You’re waiting for a train…

As vezes nos vemos em um sonho e, ao passo de um segundo, acordamos no limbo...

Escrever sobre o inception foi uma das experiências mais profundas que já tive. Acabei por mergulhar nos personagens. Sem querer. Sem querer minha vida ficou, durante todo o processo de criação desse texto, presa no limbo.

Inception (Christopher Nolan, EUA, 2010) é o escolhido da vez. Nos apresentando a eterna dúvida entre sonho e realidade. E é nesse meio que nos deparamos com o limbo: a continua estagnação e desconforto de estar em uma situação difícil de sair, sem ações ou soluções. É a complicação esperada ao aprofundar-se em "sonhos realistas".

A partir dessa complicação, o filme nos mostra o que seria uma solução: totens. O objeto (que deveria ser individual e pessoal) que difere sonho de realidade, o que nos faz manter os pés no chão. O que nos divide entre real e Mal...

Mal é a alma do filme. Todos os caminhos, mesmo que elaborados labirintos, nos levam à Mal.

Mal: Do you know what it is to be a lover? Half of a whole?

Dentre todos os efeitos de cena, seja a trilha sonora ou a fotografia ou os sensacionais efeitos especiais de gravidade alterada (dando destaque as cenas do corredor e do primeiro sonho de Ariadne), encontramos os olhares da Mal, a nos transmitir não só as sensações dela, mas principalmente as de Cobb.

Incrível como um sentimento tão bonito como o amor, quando machucado, se torna ódio. Não é um bom sentimento, nem feliz. Mas parece que sempre que o amor se machuca, ele cura mergulhando-se em ódio.

E esse é um dos sentimentos que Mal mais transparece. E nada mais é do que a sua dor. A dor/culpa de Cobb, que nos vem a tona com todo esse ódio.

Cobb: She had locked something away, something deep inside her. The truth that she had once known, but... she chose to forget. Limbo became her reality.

Falo de dor/culpa porque, no fundo, todo mundo tem um "Q" de consciência da merda que tá fazendo. As vezes, somos culpados pela nossa própria dor. E também culpados pela intensidade dela.

Cobb: "You're waiting for a train. A train that will take you far away. You know where you hope the train will take you, but you can't be sure. Yet it doesn't matter. Now, tell me why?"
Mal: "Because we'll be together!"

O poema é a ponte, não só para a realidade, mas também para a dor e para a culpa de Cobb e Mal.

Culpando-se, Cobb tenta manter Mal viva em seus sonhos e isso acaba por o consumir. Sem conseguir dormir, acaba se tornando dependente dos "sonhos"/lembranças com a Mal.

Só consegue retomar sua vida, sua sanidade, quando abre mão dessa culpa. "Abrir mão"... a decisão que nos é imposta quando o assunto é sofrer por um relacionamento que não existe mais. Mas também é o "aceitar". Aceitar a morte da Mal, a perda, a distância e a culpa. Despedir-se.

Despedidas que nunca temos, mas ao fundo sempre queremos ter. Parece justo se despedir, mas nunca conseguimos nos despedir de fato de quem amamos. Ainda mais quando sabemos que não haverá reencontro. Quando a esperança morre, o que ela leva de nós?

Ao final de tudo, o filme é feito para nos confundir. E questões como "Como saber se isso é real/verdade?" , "O que é real?", "O que é verdade?" acabam se perpetuando em nossa mente.

Mas quando na vida também não é assim?

A arte imita a vida... Mais uma vez...

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.