O uivo do vento perdido

Naquela manhã chuvosa a neblina tomava conta da cidade. A cidade que ele mesmo tinha criado. Todo aquele céu azul, todas aquelas árvores vermelhas e todo aquele silêncio branco reinavam dentro dele.

Aquela folha vermelha que caía reforçava a sua solidão, pois o som que representava a sua queda podia ser ouvido a quilômetros de distância naquela cidade vazia que ele mesmo tinha criado. A imensidão do céu reforçava o quanto ele se sentia distante de todos e, quando anoitecia, a imagem do universo acima dele só provava o quanto ele era pequeno diante sua imaginação — do quanto ele era pequeno diante de si.

No meio daquela cidade vazia o som dos seus pés tocando o chão era um dos poucos sons que ele conhecia, pois, após ter perdido a si, ele caminhava em meio ao próprio esquecimento. No entanto, a chuva e a neblina enchiam aquela carcaça, e a imagem de um garoto ia sendo formada. A folha vermelha que havia caído retorna para o seu galho como se o tempo tivesse voltado. Aqueles passos e aquela folha já não eram mais os únicos sons que podiam ser ouvidos.

A chuva e a neblina trouxeram-no novos sentimentos. Como as lágrimas de uma mãe ao viver o luto do filho e como a maior defesa de um lua ao sentir seu planeta ser ameaçado. As gotas que caíam regavam o asfalto com todo o seu esplendor, e a neblina adentrava as casas e os apartamentos com toda a sua proteção.

Aquela cidade vazia que ele tinha criado ia ganhando uma nova vida.

Do centro daquela cidade; do centro daquele garoto, uma explosão de cores surgiu tomando conta de todo o cenário. Aquela cidade já não era mais a mesma. Aquela cidade esbanjava vida. O garoto esbanjava vida.

O universo já não parecia tão grande assim.

Do fundo da alma dele e do fundo da sua essência um único som podia ser ouvido. Um som que acalmava corações feridos. Um som que dava sentindo aos sentimentos. Um som que dava sentido a ele mesmo.

No fundo de si, ele podia ouvir o uivo do vento perdido.

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