Fica, vai ter bolo da Pabllo Vittar!

Sobre festas de aniversário e o casal gay de adolescentes

Por fora pareço normal, mas por dentro… sou espetacular!

Hoje o assunto é: festa de aniversário! Quando eu era criança não tinha coisa melhor. Bolo, docinho, refrigerante, churrasco, arroz com vinagrete, pique-esconde, pique-pega, pique-bandeirinha, É o Tchan, estourar balão, eventualmente ir chorando pra mãe… enfim, eram dias de diversão. Quando o aniversário era meu então, nossa, era o meu dia! A festa era pra mim, os presentes eram pra mim, os parabéns eram pra mim, era um dia dedicado a me enaltecer, porque, afinal, eu tinha esperado um ano inteiro para aquele dia. Tudo era muito bom, mas… tem aquele momento que… aff. É uma tradição e acontece desde que eu me entendo por gente. Não se passava um ano, um aniversário, sem que esse momento específico acontecesse. E estava todo mundo esperando por ele, ansiosos para aumentar ainda mais a voz e entoar aquelas palavras: “Com quem será? Com quem será? Com quem será que o Nildo vai casar?…”. Gente, pra quê isso? Agora imagine eu botando a mão na minha testa e balançando a cabeça negativamente porque é essa a minha reação quando eu lembro desses momentos até hoje. Gente, pra quê isso?

Que vergonha que eu passava na hora do com-quem-será. Que eu lembre dos meus cinco aos dezoito anos mais ou menos, todo ano, todo aniversário, tinha que ter esse momento de constrangimento. E é um constrangimento que foi evoluindo, porque aos cinco anos pra mim era uma vergonha pra mim falarem que eu tava namorando com a coleguinha da escola, mesmo que todo mundo levasse isso na brincadeira. Aos doze anos anos era uma vergonha porque qualquer que seja o nome que falassem o povo já ia pensar que aquilo tinha um fundo de verdade. Ao mesmo tempo você tá descobrindo que gosta de meninos e entrando num processo de um verdadeiro inferno psicológico. E aos dezoito anos era uma vergonha a pausa na cantoria na hora do nome esperando que alguém fale alguma coisa. Mas sua vida amorosa é tão inexistente que ninguém tem uma sugestão sequer. Ainda mais quando estão esperando um nome de mulher pra cantar, mas lá no fundo das suas cabecinhas está todo mundo se perguntando: “Será que ele gosta de mulher? Ah não, ele deve ser só tímido e reservado.”. Pra mim naquela época só era importante que a segunda parte desse pensamento estivesse lá.

Eis que, essa semana, viraliza na internet um vídeo de um adolescente de treze anos, abraçado com o seu namorado de quinze anos enquanto cantam parabéns para ele no seu aniversário. Eles se beijam no vídeo, e um detalhe: o bolo tem a foto da Pabllo Vittar. O bolo era maravilhoso, mas agora, sem hipocrisia, eu fiquei chocado. Eu fiquei chocado porque pra mim aquilo era surreal. Eu assisti ao vídeo boquiaberto e pensando: “Gente, que falta de noção! Não é possível! Esse menino não tem vergonha e nem noção do perigo que tá correndo!”. Mas depois eu parei pra pensar, e concluí que eu estava me botando na posição dele. Eu estava sentindo vergonha alheia, porque me botei na posição dele com a minha cabeça da época em que eu estava fazendo treze anos. E quando eu tinha treze anos, pra mim aquilo seria a morte por causa de tanta vergonha. Seria um verdadeiro risco de vida. Seria a desgraça da minha família e definitivamente não haveria um clima de festa, seria um clima de velório. No meu aniversário de treze anos, na hora do parabéns, eu já estava ficando tenso por causa do com-quem-será que viria logo a seguir. Ao mesmo tempo estava só começando a inútil batalha que eu travei sozinho contra a minha sexualidade nos anos seguintes. Aquele menino do vídeo, não vai passar por nenhuma dessas batalhas. E pensar nisso me faz refletir que o que eu deveria sentir não é vergonha alheia, mas sim felicidade pelo outro. Mas ainda sinto um pouco de inveja, porque sou humano, e nunca tive isso.

Mas o que eu mais vi foram pessoas criticando o menino do vídeo. E foram muitos argumentos que tentavam ser não-homofóbicos. O principal deles foi: “Ah, não importa se é hétero ou gay, com treze anos não deveria estar namorando.”. Bom, eu tenho que dizer que eu concordo com isso. Eu não acho que com treze anos as pessoas deveriam estar pensando em namorar. Mas adivinha só, com treze anos, eu estava pensando em namorar. Meus amigos estavam pensando em namorar. E alguns dos meus colegas estavam namorando. Com treze anos, tudo que esses adolescentes conseguiam falar era de quem beijou quem, quem ficou com quem, quem namorava com quem. E se você nunca tinha ficado com ninguém, você era um perdedor. Pois é.

Hoje eu consigo ver o tamanho da imaturidade nisso. Porém eu não me culpo sozinho nesse tipo de imaturidade. Eu cresci com pessoas me incentivando a namorar desde muito cedo, e acredito que foi assim também para a maioria das pessoas. Sempre me arrumavam uma menina para ser um casalzinho. Sempre tinha aquele comentário do tipo “quando crescer vai namorar com fulana”. Sempre tem alguém perguntando sobre as namoradinhas. Sempre tem o maldito do com-quem-será no dia do seu aniversário. Sempre botam o namoro como se isso fosse um aspecto fundamental da sua vida. E depois que você atinge uma idade que começa a ter interesse, você não pode mais namorar. É errado!

Na minha cidade ainda classificavam o namoro dos adolescentes em dois tipos: o namoro na rua e o namoro em casa. Era muito comum ouvir falar que fulana namorava na rua mas agora tá namorando em casa, ou seja, agora a família sabe e aprova. O namoro na rua era mal visto, e o namoro em casa muitas vezes permitido sob a justificativa de “se não namorar em casa, vai namorar na rua”. Essa era uma preocupação que se tinha com a sua filha, mas não com o seu filho, o que mostra o machismo nosso de cada dia. Mas de tantos usos do termo namoro, nunca foi colocado na minha cabeça que namoro poderia ser entre pessoas do mesmo sexo. É como se a palavra namoro não fosse definida para esses casos. E essa semana, eu fico sabendo do primeiro caso do tradicional namoro em casa homossexual que eu já vi na minha vida. Isso é um sinal da sociedade mudando aos poucos, e eu fico feliz com isso.

Algumas pessoas ainda dizem que o menino só está namorando com outro menino porque ele foi influenciado. E isso não é nem de perto uma verdade. Sempre existiram homossexuais, mesmo tendo todas as influências hétero do mundo na infância. Com a minha geração foi assim. A única coisa que está acontecendo com essa nova geração é que parte dela não tem mais que sofrer por causa disso. Parte dela pode ter uma vida de adolescente normal, independente da sua sexualidade, e isso me deixa contente. Eu ainda acho que treze anos não é idade pra dar prioridade ao namoro, porém esse problema só vai ser corrigido quando, no mínimo dos mínimos, o com-quem-será for apenas mais uma cantiga no folclore brasileiro. No mais, que todo mundo possa ser feliz como o menino do vídeo!

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