CONVERSA

Conversar, no sentido mais reconhecido desse verbo, quando duas ou mais pessoas partilhando do mesmo espaço jogam de dentro pra fora as palavras que lhes calham, me parece ser uma das mais simples formas de acontecer em conjunto, coagir. Sendo o falar algo tão claramente potente, no sentido de que a fala transgride, agride e apazigua ambientes nos graus mais variáveis de intensidade, uma conversa é praticamente uma explosão. Conversar, com toda sua sonoridade e sugestão, irremediavelmente me aparece como o oposto de conservar. Nada escapa ileso de uma conversa, tudo é no mínimo afetado. Convergir e versar, tão aí duas palavras tão potentes e densas, daquelas que parecem ser fundadoras da própria realidade cognitiva do ser humano, unidas num colossal conversar. O verso conjunto. Não consegui me desviar desse tipo de questionamento: existe algo que não esteja conversando?

Certamente, de algum jeito, todas as formas (animais, vegetais, minerais, gases, plasmas, ondas, etc) estão convergindo para compor ambientes, que são justamente aquilo sobre o que estão versando, gerando outros conversadores. Então porque falar sobre conversas dessa maneira tão isolada, como se fossem coisas específicas, que acontecem em momentos mais ou menos definidos?

Ah sim, é a palavra que define uma conversa. Uma mesa não pode estar conversando com uma planta, e certamente o Sol não estará nunca conversando com um pacote de salgadinho. Quem conversa são as pessoas, que falam palavras. Pô Nico, nem é algo tão restrito assim, vide nossa contemporaneidade, onde temos palavras por toda parte e as pessoas estão literalmente conversando em todas as partes do mundo! Agente tá hiperconectado cara, cê num vê? Vejo. Realmente existe uma grande conversa entre humanos acontecendo através de palavras por todo planeta.

Mas essas palavras não afetam os não-humanos também? Aliás, visto que se pode inventar palavras todos os dias e que por isso não se pode definir uma palavra a não ser por uma forma de som que comunica uma realidade à outra, animais não-humanos estão conversando também o tempo todo e em todo lugar. Ah, Nico, só porque gosto de você não vou só te taxar de viajador e sair fora. Vou só te corrigir: animais não-humanos não estão comunicando realidades, estão apenas emitindo sons.

Mas estes sons não alteram significativamente os rumos dos indivíduos de uma espécie? E mesmo as nossas tão civilizadas e elegantes palavras, elas não são “apenas” sons que nos alteram os rumos e cujo significado é totalmente variável, aliás, essencialmente mutável? Você vai ter que concordar que a conversa se dá num âmbito muito maior do que a norma define. Tá, eu concordo, mas só entre animais. Plantas, mineiras, gases, plasmas e ondas, essas formas não conversam.

Mas elas podem emitir sons, não podem? Quer dizer, o próprio som é uma onda. Certo, você vai diferenciar sons de palavras. Dirás que palavras são sons definidos e que podem até ter significado essencialmente mutável, mas são sempre os mesmos sons. Bom, nessa hora agente já começa a perceber que nossa língua tende a delimitar tudo. Dizer que são sempre os mesmos sons é uma forçação de barra. O simples trecho “sempre os mesmos” é algo dificil de conciliar com qualquer realidade. As palavras não são sempre os mesmos sons. Nada é sempre o mesmo, por mais que consigamos identificar uma similaridade com o que já vivemos. Cada boca irá pronunciar com um tom, um timbre e um tempo diferente, mesmo se for a mesma pessoa. Enfim, a“mesma” palavra, cada vez que a ouvimos, isto é, cada vez que essa onda sonora nos atinge, está acompanhada e necessariamente afetada por toda a composição sonora do que acontece naquele momento, e esse, nós sabemos, é sempre único. A palavra torna-se sempre única. A palavra-se difícilmente irá se desvincilhar do som. Mas aparentemente pode. Podemos formular uma definição ainda útil de palavra: uma parte do som que conseguimos identificar. Ou seja, quando se pensa na idéia de som no seu sentido plural, sons, diferenciando partes de uma totalidade sonora, estamos pensando nas palavras.

Então, por enquanto, as formas não-animais não podem participar da nossa conversa, trocando palavaras, porque não podem identificar, separar em partes o todo. No máximo elas podem produzir palavras que são captadas por nós, mas o inverso não pode ocorrer, pois como elas não tem consciência, não podem identificar. Por mais que eu possa falar com uma pedra, produzindo ondas que a atingem e transformam e que ela produza um som que faça o mesmo em mim, como todo som, isso não configuraria uma conversa porque a pedra não fará distinção entre os sons que eu emito e todo o som do momento. Para ela será sempre O Som.

