Universo Particular

Eu estava encostado no batente da porta do meu quarto com uma caneca de café quente em minhas mãos. Era manhã. A luz do sol invadia o ambiente que tinha as janelas e as cortinas abertas. Eu nunca gostei muito dessa primeira luz do dia, vivi preferindo a luz da lua. A noite sempre foi meu habitat natural. Eu admito que só acordei cedo naquele dia por ter companhia na minha cama. Me levantei, fiz o café pra nós e pensei em em acorda-la, mas a cena que vi quando estava prestes a entrar no quarto me fez parar ali mesmo.
Uma trilha de roupas que começava no corredor, guiava até a cama. Deitada entre os brancos lençóis abarrotados, estava ela. A cabeça suavemente deitada sobre o travesseiro. A expressão em seu rosto parecia revelar que seu sonho a levava até as nuvens. Será que sonhava comigo? Os cabelos, vermelhos, estavam jogados para o lado. As costas, nuas, revelavam aquela tatuagem na linha da coluna. Eram 12 luas. Elas iam desde o começo da nuca até a lombar. Cada uma era desenhada em uma fase diferente. Ela usava uma calcinha em um tom de vermelho ainda mais escuro do que aquele que dava cor aos seus cabelos.
Eu sorri. Dei um gole no café.
Botei a caneca em cima da cômoda e comecei a caminhar até a cama. Eu não fazia barulho. Subi na cama e, aos poucos, ficava por cima dela. Eu achava graça em como nossos corpos contrastavam. Ela era menor do que eu. Bem menor. Cheguei a ter medo de quebra-la quando nos vimos pela primeira vez. Sua força, porém, me encantou e terminou por me enfeitiçar.
Eu dei um beijo na primeira lua desenhada. Ela se mexeu. Eu sorri. Minha barba por fazer arranhou sua pele fazendo com que ela se mexesse um pouco mais e murmurasse algo. Entre gostosuras e travessuras, eu sempre escolhi as duas.
Eu, com cuidado, subi um pouco mais. Beijei a segunda lua. Ela se mexeu mais. Eu podia ver a pele, aos poucos, se arrepiando. Eu ri, sem querer. A respiração, ainda mais quente pelo café, fez com ela começasse a despertar.
Subi para a terceira lua. Mais um beijo. Sedução é um processo de fases. Não se pode ir até a linha de chegada sem antes passar por todo o percusso. Eu admito que, até hoje, não entendi o que ela havia visto em mim.
Caminhei até a quarta lua. Agora, além do beijo, me atrevi um pouco mais. Passei a língua pelo desenho. Ela finalmente acordou. Eu encostei meu queixo sobre sua coluna e a vi olhando pra mim.
— Bom dia… — eu respondi, sabendo bem da expressão que eu carregava. Ela riu.
— Você não vale nada.
— Eu sei — voltei a apoiar meus braços em volta dela e subi para a quinta lua. A beijei, da forma que já havia beijado as outras — Você ainda não me deu — eu disse enquanto a olhava maliciosamente.
— O quê? — ela me retribuiu o sorriso. Eu subi mais uma lua. Cheguei na metade do meu caminho. Essa era cheia. Era a minha favorita. Estava no meio das suas costas.
— Você realmente não faz ideia? — eu a olhei enquanto entregava o melhor da minha encenação. Se fazer de desentendido, pra mim, sempre é um esforço. Normalmente eu sou desentendido por natureza.
— E deveria? — ela tinha um sorriso meio bobo no rosto. Não por inocência. Ela, apesar do rosto de menina, tinha pouca inocência em alma. Eu me atraia por isso também.
— Com certeza — eu estava agora na sexta lua. A pele voltava a conquistar seu espaço. Mais um beijo. Dessa vez fazendo mais questão que a barba arranhasse sua pele. Ela suspirou— Você realmente não sabe o que ainda não me deu?
— Não — ela sorriu e agora piscou seus olhos lentamente. Estávamos jogando. Estávamos na sétima lua. Meu número de sorte. Eu a conheci num dia sete ás sete. A lua no céu se assemelhava a essa que estava desenhada e que agora eu beijava.
— Você já foi mais rápida — eu estava quase que completamente por cima dela. Eu sentia o calor do seu corpo. Mais um beijo. Mais uma lua.
— E você tá com pressa? — ela perguntou enquanto virava o rosto para o outro lado.
— Você sabe o que eu penso sobre pressa — nono beijo. Nona lua. Eu nunca gostei de ter pressa na vida. Gosto de apreciar cada um dos meus segundos, cada uma das minhas horas, cada um dos meus dias. Em relação a vida, me vejo como um condenado que aprecia sua última refeição.
— E como sei — ela riu. O apartamento, em silêncio, ecoou. Era como se, naquele momento, o mundo risse com ela.
— Então… — décima lua. Minha mão mergulhou em seu cabelo. Fiz um carinho. Décimo beijo — Nenhuma ideia ainda?
— Nenhuma — ela suspirou mais uma vez. A respiração mudava conforme eu avançava. Isso só me dava vontade de logo chegar a última lua.
— Realmente, não esperava isso de você — eu dizia enquanto fazia um sinal de negação com a cabeça. A barba sempre arranhando a pele dela, que se arrepiava divertidamente. Eu fui até a décima primeira lua. Mais um beijo.
— Me conta, então, o que eu não te dei. Quem sabe você não acabe ganhando — ela me disse quanto deu um leve aperto no travesseiro, como se eu não visse.
— Será? — eu estava, finalmente, na última lua. Último beijo. A pele finalmente tomou conta do espaço que, em certo momento, foi pura lua. Ela, porém, seguia sendo como um universo completo.
— Tenta a sorte — ela me respondeu rindo.
Eu agora estava completamente por cima dela. O meu primeiro pensamento, nessa hora, foi lembrar do eclipse que aconteceu poucos dias atrás. Éramos isso. Um encontro de astros. Um encontro de universos. Eu sorri antes de dar um beijo em seu pescoço e outro um pouco abaixo do seu ouvido.
— Você… — eu sorri mais uma vez. Dei uma mordida leve em sua orelha — Você não me deu bom dia — eu disse quase sussurrando.
Ela caiu na gargalhada, assim como eu.
O apartamento, vazio, ecoava a risada que compartilhávamos logo pela manhã.
O apartamento, vazio, se silenciou quando nossos lábios se encontraram.
O apartamento, vazio, naquela manhã, era um local de encontro entre universos carregados por mais coisas do que gostávamos de assumir.
O apartamento, vazio, ecoou, nas horas seguintes, um fenômeno tão raro quanto o eclipse: ele ecoou um amor.
O apartamento, vazio, naquele dia, era nosso universo particular.
