma cerveja para aquele casal feliz.
Paguei e enquanto me preparava para tomar o rumo do mercado, me lembrei daquele trecho que é tão compartilhado nas redes sociais hoje em dia: “Quero que haja sempre uma cerveja em sua mão e que esteja ao seu lado, o seu grande amor”. Olhei para o céu… “Faltam estrelas aqui em São Paulo” eu disse para mim mesmo enquanto o trecho da música ainda ecoava na minha cabeça. Hoje, no final das contas, tudo o que quero é que esse refrão seja verdade na sua vida. E que você saiba que eu sinto sua falta.

