Sobre viver o sonho Olímpico

A chama vai embora, mas permanecerá acesa dentro de mim. (Foto: Reuters)

Não sei me despedir do que amo. Todo mundo sabe o quanto eu chorava ao voltar do Rio todas as vezes. Ninguém é capaz de imaginar o quanto eu chorei quando minha mãe foi embora do Brasil. E agora o melhor ciclo da minha vida em muito tempo, o melhor período de 2016 está indo embora. Eu nunca quis que acabasse e é difícil encarar que amanhã vou acordar e não vai ter esporte me esperando pra ser assistido.

Mas, acima de toda a tristeza que o encerramento da Olimpíada do Rio pode me causar, estão todos os sentimentos inimagináveis que ela me levou a ter. Desde a abertura, não houve um dia que eu não tenha chorado de alegria e quase explodido de felicidade.

Durante estes 16 dias eu vivi o sonho Olímpico sem praticar um esporte sequer, e sem nem estar no Rio. Daqui da minha casa, do meu quarto, do meu colchão e da minha cadeira que me servem de redação, vivi um sonho, a cada dia. Ao escrever cada texto após as competições, cada especial sobre os medalhistas, senti o impacto de fazer parte do maior evento esportivo do mundo, que foi realizado no meu país. Senti a imensidão de trabalhar na Olimpíada, de ser Olímpica. Foi um prazer absurdo, inimaginável, indescritível fazer parte da Olimpíada do meu país.

Aprendi tanta coisa nesses dias, cresci tanto pessoal e profissionalmente, que nem sei como mensurar. Eu tenho me sentido infinita e estou encontrando o meu lugar no mundo. Não importa o quanto a vida tente me tirar deste lugar, não importa o quanto eu tente fugir (e eu juro que não vou, nunca), o meu lugar é o esporte. O jornalismo esportivo. É este o meu objetivo de vida.

A Rio 2016 me deu um novo sonho, um sonho enorme. Daqui, do meu cantinho, me sinto uma formiguinha diante da imensidão do que meu coração passou a desejar, mas a Rio 2016 me fez entender meu tamanho, minha capacidade e meu potencial de fazer o que for preciso para conseguir o que quero. Desde aprender as regras do Omnium até chegar a Tóquio em 2020.

Eu tenho de agradecer a VAVEL por essa oportunidade, por esse privilégio. Em janeiro desse ano fui chamada para fazer parte disso. Em abril escolhi um esporte para escrever sobre no guia que criamos. Escolhi o ciclismo, e tudo começou ali mesmo. Em ambas as ocasiões, desde o convite do Marcello, até aquela noite de abril que disse que escreveria sobre ciclismo, eu não tinha a menor ideia de tudo o que aconteceria, do quanto eu me envolveria, do quanto isso mudaria a minha vida. Obrigada, VAVEL, obrigada a toda a redação. Eu sinto um orgulho enorme de todos vocês, uma gratidão absurda por trabalhar com vocês.

Valeram a pena cada rolê que eu desmarquei ou recusei, as horas a menos de sono, ir almoçar às três da tarde, os sonhos doidos com textos e molho de tomate. Valeu a pena escrever cada texto. Não dá para medir o tanto que isso me fez crescer, em tantos sentidos.

A Rio 2016 me devolveu sentimentos que eu deixei que se perdessem por um tempo. Já tinha uns meses que não sentia aquela coisa toda pelo esporte. Durantes estas semanas eu senti. Senti a emoção, o calor, o peito acelerado, aquela tensão horrível e maravilhosa de uma decisão por pênaltis, o grito e o choro rompendo a garganta depois de uma vitória. A paixão voltou. O amor além de tudo que sou voltou. A esperança de que as coisas podem mudar com uma bola no pé de uma criança, ou em cima de um tatame, ou nas raquetadas em uma peteca, em cima de uma bicicleta, dentro do mar ou da piscina, essa esperança voltou. E ela vai me fazer caminhar até o fim da minha vida; e eu vou lutar por ela até meu último suspiro.

Pode parecer exagero pra quem não entende do que eu sinto, mas a Rio 2016 mudou a minha vida. Duas semanas. 16 dias. Eu não vou mais conseguir ser a mesma.

Não dá pra eleger um melhor momento. Sempre que penso em um, milhões de outros me vêm à mente. Ter ido ao Itaquerão naquela sexta-feira foi gigante, mas ver a Rafaela com o ouro também foi. Ver as meninas do futebol jogando foi imenso, mas o Thiago Braz também. A Rio 2016 foi o melhor momento de tudo em si.

Obrigada a todo mundo que me acompanhou por aqui, que tem lido minhas matérias na VAVEL, que me seguiu no Twitter da Leiga. Todo mundo que me apoia e que me aguenta falando de esporte 24 horas por dia. Obrigada por tudo.

Pensando bem, agora no fim, pesando tudo, olhando pra trás, não é uma despedida. É só o começo de tudo.

Obrigada, Rio 2016. Eu te amo.