Ano Escuro.

Tal e qual uma pérola fechada por tempo demais dentro de uma ostra, enclausurada numa tentativa vã de se proteger do exterior, acabei perdendo todas as minhas qualidades e no fim, perdendo quase todo o meu senso de direção. Tudo ficou em trevas como nunca antes havia sido.

Foram passados longos dias em tons gris e noites frias e vazias, onde o vento soprava forte mas não suficiente para varrer os absurdos que percorriam minha mente. E a lagarta, pálida e vagarosa, foi se arrastando, ainda sem identidade, prendendo-se num casulo feito de silêncio.

A convivência com o mundo que estava do outro lado da redoma foi se tornando cada vez menos intolerável. Era exaustiva e, por muitas vezes, coloquei em xeque se era necessário conviver com o que me era alheio se eu mesma não tinha mais o brilho no olhar. Não, era irrelevante. Se eu não tinha o ouro dos tolos, aquilo que tornava tudo mais leve, se só o ar carrancudo era o meu adorno, nada me interessava.

O lapso mental aumentou absurdamente a medida em que o caos de sentimentos se agravava. Sanidade é equivalente a felicidade em termos de inexistência. Aceitei o silêncio que me foi imposto, aceitei o fato de não poder me defender daquilo que era injusto, imundo mas, mais do que tudo, aceitei a loucura que me foi ofertada. Era minha, era o que só o que eu possuía.

Eu vaguei só. Apreendi todos os meus dogmas, todas as minhas verdades que sempre foram convenientes apenas para mim, coletei todos os medos e temores, todos os sentimentos e vontades e joguei além mar. Refiz todos os meus caminhos e renovei todos os meus prazeres.

Me desconstrui. Me reinventei. Criei uma nova persona forjada em cacos daquela que fui outrora; não me reconheci. Olhei para o espelho e vi o nada. Não há havia ninguém a não ser uma sombra do que fui. Foi difícil me habituar com aquele ser espectral, mas a figura lúgubre logo foi assimilada. Era quem eu era.

Vejo que o farol lá longe se apaga lentamente. Eu posso sentir o calor indo embora, só as memórias me aquecem na solitude. O silêncio agora é constante, repetitivo, mas já não me assusta. Aprendi a domar meus demônios internos. Sigo subsistindo. Mas a escuridão não me aflige mais. Ela se tornou parte de mim.

(Maio/2013)

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