O brasileiro e as festas

Às vezes não entendo certas coisas que acontecem no Brasil. O tempo passa e me sinto cada vez mais estrangeiro, mas acho que é a distância que ajuda a ver os fatos com um pouco mais de clareza. Para entender melhor este ponto de vista, vejamos uma história familiar…

Um pai de família resolve dar o churrasco do ano de sua rua. A festa era importante e ele queria melhorar sua reputação com os vizinhos. A casa não estava em ordem, algumas janelas quebradas, o piso da calçada havia descolado do chão, poças d’água e um tanque com água parada logo na frente da casa. Mas os problemas não paravam aí, os corredores da casa também estavam por fazer e as paredes a pintar.

No dia da eleição, este pai de família propõe aos vizinhos sua casa e promete que até o fim do ano todos os problemas estarão resolvidos. Paredes pintadas, corredores novos e brilhantes; o tanque com água parada seria limpo e transformado em piscina para as crianças durante a festa. Os vizinhos ficaram impressionados e decidiram escolher a casa do vizinho para a próxima festa.

O pai chega em casa com a grande notícia: o próximo churrasco será aqui em casa. Um dos filhos pergunta:

— Mas e o corredor? como vamos fazer tudo isso até o fim do ano?

O pai responde:

— Não se preocupe, eu tenho um plano: vamos economizar um pouco e deixar nossa casa em ordem até o fim do ano.

Todos ficaram felizes e comemoram aquela noite.

No dia seguinte, o pai chama a esposa e pede para cortar as despesas do supermercado. Como a festa seria no exterior da casa, ele queria pintar o muro, construir um novo pátio e uma churrasqueira de tijolos. Sua esposa não acredita e diz: não temos dinheiro para isso, como faremos?

— Vamos alternar entre almoço e janta. Um dia jantamos e no outro apenas almoçamos. Faremos assim até o fim do ano e com o dinheiro faremos as obras. Será um grande esforço, mas nossa casa estará linda no fim do ano e pronta para a festa.

— Mas e as crianças? Apenas café e almoço ou café e janta não são suficientes!

— Não se preocupe, para ajudar nas obras elas não irão para aula todos os dias, apenas 3 vezes na semana.

— A mãe hesita, mas no final concorda, apenas durante um ano e até a festa, certo?

— Sim, apenas até a festa, vai valer a pena!

O esforço começa, as crianças se acostumam com o esforço extra, embora com grande dificuldade na escola. A mãe começa a desconfiar que há algo de errado com o marido. Mesmo com as economias que fazem, falta dinheiro e as obras não avançam. Falta material e quando este chega é de péssima qualidade. Ela então pergunta a seu esposo:

— E o resto do dinheiro? Porque os tijolos ainda não chegaram? Não temos mais cimento e nem compramos a tinta ainda!

— Não se preocupe, até o fim do ano tudo estará pronto.

O tempo passa e as obras pouco avançam. O pai decide então não mais fazer o piso do corredor, uma vez que os convidados serão recebidos fora de casa. O mesmo para as paredes, que não estarão a vista.

A mãe não aceita facilmente a mudança dos planos e diz que se algo justificasse tanto esforço seriam as melhorias para dentro de casa e as que restariam após as festas. Ela reclama que pouco se importa com os convidados, mas em onde seus filhos habitarão após as festas.

Um pouco antes do grande dia, tudo ainda está por fazer. A solução foi que todos parassem de ir às aulas e que ajudassem nas obras na véspera da festa. E assim foi feito. A área externa foi terminada, faltava apenas tirar a poeira no dia da festa. O corredor e as paredes da casa ficaram para depois, pois não tiveram nem tempo nem dinheiro para fazer muita coisa. O tanque sujo continuou sujo, mas foi coberto para não incomodar os convidados.

O dia da festa chega e ao contrário da obra, as festividades parecem estar todas prontas. Muita carne, cerveja e até bandas de música para animar a festa. Os convidados chegam e a festa começa. Alguns são convidados a entrar na casa e ficam horrorizados com a diferença entre a área externa e interna da casa.

As crianças aproveitam a festa para comerem como há um ano não faziam. Alguns vizinhos perguntam o que aconteceu, pois das 5 crianças, 3 perderam o ano e as outras 2 apenas passaram. O pai diz que foi um ano difícil, mas que após as festas tudo iria melhor. A festa continua e todos se divertem.

No meio da festa, a mãe descobre que o marido tinha uma amante e que esta era a causa do dinheiro não ter dado para realizar todas as obras. Para não estragar a festa, ela aguarda o fim para conversar com o marido.

A festa chega ao fim. Foi tudo muito bonito, a carne estava ótima e o tanque sujo virou uma excelente mesa. As crianças foram mal na escola, perderam uma refeição por dia e tiveram o crescimento prejudicado. A casa não teve as paredes pintadas e o corredor continua com o piso solto. A mãe pediu o divórcio do marido, mas sabe que terá que pagar as dívidas do churrasco junto com ele por muito tempo, pois a carne e as bandas foram pagas com crédito. Mas a festa foi boa. Será que valeu a pena?

Se considerarmos a mãe e os filhos como o povo e o pai como o governo, a amante seria a corrução e a festa as olimpíadas, mas a pergunta é a mesma: valeu a pena?