Por que fazemos (e continuaremos fazendo) comparações

A Seleção Brasileira de Futebol feminino venceu por 3 a 0 ontem, na estreia contra a China na Olimpíada, enquanto a equipe masculina não marcou gols. Mas isso não é sobre números.

Não estamos comparando a capacidade das mulheres em relação aos homens no futebol ou vice-versa, nem estamos dizendo que elas jogaram melhor apesar de serem mulheres. O ponto não é este.

Já falei muito sobre isso entre ontem e hoje e faço questão de bater novamente nessa tecla. O futebol feminino no Brasil não é valorizado. Não é sequer reconhecido. Não temos notícias dos jogos da seleção das mulheres, a não ser que procuremos por conta própria, e muito menos das equipes femininas dos clubes do nosso país. Salvo nas Olimpíadas, os jogos nunca são transmitidos nas grandes redes de televisão, nem mesmo os da Copa do ano passado, realizada no Canadá. O único canal da TV aberta que passou foi a TV Brasil.

(Você soube que teve uma Copa do Mundo de futebol feminino em 2015?)

Há algum tempo escrevi sobre a Formiga, meia da Seleção Brasileira. A Formiga joga desde criança e quando tinha 15 anos ela entrou para a equipe feminina do São Paulo. Foi a única vez que ela teve a carteira assinada como jogadora. Nos outros clubes onde jogou, não recebia salário, apenas algum auxílio dos times.

A não ser que uma jogadora seja contratada por uma equipe estrangeira, é esta a condição das atletas no futebol no Brasil. A seleção permanente foi criada para dar suporte às jogadoras que não têm um clube, mas isso ocorreu apenas em 2014. E ainda tem muito pra acontecer. As condições não são boas, o salário é péssimo, o reconhecimento e a visibilidade não existem.

A Seleção Brasileira de Futebol Feminino não tem nenhum título considerado de grande porte. Tem duas pratas em Olimpíadas, três ouros em Jogos Pan-americanos, um vice-campeonato na Copa do Mundo (2007) e foi campeã de todas as Copas Sul-americanas das quais participou. O que, dadas as condições, são conquistas gigantes.

O que vimos ontem na estreia das mulheres na Olimpíada do Rio foi um jogo de futebol com todos os atributos necessários para ser considerado uma grande partida. Jogadas sensacionais, passes certeiros. Gritos de gol. Três.

Marta saiu na metade do segundo tempo. Sofreu uma falta que a fez sentir a perna e era melhor que se cuidasse para jogar bem na partida de sábado. Saiu do campo aplaudida pela torcida, pelas companheiras, passou a braçadeira de capitã e não tirou o sorriso do rosto. Cumprimentou toda a comissão técnica.

E não vimos nada disso hoje, no jogo de uma seleção cujos atletas convocados são considerados gigantes em seus clubes. Jesus joga muito bem. Acompanho quase todos os jogos do Palmeiras desde quando ele entrou. Gabigol. O que dizer do Gabigol?E o Neymar? Neymar deixou de jogar a Copa América com a desculpa de ser poupado para a Olimpíada e cometeu erros absurdos na partida de hoje. Como equipe, o Brasil jogou feio. Ou não jogou.

E é a seleção do horário nobre. A seleção que lota estádio. Dos jogadores que recebem salários milionários, bilionários. A seleção masculina.

A comparação é esta. Uma equipe que tem todo o apoio do mundo, com jogadores admirados por todos os aficionados por futebol, não fez diferença nenhuma em campo. Ameaçou, mas não fez uma bola balançar a rede.

Enquanto a outra equipe, que joga sem condições, que não recebe salário, que tem no máximo três nomes lembrados, sendo que apenas um é realmente conhecido, de fato jogou.

A China não é um time gigante. Sua defesa foi boa ontem, mas suas jogadoras não são excepcionais. A questão não é essa. Teve brilho no futebol das brasileiras ontem. Teve vontade de jogar. Hoje, no jogo dos homens, não teve.

Por isso, nós vamos fazer comparações desse tipo, sim. Vamos comparar até não haver necessidade. Até que o brasileiro note que mulheres não brincam de jogar futebol. Que elas querem coisa séria dentro de campo. Que elas merecem o horário nobre, as tardes de domingo. Que elas merecem salários justos. Até elas estarem no mesmo degrau.

Enquanto isso não mudar, bateremos nessa tecla. Falaremos todos os dias, encheremos as redes sociais. Mas não vamos parar até que tudo mude.

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