Cômodo

Nicoly Adão
Aug 26, 2017 · 2 min read

Os quadros, o tapete, o sofá, o rádio, os livros nas prateleiras, as cores das paredes, as fotografias no mural. Tudo continua no mesmo lugar. O cômodo onde você viveu por pouco tempo ainda estaria exatamente igual, se não fosse pelo vazio que emana. Os cupins devoram os móveis silenciosamente, as cortinas estão encardidas e as janelas rangem com o vento, como se implorassem para serem abertas. Alguns raios de sol ousam a invadir o lugar e permitem que você enxergue o quanto ele está empoeirado. Tudo cheira a mofo e abandono. Parado no meio da sala, você fecha os olhos e tenta ouvir a música que costumava tocar o dia todo por aqui, mas o único som que escuta é o das madeiras do telhado estralando de vez em quando. Seus olhos vasculham por todos os cantos, procurando por algo que ainda não sabem o que é. Tudo continua exatamente no mesmo lugar, mas ainda falta algo.

Suas mãos alcançam o interruptor, mas as lâmpadas não acendem. Só assim, você percebe que já não existe mais luz aqui. Você se vai.

Finalmente posso sair do meu esconderijo e volto a minha programação normal: me arrasto pelo cômodo como o fantasma que sou. Lamentando. Resmungando. Xingando. Definhando com a casa. Passo meus dias assim.

Vez ou outra, quando alguém bate à porta, me escondo atrás das cortinas até que parem de insistir. Passo as horas livres a sua espera, e assim que te vejo, volto a me esconder. Então tudo se repete: você entra e procura por algo que não sabe o que é, não encontra, percebe que o lugar está morto e se vai. A mim, resta a solidão e a esperança de que você volte no dia seguinte ou na semana que vem e perceba que o procura aqui sou eu — ou quem eu costumava ser.

Se você se esforçasse um pouco mais, perceberia que o cômodo é só um cômodo se eu não o habito.

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    escrevendo com sangue