Amar é o maior dos desafios

E outras afirmações pretenciosas

Não perca tempo tentando concluir o que virá. Se atente em cada passo, olhe para o que está próximo: já temos muito com o que trabalhar no aqui e agora.

Acho que se alguma pessoa se perguntar qual é a razão, motivo, sentido ou porquê de se estar viva, caso esteja realmente empenhada em encontrar uma resposta pelo menos provisória, vai percorrer-se de dentro para fora para dentro e para fora, até que quando já não tenha mais avesso e já tenha visto o que há para se ver, ela ficara presa na liberdade de estar no meio, onde tudo já se é. Chegaremos numa mesma situação, num estado comum.

Claro que a individualidade, a vivência de cada uma ou cada um, vai percorrer esse caminho com os seus próprios passos desajeitados e em seus trejeitos cabíveis. Cada palavra encontrada e símbolo recorrido, cada rede complexa de lógicas e significados e sentimentos vai ser da forma pessoal e individual. Os relatos das pessoas que procuram uma resposta dessas vão ser os mais heterogêneros e diversos possíveis do que se pode ser: o limite da pluralidade. Se tem um caminho que não permite trilhas, que não tem passos marcados, é esse. Imagine-se numa mata virgem onde nenhum outro ser de sua própria espécie jamais adentrou. E assim cada pessoa vai desenhar uma trajetória radicalmente diferente para tentar responder para si essa pergunta. Mesmo que a pergunta seja a mesma para todas.

Então a contradição se apresenta, pelo menos aparentemente. O sentido da vida é o mesmo para todas as pessoas e simultaneamente é particular. Não saberia lidar com ele. Bom, talvez não seja importante realmente sabê-lo. Talvez ele mude e seja apenas algo que brote no momento. Apenas mais um jogo de linguagem.

Mas ao chegar nesse lugar do meio, onde o que eu sou é uma continuidade do que não sou, onde o fora ao redor é o comecinho do que está dentro, lugar que cheguei por méritos próprios ao mesmo tempo que totalmente sem controle, sem mérito algum, quando chego nesse lugar, insurgindo qual sonhada revolução imediata, nasce em meu corpo uma sensação de reconciliação com os “outros” corpos. Esses limites corporais se tornam mais uma questão de “até onde minhas sensações vão”, mais do que “até onde vai minha pele”. É difícil dizer. Parece impossível. É quase certamente irracional. Mas é bom. Inegavelmente é bom. E quão bom é poder dizer “inegavelmente”. Estaria aí, no poder afirmar sem pensar, como que fosse a primeira certeza da vida, a felicidade? E aí, nessa interrogação, somos impelidos a sair desse lugar, pois ela fez dele outro.

Nesse intervalo vislumbramos algo que realmente nos fornecerá mais bagagens para novas respostas à essa pergunda sobre o sentido da vida. São nesses momentos de diluição que a memória se abraça com a vida e os tempos passados e futuros se fundem num agora profundamente denso. Quando o tempo deixa de passar e o espaço deixa de mudar independente de nós, quando somos parte desse processo, de maneira que não o conseguimos distinguir da nossa própria consciência se transformando. São esses os momentos que lembramos e que vêm a nossa mente e visão interna quando nos perguntamos sobre o sentido da vida. Porquê vivemos? Talvez seja para alcançar esses momentos. Os momentos de amor.

Amar é a experiência da consciência que percebe-se ela como parte indissociável de um Todo que é ela mesma. Quando amamos a vida, nos sentimos unidos à ela, de forma que não a condenamos, recriminando-a, ou a coroamos, nos submetendo a ela. Quando amamos alguém, similarmente, passamos a querer para essa(e) alguém tudo que queremos para nós, de forma que a sua felicidade ou a sua tristeza não é de “outra(o)”, é a nossa própria. Então não importa se essa pessoa vai ser feliz comigo ou com alguém ou sozinha: importa se ela vai ser feliz. Quando amamos o mundo, somos acometidos pelo famoso “sentimento do mundo”, e todas as nossas causas ecossociais nos nutrem de um engajamento e de uma motivação autônomas, incondicionais. E aí, todos os trabalhos e esforços que fazemos, não apresentam um “para”, não tem uma finalidade, apenas existem por si só. Na relação com o que amamos não existem sacrifícios, pois todas as dores são claramente necessárias e carregadas de valor. Enfim, amar é sentir-se unida(o) com o universo; é conhecer a experiência divina; é ser livre.

