VOCÊ PRECISA LER ISSO — Lorenzo Fonseca

Antoine Cordet

Segredado por um desparecimento repentino, o poeta em questão marcou seus passos no caminho da poesia e recriou, dentro do underground, mais uma via capaz de nos direcionar ao mundo da subjetividade e da originalidade literária, ao encontro com uma obra poética que consegue, de modo simultâneo, ser incrivelmente lúdica e divinamente realista.

Teus olhares ermos me brotam nas horas noturnas. É como se tu me espreitasse longínqua, no céu, camuflando-se entre a brevidade das constelações. Não admito tua partida, porque de alguma forma eu sinto a tua carícia remanescente em minha trêmula carne, ainda ecoa o teu tímido gargalhar nas esquinas dos ouvidos. Tu estás impregnada na ligeireza das horas, estás disfarçada nas evidências, permaneces na dureza de minha teimosia. Teu corpo me escapou dos dedos, mas o teu retrato está a perambular pelos meus sentidos. — Lorenzo Fonseca

Lorenzo Fonseca, cujas publicações virtuais foram encerradas, por motivos desconhecidos, entre o final de 2015 e o início de 2016, é portador de uma linguagem sutilmente ornamentada, “rebuscada”, pautada na exposição espontânea de um espírito afoito, nostálgico e romântico.

Como crias esta atmosfera de mistério? Não te conhecer os trejeitos me interrompe o sono. És como a primavera que se esconde na brisa cálida, ou a efemeridade que se esconde na ilusão dos homens. Dei-te mil histórias diferentes, colhi dos teus olhos um enigma que me persegue. Tu te dissipas pelos minutos vagarosos e habita meu cotidiano como se nada fosse, sempre escapas das minhas certezas como pensamentos que se deixam morrer pelas mãos do tempo. Desconstruo a mim mesmo ao edificar a tua imagem, sem pensar em consequências ou futuros longínquos, simplesmente preencho meus dias com o que és, o que penso que és, e o que me representas. Talvez te seja melhor esta postura incógnita, idealização de uma figura comum. Talvez me seja melhor não saber, pois o místico é o que me embriaga. — Lorenzo Fonseca

Como se o escritor permitisse que seu corpo se afundasse morosamente no mar lírico de uma vida concreta e reminiscente, ele narra com ardência as percepções sensoriais que sua alma adquire ao adentrar o universo oceânico dos sentimentos humanos…

Navalharam-me a coragem escondida entre as minhas vísceras. Tenho pavor de viver, de morrer, os riscos me consomem os pensamentos. Quando me tornei esta criatura assustada, com receios de dar passos longos para além deste meu frágil mundo? No auge de minha mocidade, eu queria um fragmento de cada cultura, de cada pessoa, de cada episódio que me atravessasse pela vida. Era faminto pelas essências, pelo abstrato, morria de tanto querer viver. Agora, estou enclausurado neste derradeiro constante, perdido no desconforto de minhas próprias palavras. — Lorenzo Fonseca

Há desespero, temores, paixão, a sublimidade do amor e toda a consequência de sua expressão; há esperança, há descrença, há o desejo de um jovem que busca a elucidação de velhas dúvidas existenciais; há incontáveis emoções e reflexões inseridas de maneira primorosa nos textos fragmentários de Lorenzo.

Deixem-me em paz. Não me peçam para desconstruir os muros, não quero outros vasculhando os fundos de mim. Respeitem-me o desânimo, não me tentem dissolver o espesso das amarguras. Necessito a solidão para me compreender, estou absolutamente desnorteado e me é cara a recomposição no meio das tristezas. — Lorenzo Fonseca

Ao cessar inesperadamente suas atividades poéticas, Lorenzo Fonseca exilou-se no silêncio; contudo, conforme o tempo evidencia, o seu registro textual ainda ecoa sobre as valas da eternidade.

Meus sonhos estão encobertos em poeira; são parte de minha carne, mas não são agraciados com a concretude. Eu os acumulo em cada noite, transbordo meu crânio de um universo onírico onde tudo me acontece com os esforços das minha capacidade ficcional. Tenho tantos destes sonhos, acabam por ser o auge de meu cotidiano, a escapatória tão querida desta realidade indizível. Enquanto destes sonhos não brotam forma ou substância, permaneço abandonado pelas ruas desertas, querendo e querendo e querendo… — Lorenzo Fonseca

VOCÊ PRECISA LER ISSO é uma espécie de projeto pessoal que visa divulgar os escritores “desconhecidos” do grande público que me influenciam de modo genuíno; normalmente eles provêm do tumblr.

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