Caraná, banda paulista

“Cara na cara na cara na cara”

A gente anda por São Paulo e praticamente não esbarra em muita coisa. Tem um caminho fácil de achar, difícil de percorrer, que é bem retinho e pouca coisa sai do esperado. Claro que se a gente dá uma olhadinha mais demorada ao redor, encontra um monte de sujeira, aquelas que ficam incrustadas no cimento, e umas rachaduras doidas. Acontece alguma coisa lá dentro, pra ter força pra mudar o chão, e sempre saem umas plantinhas, umas daninhas incalculáveis. Que são pequenas perto de toda essa dureza imensa, são. Mas se a gente olha elas um pouco mais do que pode, nossas rachaduras internas começam a vibrar. Nasce a saudade daquilo que tá debaixo. Essa sensação, depois que encosta, nunca mais vai embora. Mais cedo ou mais tarde, todas as certezas morrerão.

É tentando encontrar um sentimento selvagem ou pelo menos nada sofisticado que eu escrevo isso. Mas a Caraná consegue sempre encontrá-lo em mim. Palavras são sempre tão domesticadas, civilizadas. Poucas vezes conseguem sair do seu cativeiro gramatical pra viver livres e soltas por aí. A música tem um corpo mais difícil de adestrar, podendo muitas vezes ajudar suas amigas palavras a se libertarem. Isso descreve um pouco da experiência induzida pela Caraná, banda (ligação) que se formou em meio a vivências ferozes, na zona de conflito entre o urbano e a mata.

Farei esse texto como uma forma de agradecimento e contribuição para esse grupo que carrega tantos símbolos de beleza para mim. Porque hoje a juventude está velha demais, a não ser por alguns brotamentos.

Compondo a musicalidade, esbanjam uma eletricidade trópica que lembra a de décadas muito faladas, mas num revisitar renovado. Retomam alguns assuntos sonoros quase esquecidos e os trazem para a atualidade. Como trazer isso para essa conjuntura onde o global está ainda mais presente? É a América Latina, e todos esses territórios que ressoam numa mesma posição geopolítica, que precisa ser exaltada. Para isso a linguagem tropicalista e setentista encontra-se atualizada numa exposição de ritmos latinos popularíssimos que viaja o imenso cenário musical brasileiro e afro-brasileiro, passando pelo continente sul e chegando até a influências da américa central. Isso sem purismos, pois não ignoram as inevitáveis influências do norte e deixam até mesmo o rock ter seu espaço de rebeldia, sem deixá-lo naquele seu estado egóico e apropriador. Essa riqueza de timbres e ritmos, tudo vai muito bem misturado e engendrado numa simples mas ousada realização harmônica que prepara um cenário favorável para as belas letras, incrivelmente acessíveis e diretas, terem seu impacto. Nesse meio entre o regional e o universal, tão característico dos sucessos da tropicália e dos movimentos musicais nordestinos, as conversas propostas pela Caraná conseguem tratar de anseios ancestrais com posicionamentos rejuvenescidos, fertilizando as cabeças através dos ouvidos.

Agora, sendo um pouco menos formal, a experiência de acompanhar essa banda em suas aparições e agora nas recentes gravações é mais difícil de explicar. Sempre que a ouço, para mim é um pouco um sentimento de transporte. Trazer para o agora um pouco do que foi um viver mais orgânico e menos organizado. Um afirmar mais sem medo, sem aspas ou citações, que não espera ser legitimado por uma dessas estátuas falantes que instituem por ai. Chegar num lugar onde encontramos um sentir com mais espaço e autonomia para se esparramar sem ser podado. Mas junto com todo esse trabalho, porque não há viagem sem esforço, há também um sorriso. Uma careta, expressividade alegre e indomável que conhece muito, pois muito já viveu. Para cantar e dançar, não precisamos de nenhum comprovante de razão ou atestado de vida. Se queremos celebrar, não precisamos mandar ofícios ou permissões aos cérebros eletrônicos. Não estamos negando as dores e os lamentos com nossos gestos brincalhões. As sombras estão em nós, conduzindo meus braços e pernas para onde não sabemos, numa dança harmônica e sem controle. E tudo, tudo que essa mente de agora esquece, o corpo carrega em marcas. Por isso, estabeleçam a ordem e o progresso enquanto podem. A Caraná veio trombetar ou piar para o anúncio dos novos e não cronológicos tempos. Fazem assim comigo, e é sempre emocionante. Vibra algo de uma infância bruta, uma juventude vigorosa e uma longevidade plena.

Mais importante que tudo isso é o que materialmente pode acontecer. Mais além de todas essas coisas particulares da banda ou da minha experiência pessoal ao escutá-la, mais potente que isso, é que ela consegue induzir um pouco do coletivo nos lugares que se apresenta. Por ter uma uma performance tão envolvente, os shows são sempre de grande presença. Quem está tocado e se deixa penetrar pelo som facilmente se sente participante daquele momento e muito próximo daquilo que o faz sentir-se novo. Aquela velha oposição entre espectador e espetáculo, consumidor e artista e até, mais profundamente, entre sujeito e objeto, todas essas fronteiras conhecem sua morte, num acontecimento sem bordas, festivo e ritualístico. Sim, pra isso a abertura de todos é necessária. Mas se ela existe, tudo pode acontecer.

Claro, a Caraná sempre será passível de sofrer as críticas daqueles que insistem em comparar as expressões de vida com os modelos e as noções de beleza canonizadas. Estes agentes, que são muito treinados e eficientes, conseguem sempre construir essas críticas com boas lógicas. Que façam, se esta for sua arte. Mas o canto febril das novas caras, se é pra ser movimento, pode ser atravessado pelas vozes estagnadas sem deixar de ressoar, pois dessas tensões fará nascer uma nova sensação, sempre.

Desejo sorte e agradeço a Caraná pela sua presença. Ela me ajuda a continuar caminhando pelas retas de São Paulo sem nunca deixar de ver as sutis curvas, repletas de infinita beleza.

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