Eu nunca poderia prever o que aconteceu nesse texto quando eu só queria falar sobre conversa. Mas agora, querendo ou não, esse ponto inicial levou à profunda questão de se as formas não-animais tem ou não consciência. Assim elas poderiam participar da conversa. Antes de eu pensar na definição das palavras, quando conversa era tudo que esse som despertava em mim, eu afirmara que a conversa se dá entre tudo, em todo lugar. E ainda sinto isso. Sinto que a consciência não é uma característica estritamente animal, ou que, pelo menos, a animalidade está em todas as formas. Que “coisas” ou, pior, “objetos” podem e estão se expressando e conversando conosco e entre si em todo momento. Mas veja que agora estou usando a palavra “sinto” e para explicar tais afirmações eu teria que começar a falar das experiências que tive, a falar de mim. Não sei se tenho ferramentas para alcançar uma prova lógica de que a consciência é tanto algo total e una quanto é particular e plural, existindo em tudo e no Todo. Mas posso tentar de outras maneiras. Afinal, este é um jogo divertido, o das palavras.

Quando falamos com algo ou alguém, por mais que o som, ao atingir aquilo, aquela ou aquele, sempre vai produzir algum afeto de maior ou menor grau, nem sempre conseguimos notar alguma reação ou tranformação. Mas isto não significa que não ocorra. Se eu jogar um balde d’água numa rocha eu provavelmente não conseguirei perceber uma mudança nela. Entretanto, se forem jogados inúmeros baldes por um longuíssimo período de tempo, essa reação da rocha será observável e nenhum balde será mais responsável por ela do que outro. Portanto um único balde causa sim uma reação na rocha. Qualquer som causa sim uma reação em qualquer coisa, o que implica definições bastante árduas de se encontrar para “som”, “coisa” e “reação”. As palavras são realmente misteriosas.

Voltando ao assunto conversa, se sabemos que tudo reage a tudo, a palavra que você endereçou a uma pedra necessariamente a afetou e ela, produzindo um som, também te afeta. Pra isso se tornar uma conversa, só falta a pedra não apenas ser afetada pela sua palavra, mas identificá-la. Então vamos, ao invés de tentar encontrar uma familiaridade numa ocasião estranha, encontrar uma estranhesa numa ocasião familiar. Quando conversamos com alguém que somos íntimos e que consideramos que tem alguma consciência, proferimos palavras e claramente percebemos que a pessoa identificou-as, por mais que não entenda o conjunto delas, nossas frases. Mas será tão claro assim? Muitas vezes essa troca de palavras, essa troca de sons, onde cada um é afetado de uma maneira completamente diferente, não é facilmente identificável. Muitas vezes entendemos apenas um balbucear e ou um monte de sons dos quais não conseguimos identificar uma só palavra. Claro que isso é mais difícil com alguem que temos intimidade. Mas você nunca quis falar “eu sinto que estou falando com uma pedra!” pra uma pessoa? Agora pense em você, brasileiro, lendo em voz alta este texto para alguém que só entende japonês ou russo. Se coloque no lugar dela: essa pessoa conseguirá distinguir as palavras? Definir os sons, onde eles terminam e começam? Só se ela ficasse muito, muito tempo ouvindo essa língua, criando aquilo que chamamos de familiaridade, intimidade. Mas mesmo antes disso, ela conseguirá, se for sensível, identificar suas mudanças de intensidade e intencionalidade, podendo até te “entender” em alguns casos. Analogamente, se te colocassem numa selva, você aprenderia depois de um certo tempo a identificar cada som. E você certamente tem alguma consciência, né?

Pelo jeito, identificação é uma questão de familiaridade. E a consciência já existe antes dela. Na troca de sons, no afetar, já existe consciência. A questão é que as palavras nunca se tornam totalmente identificáveis e tampouco o som é totalmente indistinguível. Isso torna a conversa independente de palavras ou inexistente. Por mais que identifiquemos sons que parecem ter limites e definições, nunca realmente sabemos dizer quais são os limites desse som. Qualquer definição, a “palavra” ou a “conversa”, designa uma coisa ideal que não se verifica fielmente à mostra na realidade material. No entando esta nos dá indícios da existência de tais coisas, nas tendências que ela propõe. E é isso mesmo: a conversa se dá em tudo e simultaneamente não se dá. Então vamos superar mais esse binarismo? Conversemos mais com a vida, sem esperar palavras dela.