GESTAÇÃO DE ANOS
Ansiedade, angústia, medo e, por fim, felicidade. Eles esperaram mais do que nove meses para serem chamados de pais — e contam como foi todo o processo.

Um bebê, de 0 a 3 anos de idade, saudável e sem irmãos. A descrição é do perfil mais comum buscado por pessoas que querem adotar no Brasil. A escolha é natural, afinal os pais tendem a traçar essas preferências até por uma questão de adaptação. Foi assim que começou a história da Luciana Vilella Ouverney, de 43 anos, e do Thiago de Paiva Nunes, de 37 anos. Mas depois de dois anos de espera na fila, o desfecho dela foi bem diferente — e, segundo eles, o melhor possível.
Para adotar uma criança ou adolescente no Brasil, a trajetória é extensa e leva meses — na maioria das vezes demora anos, dependendo do perfil de criança escolhido. É preciso, primeiro, buscar a Vara de Infância e Juventude do município de residência e organizar os documentos solicitados. Depois, é necessário fazer uma petição para começar o processo de inscrição para adotar. Caso seja aprovada, a etapa seguinte é a de habilitação, que costuma demorar de seis a oito meses para adoções nacionais. Neste período, as pessoas cadastradas passam por um curso de preparação psicossocial e jurídica, além de avaliação com entrevistas e visita domiciliar. Dependendo da comarca, as situações socioeconômica e psicoemocional também são avaliadas. Durante este período, os futuros pais adotivos descrevem o perfil da criança desejada — sexo, raça, faixa etária, estado de saúde, se aceitam irmãos etc. Mas antes de todo esse processo burocrático de adoção vem uma etapa fundamental e que envolve as questões emocionais. É a decisão de adotar.
Atualmente juntos há cerca de doze anos, Luciana e Thiago se viram em um impasse quando decidiram aumentar a família. Não era a vontade de ter um filho que os impedia de se tornarem pais — pelo contrário, o desejo era enorme. As tentativas não foram poucas. Mais precisamente, foram quatro anos tentando engravidar. Nesse tempo, Luciana sofreu quatro abortos espontâneos. Em 2012, foi a última tentativa, que novamente falhou. Quatro anos depois, quem sugeriu a adoção foi Thiago, que já tem um filho biológico adolescente de outro relacionamento. “No início eu não queria, mas eu fui amadurecendo a ideia de adoção. Era aquele desejo de mulher, de querer viver aquilo, todas as fases”, conta Luciana. O casal começou todo o processo de adoção em junho de 2014.
“Logo que você entra para a fila de adoção, você quer um bebê. Mas durante todo o processo de habilitação, a gente foi abrindo o coração”, explica Luciana. Quando precisaram escolher o perfil da criança, definiram como de 0 a 5 anos, sem distinção de sexo, nem raça, sem problemas de saúde e aceitariam grupo de irmãos desde que tivessem até cinco anos de idade. A espera na fila, que durou dois anos, foi angustiante — principalmente porque já tentavam engravidar há pelo menos quatro. “Apesar de toda a orientação que nós recebemos no fórum, eu tinha medo. Medo de não conseguir me afeiçoar à criança, de não saber cuidar. Me perguntava ‘como vai ser?’, ‘será que vai dar certo?’, ‘será que essa criança vai vir com algum trauma? Eu vou saber contornar?’”, recorda.
A vontade de ser mãe e pai foi maior do que a de aguardar na fila por alguma criança com o perfil exatamente compatível com o deles. Dois anos depois de esperarem sem nenhuma perspectiva, em agosto de 2016, Luciana foi até o fórum ver como estava a situação deles. Foi durante uma conversa com a assistente social que ela decidiu ver outras crianças que já estavam disponíveis para adoção, mesmo que não se encaixassem com as escolhas deles. “Quando eu ouvi o histórico da Alice, na mesma hora, eu senti uma ligação com ela. Eu nem tinha visto foto, nada. Eu me emocionei”.

