Quase

Muito prazer, meu nome é Quase. Não sou muito diferente do que provavelmente você é. Tive uma infância normal. Joguei bola, corri, ralei o joelho. A adolescência também não é digna de livros, séries ou filmes. Fiz coisas que outros adolescentes, tão clichês quanto eu, faziam. Em algum ponto de toda essa trajetória, eu deveria ter perguntado a mim mesmo aquilo que todos se perguntam, pois não há outra opção no formulário da vida no que se refere à famigerada questão: “o que eu vou ser quando crescer?”.

Aqui temos um problema. Eu não recordo de ter questionado isso. Provavelmente o fiz, é claro. Se lembrássemos de tudo o que fazemos, vídeos pós-festa open bar perderiam a graça, fotografias transformar-se-iam em pura arte que a poucos interessa, e memória seria apenas uma peça de alguma bugiganga eletrônica. Pois bem, retornando ao tema. Durante minha até então curta jornada nesta rocha flutuante que chamamos de lar, a pergunta que mais fiz a mim mesmo foi: “no que eu sou bom?”.

E recentemente temo ter chegado a uma triste resposta. Na realidade eu não sou extremamente bom em nada. Indo um pouco além, eu não sou nem muito bom em nada. Sou, no máximo, ok, em algumas coisas.

Esse texto que você está lendo, nesse exato momento, por exemplo. É uma prova perfeita da argumentação que estou desenvolvendo. Percebe-se que sei escrever. Eu consigo desenvolver uma ideia em algumas linhas, deixando-a clara para o receptor, desde que o mesmo não seja algum analfabeto funcional. Mas, perceba, eu não sou extremamente bom. Nem muito bom. O texto é no máximo ok. Volte um pouquinho nessas linhas que saltam aos seus olhos diante de seu celular, computador, tablet, seja lá qual for o dispositivo eletrônico do qual você faz uso nesse instante. No segundo paragrafo fiz-me de presidente sem voto e ousei largar uma mesóclise no meio de uma frase. Ali, perdidinha, sozinha, mais abandonada que — insira aqui alguma referência que lhe agrade-. Eu nem usaria aquele bonito “transformar-se-iam”, mas o word sugeriu. E, eu, limitado como sou, resolvi acatar. Veja você, então. Sou Quase um bom escritor.

Inteligência. Eu acho esse termo bem genérico. Porém, vamos lá. Sabe quando surge uma dúvida na roda de amigos, como por exemplo, “Qual é a capital da Suécia?” — Finja que, por alguma razão, alguma circunstância levou um amigo seu a fazer essa pergunta-. O cara que responde “Estocolmo” em dois segundos é o cara inteligente. Agora, por ironia do destino, ou por minha própria ironia, eu sabia a resposta, e nem precisei abrir o Google. Mas, aqui chegamos novamente no mesmo ponto de antes. Eu sei algumas coisas que outras pessoas não sabem. Não sei, entretanto, muitas coisas que poucas pessoas sabem. Sabe aquela pessoa que sabe muitas coisas que poucas pessoas sabem? Aquela criatura que argumenta desde a crise política da Grécia até a marcação em linha alta do Manchester City do Guardiola? Eu não sou essa pessoa. Queria ser. Eu sou Quase inteligente.

Toquei em um assunto interessante. Política. É muito bom quando as pessoas acham que você entende de política porque sabe o que está acontecendo. Na maioria das vezes eu sei o que está acontecendo. Dá até pra bancar o politizado nas redes sociais. Aliás, é bem fácil ser qualquer coisa nas redes sociais. Agora, desafie-me a fazer uma análise que exija um pouco mais de conhecimento político. Eu vou enrolar até acabar falando sobre algum episódio de Friends em que o Chandler fez um comentário sarcástico que ninguém entendeu. Ora, mas eu Quase entendo de política.

Existem inúmeros outros exemplos. Eu Quase entendo de música. Eu Quase jogo bem futebol. Quase faço ótimos trabalhos na faculdade. Quase sou bom em matemática, e Quase sou bom mentiroso. Ah, eu Quase sou engraçado. Mas é assim, bem Quase mesmo.

Tudo isso já faz com que eu pensasse muito em toda minha vida, no que eu já fiz, e no que ainda vou fazer. Já fiquei triste, brabo, e até mesmo desesperado. Mas, existe uma coisa que eu posso falar com muita certeza. Uma coisa que, inclusive, me dá orgulho. Eu, sem sombra de dúvida, quase nunca desisto.