O homoerotismo na literatura brasileira

Sabe-se que o viés homoerótico é explícito e implícito tento na literatura quanto nas artes visuais desde a Grécia Antiga. Porém, o homoerotismo de lá não é o mesmo que caracterizamos hoje. Contudo, nessa pesquisa me atentei a pesquisar sobre a literatura homoerótica apenas no Brasil.

Segundo Silva (2004) existe uma delimitação quanto ao homoerotismo, pois o mesmo ainda não conseguiu um espaço adequado dentro da teoria literária. Contudo, é inegável que a crítica tornou-se mais atenta a pauta homoerótica por conta da ascensão de movimentos gays e também, por consequência, da homossociabilidade. Segundo Silva:

“o olhar homoerótico numa perspectiva literária não pode se limitar apenas aos leitores homoeroticamente inclinados, mas a qualquer sujeito que venha comungar da leitura da mesma. Do contrário, estaríamos criando um gênero exclusivo para o exercício teórico-literário.”
 (SILVA, 2004)

A crítica literária também tratou de ignorar a temática homoerótica, fazendo com que ela não aparecesse nas leituras obrigatórias escolares pois elas remetiam para às paradas gays, à AIDS (a partir da década de 70) e à promiscuidade. Além disso, segundo Jurandir da Costa Freire, a figura do homossexual em fontes literárias do século XIX e no início do século XX era visto como “nada mais do que decantações imaginarias de um estereótipo humano, inventado para funcionar como antinorma do ideal de conduta sexual masculina adequado à formação da família burguesa”. (JURANDIR, 1992)

Quando a temática era tratada nas obras, a homossexualidade era vista como feminilidade, portanto, era repreendida, concretizando assim, a feminofobia e a homofobia. A questão da passividade e da comparação do corpo do homem com os feitios femininos abriam brechas para que a crítica vinda de uma sociedade patriarcal minimizassem quem era considerado “afeminado”, visto que o termo gay surgiu muito depois, com os movimentos da década de 70. Estima-se que o primeiro aparecimento de um viés homoerótico em narrativas brasileiras se deu pelo romance Um homem gasto, publicado em 1885, por Lourenco Ferreira da Silva Leal. Nesse livro, a homossexualidade é tratada como a pior coisa possível de se acontecer com alguém, retratada de forma extremamente preconceituosa.

Após Um homem gasto, há um consenso de que a próxima obra literária que tratou da temática homoerótica foi publicada dez anos depois, sendo o livro Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, publicado em 1895. A obra trata do romance entre Aleixo e Amaro, dois marinheiros. Amaro é o “bom crioulo”, negro, forte e viril. Já Aleixo, é um adolescente, retratado com características femininas e visto por Amaro como uma mulher a ser conquistada por ele. A descrição dos dois personagens sempre é feita de maneira a representar a mulher e o homem em um relacionamento, e nunca tratando de dois homens em uma relação. No fim da trama, quando os dois estão à procura de um quarto de aluguel, encontram D. Carolina, que alugava quartos para pessoas, segundo o autor, “não muito honradas” (SOUZA, 2010) visto que a mesma havia sido prostituta na juventude. Logo, o autor sugere que: “Assim, percebemos o meio marginal em que o narrador insere Amaro e Aleixo, somente à margem da sociedade o desejo homoerótico podia se concretizar”. (SOUZA, 2010). Aos poucos, os mesmos feitios femininos que atraem Aleixo ao bom-crioulo atraem também D. Carolina ao bom-crioulo. Contudo, D. Carolina também mostra interesse em Aleixo e quando o autor narra a relação sexual entre os dois, coloca D. Carolina como controladora da situação enquanto Aleixo estaria “aprendendo a ser homem”. Segundo Silva, a “inversão” de Aleixo foi “curada” quando sucumbiu aos “encantos” de D. Carolina”.

A mesma visão da homossexualidade que ocorre em O bom Crioulo, ocorre também em O Menino do Gouveia, pois se baseiam num conceito de que os homossexuais são “invertidos”, que além de desejarem o mesmo sexo, assumem também características do sexo oposto. Essa relação é evidenciada em Bembem, personagem principal da obra. Segundo o autor:

“A ambiguidade adolescente é explorada em ambas as narrativas. Nessa fase intermediária entre a infância e a idade adulta, esse adolescente parece ser considerado potencialmente ambíguo em relação não só à sua sexualidade, mas ao seu gênero, associando o infantil a algo feminino, infância que o adolescente ainda não perdeu completamente.” (SOUZA, 2010)

A obra O Menino do Gouveia foi publicada em 1914, de autoria de Capadócio Maluco, trata Bembem como “afeminado” e submisso à Gouveia, assim como Aleixo era para com a Amaro. Além disso, mostra a homossexualidade como algo doentio e abominável, levando à marginalidade e a promiscuidade. Um exemplo disso é o personagem Bembem, que possuía o desejo do ato sexual com o próprio tio e por isso fora expulso de casa e entrando para a prostituição. Lá, um homem se aproxima do menino e o leva para o cinema com o intuito de ter relações sexuais com ele. Especialmente nesse conto, o narrador ao decorrer da trama mostra interesse em Bembem mas se autocorrige afirmando que determinadas partes do corpo do personagem era desejo pessoal dele pois se assemelhavam à partes femininas, e não porque era um menino, negando seu desejo homossexual.

Tendo base as duas obras Bom Crioulo e O menino do Gouveia, faz-se uma noção de como era abordado o homoerotismo na literatura brasileira no século XIX e início do século XX. A necessidade de ligar a figura do homossexual à uma mulher, caracterizando feitos femininos e fazendo com que o personagem seja submisso à figura do “macho” é algo evidenciado. Além disso, o fato de ligar o homossexual beirando à marginalização ou então, fazendo ele “virar homem”, dando a ideia de que ser homossexual seria apenas um desvirtuamento efêmero, ou ainda, reprimindo e disfarçando os desejos homossexuais com a recusa de que o que atraía um homem à outro homem seria o fato do último possuir características femininas.