A Alice era uma bebê de 9 meses, com microcefalia e paralisia cerebral. É aí que a história do casal que buscava uma criança saudável começou a tomar outro rumo e se cruzou com o juiz Sérgio Luiz Ribeiro de Souza, titular da 4ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. A Alice fazia parte de um projeto, idealizado pelo juiz, chamado O ideal é real — adoções necessárias. O objetivo da iniciativa é estimular a mudança de perfil na adoção de crianças e adolescentes. “É natural que a pessoa traga uma criança idealizada e a gente tem que mudar essa ótica. Mostrar que existe a criança idealizada e a criança real. A criança real também pode ser a ideal”, explica o juiz. A estratégia também ajudaria a fechar a conta entre o número de pessoas que querem adotar e as crianças que estão disponíveis. Atualmente, 4.931 crianças e adolescentes esperam por uma família no Brasil. Do outro lado, 41.280 pais aguardam o filho idealizado na fila de espera. “Se cerca de 12% dos habilitados mudassem o perfil desejado de criança para adotar, a gente fecha essa conta”, afirma o magistrado.
Depois de visitarem a menina no abrigo, a decisão foi imediata. “Não consigo explicar o que a gente sentiu naquele dia. Quando colocaram a Alice no nosso colo, eu falei ‘não tem jeito’. Já era nossa filha”, diz Thiago ao lembrar do primeiro contato com a criança. A adoção da Alice acabou modificando a vida do casal não somente enquanto pais. Ao viver a realidade de criar uma filha que precisa de atendimentos como terapia ocupacional, fonoaudiologia e fisioterapia, eles passaram a perceber as dificuldades — e a olhar para pais que não têm como oferecer aos filhos o mesmo tratamento de qualidade. Assim, em 2017, surgiu a ideia de criar o Instituto Alice — Neurorreabilitação Infantil. Como Luciana é enfermeira e Thiago, biólogo, eles conhecem muitos profissionais da área da saúde, que devem atuar como voluntários. Por enquanto, estão fazendo eventos e vendendo produtos como boneca da Alice, camiseta, chaveiro e caneca para arrecadar fundos. A mudança que a menina provocou na vida deles foi recompensadora. “Nossa relação com as pessoas mudou. A vida da Alice foi uma lição de moral para repensar os nossos valores”, afirma Thiago.
Ao contrário do caso da Alice, a mudança de perfil nem sempre é comum de acontecer. O tempo de espera para quem deseja adotar um bebê de 0 a 3 anos, sem problemas de saúde e sem irmãos pode levar anos, pois depende da disponibilidade de crianças com o perfil escolhido no município e na Vara onde os futuros pais estão cadastrados. A psicóloga Catia do Rosário Silva Fiuza, de 42 anos e o militar das Forças Aéreas José Fernando Cruz Fiuza, de 64 anos, conhecem bem esse processo. É que foram cinco anos de espera na fila para conseguir adotar um bebê com as características que desejavam.
Catia sempre teve o desejo de ser mãe. Já o marido, que tem dois filhos adultos de outro relacionamento, tinha feito vasectomia, um procedimento cirúrgico que deixa o homem estéril. Mesmo assim, o casal decidiu que tentaria engravidar. Catia chegou a fazer inseminação artificial aos 33 anos, mas o tratamento não teve sucesso e os dois acabaram escolhendo, cerca de quatro anos depois, encarar a fila de espera da adoção. “Eu queria ser mãe. Vir da minha barriga ou não era só detalhe”, diz. A decisão foi natural, porque essa realidade já tinha sido vivenciada, de certa forma, pela psicóloga. Na família dela, cinco são adotados. Foi nesse momento que começou um período de muita ansiedade. Ao todo, foram duas renovações de habilitação. “Eu criei certos bloqueios emocionais para não criar grandes expectativas. Eu podia me frustrar”, conta. Para Catia, que fazia terapia, o fato de ser uma profissional da área da psicologia ajudou nesse processo. Mesmo assim, ela se fazia diversos questionamentos. “Eu achava que não era para ser mãe, que eu não merecia. Pensava também no meu marido, se eu não estava sendo egoísta”. Catia chegou até a pensar em largar o processo de adoção, mas foi José quem a incentivou a continuar.

A demora de cinco anos começou a pesar para o casal, que queria uma criança de 0 a 4 anos e saudável. Por pouco, não desistiram de vez da adoção. “Eu já tinha falado para o meu marido que se não viesse até o próximo período de renovação, que seria em novembro de 2019, a gente ia desistir”. No dia 15 de agosto deste ano, um telefonema mudou tudo. Um menino de 9 meses estava à disposição para ser adotado pelo casal. Até o fechamento desta reportagem, Catia e José ainda não levaram a criança para casa. Eles estão aguardando apenas o despacho da guarda. De resto, já está tudo preparado. O quarto dele está sendo montado e a bolsa está pronta para o dia em que forem buscar o menino. “Eu brinco que antes eu me sentia um pai, porque ele sabe que a criança está ali na barriga, mas não consegue sentir mesmo até que veja o bebê nascer. Hoje já me sinto uma mãe”, afirma Catia.
O processo de adoção no Brasil ainda é lento, mas não somente por questões estruturais ou falta de investimento. Existe também um problema de conscientização. De acordo com o juiz Sérgio Luiz Ribeiro de Souza, o passo mais importante do processo é a habilitação. “É onde a gente tira as ideias de que a adoção não vai dar problema. Os pais idealizam a criança. Acham que ela não vai fazer isso ou aquilo, mas a criança é um ser humano. Como qualquer filho, vai ter suas demandas. Você não escolhe o filho que vai parir. É a mesma coisa para adotar”, afirma. Além disso, o que leva alguém a adotar são diversos fatores. Tudo é avaliado e caso sejam percebidas motivações como questões religiosas, achar que vai estar ajudando alguém e sentimento de ninho vazio depois que os filhos cresceram, as decisões tendem a ser negativas. “As ações que são julgadas improcedentes são por um motivo principal. Não ter a vontade real de ser pai ou mãe”, explica o juiz.

A psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) Lidia Levy explica que as pessoas têm realidades muito diferentes e que, às vezes, chegam para entrar no processo de adoção sem muita noção do desejo de ser pai ou mãe. “Todo mundo vem com um sonho na cabeça e a Vara não é uma fábrica de crianças. A meta é encontrar famílias para as crianças, não o contrário”. Por isso, a psicóloga ressalta que a ida aos grupos de apoio é fundamental para os pais. São nesses momentos que uns podem se identificar com os outros e compartilhar as mesmas angústias. Além disso, ela destaca o acompanhamento dos psicólogos ou assistentes sociais durante o período de adaptação. “Às vezes você tem uma expectativa de que a criança vai te achar a melhor pessoa do mundo. E esquece que para ela também é tudo novo. É uma pessoa estranha, que ela vai precisar criar um vínculo”.