Chuva

Toda vez que a chuva cai, parece que me traz alguma lembrança. Traz uma sensação de que já estive ali, naquele momento intermitente, que só existe enquanto cair algo do alto.

“Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro”, já cantarolava Djavan. Engraçado essa associação que a gente faz da chuva com o livro. Será que a gente concentra mais no livro, por que a chuva nos prende em casa? Por que aumenta nosso poder de imersão? Eu não sei, só sei que hoje acordei e tava chovendo e peguei um livro que dormi em cima ontem.

Deglutindo ensinamentos sobre táticas de grupo e sobre a potência da energia interior, permiti-me animar com uma reflexão. Enquanto cingimo-nos de ponderação e meditamos, cresce a energia do espírito, e é a influência do espírito a responsável pela utilidade de um exército e o lograr da batalha.

Quer prova mais translucida do afeto pela chuva?

Madrinha das colheitas, comadre dos riachos, ela incita a energia do nosso espírito. Quando tu te colocar a admirar o gotejar das nuvens, que vai te fazer imergir parado naquele lapse de natureza, sinta o pulso que vai submergir de você.

Teve um dia que eu tinha acabado de chegar no terminal de transcol, e começou a cair uma chuva que só com reza. Olhei, inspirei suspirei, disse pra mim mesmo, “Desgrama. Não tem o que fazer mesmo. Vou ficar olhando essa porra”. E não tinha o que fazer mesmo. Minha irmã tinha catado meu guarda-chuva, eu não podia ir pra casa. Por falta de alternativa, obrigado, imergi na chuva. Ta aí o poder da chuva, mesmo obrigado, tu imerge nela.

Ainda assim fiquei com os pés todo molhado porque tava de chinelo.

Doidera.

Vila Velha,

16 de Julho de 2017.

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