Zzzabádo

Preguiça. Isso era tudo o que eu sentia enquanto lutava contra mim mesmo para abrir os olhos naquele sábado. Eu, ainda demorando a realmente acordar, comecei a ouvir a chuva batendo na janela do quarto. A preguiça aumentou consideravelmente. Girei na cama e, ainda um tanto quanto relutante, abri meus olhos para encarar o teto.

Silêncio. Era tudo isso o que eu ouvia em casa. Peguei o celular no criado mudo e olhei as horas. Mais cinco minutinhos. A chuva começou a aumentar. Eu respirei fundo e me sentei na cama. Comecei, então, a fazer uma lista mental das coisas que eu teria de fazer hoje. Cortar o cabelo, fazer a barba, ir ao mercado. Preguiça. Me espreguicei. Ouvi a coluna estralar. Ê idade.

Coloquei o pé pra fora da cama. O piso estava gelado. Fui até o banheiro, joguei uma água no rosto e encarei o reflexo. Vi graça. Barbudo, cabelo bagunçado… Eu não poderia ser algo que não fosse jornalista. Escovei os dentes. Me espreguicei de novo. Bocejei.

Passei no quarto e peguei o celular jogado na cama. Caminhei até a cozinha, comecei a preparar o café enquanto conectava o celular na internet. Eu durmo desconectado. As notificações começaram a pipocar. Mensagem de mãe, mensagem de vó, grupo dos amigos — espero não ser pego no gemidão de novo, a última vez foi em pleno ônibus, trágico — , grupo do trabalho. Hoje é sábado. O trabalho eu posso ignorar.

Liguei a televisão enquanto coava o café. Peguei minha caneca do Corinthians e fui até a varanda ver o tempo. Nublado, meio frio, garoa fina. Estralei o pescoço numa última tentativa de mandar a preguiça embora. Não funcionou. Tomei um gole do café. Talvez eu precise fazer mais café.

Passei a mão na barba. Acho que dá pra fazer amanhã.

Passei a mão no cabelo. Acho que dá pra cortar outro dia.

Olhei para a caneca. O café estava acabando. Na caneca e na despensa. Acho que posso fazer minhas compras amanhã.

O celular vibrou. Era ela dizendo que estava a caminho de casa e que não sairíamos de baixo das cobertas de jeito nenhum e eu já podia escolher a série que iríamos maratonear.

Tem dias que a gente só agradece, não é?

(Fonte: Valente — Victor Cafaggi)
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