Então aparentemente é algo legitimamente almejável, amar e ser uma pessoa amante. Temos vontades comuns de se chegar nesses lugares. Mas quais lugares são esses? Novamente cairemos na pluralidade e na particularidade de cada um. Mas mesmo cada pessoa, dentro de si, vai encontrar dificuldades em estabelecer qual é a maneira mais eficaz de amar. E os momentos de amor, quando nos lembramos deles, sempre são precedidos e procedidos de momentos de desamor: são efêmeros. Porque quando amamos e nos sentimos bem nesse lugar de amor, quase invariávelmente caimos na tentação de concluir: é isso que eu amo. Tentamos encontrar a fórmula do amor, entender o fenômeno, desenhar suas bases, racionalizar suas causas. “EU me fiz amar” ou “A OUTRA me fez amar” ou até mesmo “SOU DEUS”, essas coisas acabam hora ou outra surgindo e nesse instante, voltamos a ser separados do tempo-espaço, voltamos a ver o mundo em oposições de interior e de exterior, de ativo e passivo, etc. É o nosso velho amiguinho, o ego: a crença na separabilidade das coisas, a crença nos objetos. Crer no mérito individual, seja o próprio, seja o de outra, é desconectar essa pessoa focada da cadeia de eventos que a forma e que ela ajuda a formar, participando, nunca controlando. Mas o ego existe, até no mais sutil e altruísta dos atos.

Então talvez amar não seja o fim máximo. Afinal, acabamos amando hora ou outra, querendo ou não. Assim, a vida só teria sentido em uma parte de sua experiência. Bom, talvez seja isso mesmo. Até porque ninguém precisa ver sentido, motivo, razão ou porquê total pra sua existência, né? É algo muito pretencioso.

Só que eu, muitas outras pessoas e acredito que grande parte de todos os seres ainda vêem a esperança de seguir essa resposta para além dessa parcialidade. A intuição nos diz que a vida pode ter sentido por completo. E num golpe de impulso, num esforço, me vejo na seguinte tese. Podemos nos sentir unidos com a vida, no amor, mas existe uma inconstância na qual estamos inseridos e acabamos sempre nos separando da vida, no desamor. Sou obrigado a aceitar o desamor como parte integrante da vida, e se quiser dar sentido completo a ela, esse sentido tem que abarcá-lo. Portanto, o sentido da vida talvez não seja simplesmente amar, mas sim o desafio de amar. Pois assim o desamor não deixa de ser amável: é onde somos desafiados a amar. Deixar de buscar o amor numa idéia ou lugar específico e identificá-lo no caminho, a trajetória.

Creio que o ego, em sua manifestação ativa, coercitiva, seja o grande despedaçador do amor. Mas ele existe e não podemos simplesmente eliminá-lo. Então uma maneira de uní-lo seria o aquietando, tornando-o contemplador. Contemplando a vida acontecendo, as pessoas sendo elas e o que há entre elas, você sendo você e o que não pode controlar em você, o mundo sendo o que queremos dele e o que não queremos. Deixando de lado ideias, culpas, lógicas e filosofias quando estas já estiverem te tornando incapaz de se unir com os momentos. Aceitando os momentos irracionais, a existência presente da contradição. Rejeitando qualquer unilateralidade, largando os nossos binarismos. Se deixando permear pelo que acontece, sem deixar de permear o ambiente. Vai doer, e muito. Nós sabemos que dói. Mas a dor não pode ser asfixiada, escravizada pelo sofrimento. Ela precisa ter hospedagem e acolhimento no nosso corpo, caso contrário, continuará vagando com rancor pelo mundo, sem lugar, arrombando as portas que sempre estão trancadas pra ela, com cada vez mais violência.

Principalmente, acredito, quero que tenhamos a consciência de que o significado do amor e os encontros com ele são essencialmente mutantes. É o momento, o ato, o toque desse pé de agora com o solo de aqui, que cria a melhor forma de amor. Então precisamos ter a coragem de deixar o caminho atual, mesmo quando esse nos é prazeroso; ou seguir nele mesmo no desprazer, se esta for a forma que o amor pede para chegar. A palavra é presentificar.

Daí em diante, as recomendações vão se tornando cada vez mais ilógicas e cada vez mais poéticas. Mas se precisarmos de algumas sínteses para ter motivação e engajamento nesse que é o maior dos desafios, que é o nosso grande trabalho, posso relatar o meu passo perfeitamente desajeitado.

Não importa encontrar o que amas. Importa amar o que te encontra.

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