Além dos 3 autores já citados, há também Junqueira Freire (1855). Freire era um frade que ficou conhecido por um poema denominado A um moçoilo, de cunho pornográfico homossexual. Além de autores que já foram citados, clássicos da literatura brasileira também abordaram o homoerotismo em suas obras, como Aluísio de Azevedo, Machado de Assis e Guimarães Rosa.

Aluísio de Azevedo, em sua obra O cortiço, publicada em 1890, a figura homossexual com a personagem pombinha é pejorativa, visto que ela é uma prostituta que acaba se apaixonando por uma mulher, cuja cena de sexo é descrita minuciosamente na obra. A obra, por ser escrita no período do realismo, tem como principal papel criticar a corrupção e demonstrar a vida em cortiços. Logo, a figura do homossexual é vista mais uma vez de forma pejorativa e marginalizada, porém crua, diferente de Bom Crioulo e Menino do Gouveia, onde se tentava comparar o homossexual fielmente a uma figura feminina.

Diferente da maioria, Machado de Assis explora em seu conto Pílades e Orestes, a história de um homossexual no meio jurídico, diferente do que fora mostrado anteriormente em outras obras que tratam de colocar a figura do homossexual em espaços subalternos. Segundo Luis Marques da Silva e Valéria Rosito, citando Foucault, “o sujeito homoeroticamente inclinado não existe na essencialidade, mas no discurso burguês como um produto construído social, cultural e historicamente.” SILVA, L. ROSITO, V. (2016 apud FOUCALT, 1979). Assim, a obra de machado contraria a “regra” quanto aos homossexuais dentro da literatura homoerótica até então.

Guimaraes Rosa, por sua vez, na obra Grande Sertão Veredas, escrita em 1956, trata de um amor reprimido por conta de preceitos cristãos vigentes na sociedade em questão entre Riobaldo e Diadorim. Tal amor só é descoberto com a morte de Diadorim. Riobaldo se autoreprime dentro de seu desejo por Diadorim, pressupondo que tal sentimento não poderia pertencer-lhe, ainda mais por esse sentimento ser despertado unicamente por um homem. Logo, o romance entre os dois não ocorre, apenas marca presença na obra como um romance platônico. A paixão dos dois é descrita de forma clara na obra. Logo de início, Riobaldo expressa seu amor: “[..] Que mesmo, no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre.” (ROSA, 1994, p.48)

Analisando as três obras sendo uma do final do século XIX e a outra do início do século XX e as comparando com outras, além de Grande Sertao Veredas, escritas já pela metade e final do século XX, a mudança de abordagem do homoerotismo possui características bem diferentes. Enquanto em um período, a figura homossexual é reprimida, marginalizada e abominada, no outro período, tende-se a abordar com mais clareza o desejo homoerótico e a compreensão psicológica dos personagens abordados. Segundo Green:

“Nos anos 30, o abafamento da vida gay era constante e corria por conta da repressão policial e psiquiátrica. Nos anos 50, entretanto, a visibilidade já despontava como estratégia irreversível nessa história de emancipação. Daí a criação dos primeiros jornais e revistas gays, que proliferaram durante toda a década de 60 e sofreram a repressão da ditadura militar, que recrudesceu a partir de 1968. Essa imprensa alternativa foi solidificando as relações sociais entre Indivíduos antes bastante isolados. “ 
 (GREEN, 2000, p.2)

É válido reiterar que o homoerotismo na literatura não existe apenas para atrair o público homossexual, pelo contrário, ela serve como arma tanto para criticar quanto para empoderar. Atualmente, a literatura homoerótica está muito mais representativa e forte. Observa-se que a entrada de obras de cunho homoerótico, como Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu e Fantasias Eletivas, de Carlos Henrique Schroeder sendo aderida em listas de leituras obrigatórias de vestibulares contribuem para uma visão de mundo muito menos homofóbica e feminofóbica. Graças a ascensão dos movimentos que lutam pela igualdade de gênero como o feminismo e o movimento LGBT, a representação da homossexualidade e do homoerotismo não são mais vistas como algo a ser abominado, e sim como uma forma de luta, representatividade e munição política.

Referências:
SILVA, Luciano Marques da; ROSITO, Valéria. O legado homoerótico em Machado de Assis. África e Africanidades, Rio de Janeiro, v. 22, p.1–20, jul. 2016. Disponível em: <http://www.africaeafricanidades.com.br/documentos/0010220072016.pdf>. Acesso em: 29 maio 2017.

COSTA, Jurandir Freire. A inocência e o vício: Estudos sobre o homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume Dumaná, 1992

SOUZA, Warley Matias de. Literatura Homoerótica: o homoerotismo em seis narrativas brasileiras. 2010. 155 f. Dissertação (Mestrado) — Curso de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010. Disponível em: <http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/ECAP-8BRF39/literatura_homoer_tica__disserta__o_de_mestrado_.pdf?sequence=1>. Acesso em: 29 maio 2017.

GATTI, José. Mais amor e mais tesão: história da homossexualidade no Brasil. Ponto de Vista, São Paulo, p.1–18, 2000. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/viewFile/11932/11198..>. Acesso em: 29 maio 2017.

SILVA, Antonio de Pádua Dias da. A história da literatura brasileira e a literatura gay: aspectos estéticos e políticos. Maceió: Editora, 2012, p. 1 -26.

ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

CAMINHA, Adolfo. Bom-Crioulo. Rio de Janeiro: Editora Ática, 2007.

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