Catarse

Às vezes eu me sinto que nem uma quimera. Cabeça de dragão, corpo de leão, patas e asas de águia. A gente faz tanta coisa durante o dia, são tantos pensamentos e reflexões que percorrem nossa cabeça, que no fim do dia tu fica se sentindo uma colcha de retalhos, um pedaço de trapo que você se esforça por costurar, apalpando cada pedacinho com o carinho digno de uma mãe. Seus pensamentos determinam suas ações, e suas ações constroem o seu dia-a-dia, essa infraestrutura de relacionamentos, hábitos, compromissos, lazeres, decadência e convulsão à nossa volta.

Oque é o nosso dia-a-dia?

É um fluxo de informações mais forte que a pororoca do Rio Amazonas. A gente ta sempre lendo ou ouvindo alguma coisa, no micro ou macro, no youtube ou no spotify, na rádio ou na TV, tem sempre o que se fazer. Interessante também é ver o quanto as pessoinhas de hoje-em-dia estão tornando-se reclusas.

Os meios que usam que permitem isso, eu diria. Você só ouve aquilo que é de seu agrado pois é o que o youtube te indica, baseado naquilo que você ouve, que é aquilo que ele te indica, que é o que você ouve, que é aquilo que ele te indica. O Spotify também funciona assim. Ai você vai ficando gradativamente mais e mais alheio aquilo que você não costuma ouvir. Não é como se você tivesse que ouvir um programa de rádio inteiro para curtir aquelas cinco ou seis músicas que você ama. Ali você tem contato com o que tá alheio à você, e são essas experiências-empíricas que vão moldar o seu raciocínio, a curto, longo prazo talvez.

Então as pessoas estão tornando-se reclusas nos seus gostos pessoais. Isso não significa coisa boa ou coisa ruim. É só uma constatação. Tá rolando.

Mas o melhor de tudo é ter aquela pessoa especial pra recostar a cabeça no busão e ficar besta por uns momentos. Eu tenho.

Um mozão é um mozão. Quem não gosta de um colo, nem que seja uma vez por mês (ou por ano)? Será que isso é uma necessidade de reprodução? Procuramos alguém pra acasalar, e ai os hormônios da evolução agem nos prendendo à alguém, para garantir a continuidade da espécie? Será que nós criamos um vínculo psicológico com a pessoa, de posse e de entrega, para não nos sentirmos completamente sozinhos? Será que Apollo realmente separou os seres-humanos uns dos outros, que outrora eram colados uns nos outros pelas costas, e agora estamos fadados à procurar nossa metade da laranja, como conta o folclore grego?

Não sei. Só sei que fico bobo pensando em você. Essa taquicardia, essa boca seca, isso tudo é muito bom. O vislumbre do teu sorriso me põe em riso.

Vou do Leme ao Pontal, de São Paulo ao Nepal, todo dia, com um clique. E por causa de tantas histórias eu meio que fico esperando algum figurão lendário aparecer na minha frente. Tipo esses de série, ou de filme. Fantasia fruto de muito assistir desenhos animados. Ai tu fica encucado: Musashi realmente existiu bicho!

Musashi foi um famoso espadachim do Japão Feudal. Tão famoso que virou lenda. Se fosse vivo hoje ia ter que criar uma conta no instagram pra manter a fama, no mínimo.

Eu achava que era tipo um folclore japonês, algo do tipo, mas não! Tem data de nascimento, de óbito, tudo certinho. O ser humano tem algo de tão fantástico, que tem a capacidade de influenciar gerações e mais gerações posteriores a ele, fazer arder sentimentos, inspirar lendas, e orgulhar os mais apaixonados. Como um cara, por causa de seus próprios atos, sua vida pessoal como um cidadão comum, consegue criar todo um rebuliço ao seu redor. Tudo depende de você. Olha que doido.

Exemplo disso são os escritores. Labutam no ofício que lhes dá prazer, e isso os coloca numa posição de destaque… Fixe-se nessa descrição, “labutam no ofício que lhes dá prazer, e isso os coloca numa posição de destaque”. O pedreiro que gosta de dar pedradas ganha o mesmo destaque? Ganha o padeiro? O confeiteiro?

Vendo deste ponto, são certas profissões que levam o cidadão à certas posições de destaque. Mas isso não quer dizer que isso seja bom, ou ruim. É só uma reflexão.

Isso é só uma catarse.

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