destruí meu corpo por uma paz que eu nunca tive

A primeira vez que eu me cortei, devia ter entre 11 e 12 anos. Não lembro o que me motivou, mas lembro bem do momento que passei a lâmina da gilete no meu pulso e a ansiedade pra ver o sangue brotar do corte. 
Algumas vezes passava estilete por puro tédio. Com o passar dos anos, eu passei a sentir uma motivação maior pra me lesionar. Não pensava em morrer, ou melhor, em me matar. Só queria sentir alguma coisa que fosse além da dor emocional e mesmo por uns segundos, me machucar trazia o alívio que ninguém poderia me proporcionar.

Era forma deu me punir. Uma forma de sentir algo e uma forma de extravasar quando eu quase explodia de tanto sentimento.. parece contraditório, mas é assim que me sinto. Sinto o tudo e o nada, ao mesmo tempo. Pensar em suicídio é quase como piscar, involuntário, natural. Já comecei a escrever cartas de despedida, já me senti uma covarde por não ter executado nenhum dos meus planos e se apegar a ideia que sempre há coisas boas pra acontecer e que deveria aguentar mais um dia. Eu não queria mais aguentar, eu só prolongo toda dor que já venho sentindo há tanto tempo e os momentos de alegria são raros e mesmo quando acontecem, são breves.

A depressão é meu estado permanente e natural. Momentos alegres e de descontração são estados temporários e superficiais e depois de vive-los, é como se nunca tivessem existido. Parece que enxerguei tudo de fora e que aquilo não fez parte da minha vida. Não sou protagonista da minha existencia e sim uma mera coadjuvante.

Ou quem sabe, uma telespectadora.

Me sinto presa no meu próprio corpo como se eu vivesse no corredor da morte esperando dia da minha execução mas ao invés de sentir medo, eu espero por ela ansiosamente. Só quero que a dor pare.

Não consigo pensar em motivo algum pra estar aqui, soa egoísta mas é como me sinto. Nada faz sentido e tudo que coleciono é dor. Qualquer coisa idiota que acontece comigo já é o bastante pra eu querer jogar tudo pro alto e ir da fúria pra vontade incessante de tomar todos os remédios que vejo pela frente, me jogar do carro em movimento, cortar meus pulsos de forma eficaz e não precisar ficar escondendo feridas ridículas até cicatrizar.

A segunda vez que tentei acabar com a minha dor, foi quando numa briga com a minha mãe dentro do carro, eu tirei o cinto e abri a porta do carro em movimento pra me jogar.
Eu não senti medo. Eu realmente ia fazer aquilo. 
Ela me segurou e disse “Dominike, você tá doida?” nunca mais voltamos nesse assunto.

A terceira vez, eu comecei a procurar descontroladamente remédios pela casa. Tomei uns 12, de diferentes tipos que nem me recordo agora e dormi por apenas 13 horas. Senti ÓDIO de mim, fracassei DE NOVO. Todas as outras vezes que ousei tentar algo, minha irmã interviu e sei que se ela não tivesse feito isso, eu não estaria aqui. Tiraram a chave do meu quarto da minha porta mas ninguém ousa a entrar nesse assunto. Ninguém quer conversar com alguém sobre o quanto ela quer morrer porque parece surreal mas eu sei que só ela vai me libertar um dia, até lá vivo acorrentada e tentando ter uma vida normal a base de remédio e terapia.

Eu precisava por isso tudo pra fora de alguma forma, meu português não é maravilhoso assim como o assunto que tratei aqui. Assim como os pensamentos que me rondam todos os dias. Assim como as cicatrizes que carrego por todo o meu corpo.

Me desculpa pelo o que me tornei, me desculpa por te fazer sofrer e te mutilar. Mas você mereceu.

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