Enfim, 20.

Enfim, 20. Tenho pensando no que isso significa para mim, mas não consigo chegar em conclusão alguma. Olhando para trás, não encontro nenhum feito extraordinário que mereça ser relatado. Se me perguntarem sobre algum amigo de mesma idade, poderei dizer com exatidão: “sim, conseguiu entrar na universidade que desejava” ou “sim, está viajando por tal país”. No meu caso, acredito que nunca fui do tipo que sabe o que quer. Verdade seja dita, me tornei alguém difícil de se lidar e cada vez mais confuso no que abrange tudo em relação a si próprio.

É triste quando penso sobre minha relação com os outros. Já tive tantos amigos e hoje me pergunto se é minha culpa a maioria deles terem partido. Minha mãe diz que é normal. “Pessoas tomam caminhos diferentes, é instinto, é como a vida funciona”. É certo que ela tem razão, mas não consigo aceitar tal resposta como justificativa. Queria poder voltar a falar com algumas pessoas. Queria poder me desculpar com quem eu magoei. Queria voltar no tempo em que uma briga entre amigos era resolvida com um abraço torto, dado de má vontade, mas que no final do dia, sabia, voltaríamos juntos para casa e daríamos risada de tudo aquilo.

Tornou-se tudo tão complicado.

Não sei viver o que a minha vida se transformou. Sinto-me como uma criança presa dentro de um corpo adulto sem saber como reagir. Às vezes ainda sonho em salvar o mundo com meus amigos, mas esmaeço ao perceber que sou pequeno demais para conseguir mudar qualquer coisa. Perdi minhas avós nos últimos dois anos, as únicas pessoas que me encorajavam a ser quem eu quisesse. O mundo não é o mesmo sem elas aqui. Estou perdido e ainda me torturo pelo arrependimento de, talvez, não ter dado todo o amor que ambas mereciam.

Fica cada vez mais difícil continuar vivendo quando você toma ciência de toda a proporção não só da sua dor, mas de todo o sofrimento ao seu redor. Tornei-me um depósito que acumula frustrações e desenvolvi transtorno de ansiedade por não saber como canalizar esses sentimentos. Achava que era aceitar isso ou dar fim a tudo, mas enganei-me. Pensamentos autodestrutivos e tendências suicidas também moram dentro deste depósito.

Cheguei a um ponto em que me sinto entorpecido. Tudo é “não” ou “tanto faz”. E sim, eu gostaria muito de encontrar uma forma de mandar toda essa tristeza embora, mas não sei se sou capaz de fazê-lo.

Enfim, 20. E todos os dias continuam como salas escuras em que eu tento desesperadamente procurar alguma fresta de luz a qual eu possa me ater. Enquanto isso, minha única certeza é de que eu tenho medo do futuro, medo de ficar preso dentro de uma dessas salas e nunca encontrar a saída.

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