Gênero

Todos e todas nascemos com o sexo, biologicamente falando, definido: masculino ou feminino. É preciso reiterar que gênero não é o mesmo que sexo. Gênero é o papel que exercemos enquanto ser humano e que não diz respeito necessariamente ao nosso órgão sexual. Segundo Nicholson:

“Gênero” foi desenvolvido e é sempre usado em oposição para descrever o que é socialmente construído, em oposição ao que a biologicamente dado. Aqui, “gênero” é tipicamente pensado como referência a personalidade e comportamento, não ao corpo; “gênero” e -sexo” são portanto compreendidos como distintos. De outro lado, “gênero” tem sido cada vez mais usado como referenda a qualquer construção social que tenha a ver com a distinção masculino/feminino, incluindo as construções que separam corpos “femininos” de corpos “masculinos”. 
 (NICHOLSON, 1999, p.1)

O termo gênero começou a ser usado dentro do movimento feminista americano que se posicionava contra o determinismo biológico que, segundo Scott, estava inserido dentro dos termos “sexo” e “diferença sexual” e, portanto, contribuía para o sexismo. [i]Dentro do movimento feminista, o termo “sexo” não carrega consigo aspectos culturais e históricos, diferentemente do gênero. Ou seja, o termo gênero não é usado para substituir o sexo, mas sim para complementá-lo. O determinismo biológico se estende apenas em definir macho e fêmea dentro dos termos da biologia propriamente dita. Em contrapartida, o funcionalismo biológico faz a mesma distinção, mas com uma abrangência, ainda que delimitada, de aspectos culturais. Nicholson compara o funcionalismo biológico como um porta-casacos, que segundo ela, fora feito para pendurar “casacos” mas em algum momento também serve para pendurar outras “peças”.

Entretanto, Linda Nicholson afirma que tanto o funcionalismo biológico quanto o determinismo biológico precisam ser abandonados. Esse pensamento se constitui por conta de que, enquanto o funcionalismo biológico padroniza todas as mulheres fazendo a comparação com “casacos” para usar o termo gênero, o determinismo biológico não apresenta nenhum resquício de aspectos culturais e históricos, apenas biológicos, sendo que gênero é muito mais abrangente do que isso.

Segundo Judith Butler (2011), “o gênero é performativo e ninguém pertence a um único gênero desde sempre.” Segundo a autora, nós atuamos conforme o que nos foi imposto a ser. Para exemplificar, é como se estivéssemos todos num grande teatro interpretando papeis de homens e mulheres. O ser humano possui desejos e estímulos que não são ligados a ser um homem ou a ser uma mulher, visto que esses dois termos são construções sociais. Quando Simone Beauvoir afirma em seu livro O segundo sexo (BEAUVOIR, 1980, p.9) que “não se nasce mulher, torna-se mulher”, ela propõe a visão de que tudo o que sabemos sobre ser homem e mulher, deixando de lado o sexo, é meramente construído, seja por questões religiosas ou por influência da sociedade patriarcal.

Quando uma mulher está gravida, por exemplo, a primeira pergunta que costuma ser feita para ela é se o bebê é menino ou menina. Dentro dessa pergunta, já está implícito a cor que deveria representar cada um, os gostos que cada um terão, as brincadeiras que farão e quais serão seus papéis na sociedade. Toda essa imaginação é fruto de um sistema que se propõe a estereotipar o que é ser homem ou ser mulher, e, por consequência, propõe a desigualdade de gênero. Segundo Scott:

O gênero é, portanto, um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre diversas formas de interação humana. Quando os(as) historiadores(as) procuram encontrar as maneiras como o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais, eles/elas começam a compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e das formas particulares, situadas em contextos específicos. 
 (SCOTT, 198 9, p. 23)

Desse modo, tanto homens quanto mulheres sofrem com os rótulos previamente atribuídos já no nascimento, e sofrem com eles a vida inteira. A todo momento, a mídia, as novelas, as revistas, os jornais, os anúncios de lojas e produtos ditam o que deve ser ligado ao homem ou à mulher, delimitando assim, como cada um deve ser e o que cada um deve gostar para, de fato, ser homem ou ser mulher. Segundo Guacira Louro, não é a nomeação de um corpo como macho ou fêmea que fará do indivíduo alguém masculino ou feminino, pois a construção de gênero se dá durante toda a vida, de forma gradual.

Quando o termo “problemas de gênero” e “desconstrução de gênero” são abordados, trata-se de problemas que visam diferenciar o que consideramos homem e mulher e todo o discurso que tal diferenciação implica. Pensar em problemas de gênero é pensar sobre as diferenças sociais que englobam tanto as mulheres quanto membros da comunidade LGBT em relação aos homens. A desconstrução de gênero seria deixar de diferenciar homens e mulheres com conceitos machistas e patriarcais dos quais o ser humano é acostumado a determinar.

Segundo Nicholson (1989), o termo homem e mulher são vazios e transbordantes. “Vazios porque elas não tem nenhum significado definitivo e transcendente; transbordantes porque mesmo quando parecem fixadas, elas contém ainda dentro delas definições alternativas negadas ou reprimidas.”.

Majoritariamente, o termo gênero é muitas vezes substituído por mulher ou para se referir à membros da comunidade LGBT que são as categorias mais afetadas pelo preconceito de gênero. Entretanto, discutir gênero é discutir o papel do homem e da mulher e o que ele implica. Todo o emaranhado de conceitos que estão ligados ao uso dos termos binários homem e mulher contribuem para a perpetuação de problemas de gênero, visto que muitos não se identificam com o que conhecemos sobre o que é ser “mulher” e sobre o que é ser “homem”. Descontruir o gênero é, portanto, desconstruir o papel binário que nos é imposto a seguir.

Por conseguinte, Guacira Louro aborda em seu artigo os desafios da questão de gênero em termos de aceitabilidade social. Segundo ela, o maior desafio da atualidade além de lidar com a multiplicação dos termos para além do conceito binário que temos, é aceitar que alguns indivíduos vivem exatamente no meio de uma identidade sexual e de uma identidade de gênero. “A posição de ambiguidade entre as identidades de gênero e/ou sexuais é o lugar que alguns escolheram para viver.” (Louro, 2004).

Referência:

LOURO, Guacira Lopes. Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas. Pro-posições. Campinas, p. 1–7. maio 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a03v19n2.pdf>. Acesso em: 09 jun. 2017.

JUDITH Butler: Your Behavior Creates Your Gender. S.I: Big Think, 2011. (3 min.), son., color. Legendado. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Bo7o2LYATDc>. Acesso em: 30 maio 2017.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para análise histórica. New York, Columbia University Press. 1989. Tradução de Christine Rufino Dabat e Maria. Dísponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1840746/mod_resource/content/0/G%C3%AAnero-Joan%20Scott.pdf

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